sábado, 9 de agosto de 2008

Viva o aniversariante!

Estêvão, mon cher,

Hoje é você quem aniversaria. Parabéns pela chegada aos 40, onde, dizem, e com razão, que a vida começa, ou melhor, uma outra e significativa fase tem início. Entre outras delícias, nossa maturidade é posta à prova, vejo hoje. Tenho certeza que você está feliz com a data e a meta atingida, e olhando para o futuro com esperança, como sempre devemos estar. Sinto só estarmos tão pouco perto um do outro, digo fisicamente mesmo, na convivência. Veja só hoje: você aí, no Rio, e eu aqui, em Paris; nos últimos tempos tem sido no Acre. Ainda teremos este tempo - o da convivência mais estreita.

Enquanto isso, festejo aqui de longe com você sua data natalícia, e te conto um pouco o meu dia. Um singelo presente meu pra você.

Pela manhã, digo, já meio-dia pra tarde, acabei passando pelo Arch de Triomphe, e dali desci um pouco pela avenida Champs-Elysée. Bom, na verdade fui parar ali por acaso, e só por este acaso é que acho que fui parar ali. Quer dizer, não me passava pela cabeça ir passear nesta avenida, embora ela seja tão famosa. Estava cheia de gente, de lojas de griffe e também de contrastes (que comento em data menos especial).
Depois, passeei pelos canais parisienses, mais especificamente pelo San Martin e a Bassin de la Villette. Os dois tem seus cais, e no segundo fui pelo lado que se chama Promenade Signoret Montande. É a praia de Paris! Cheia de atrativos, inclusive uma areia meio pedregosinha numa parte do caminho, onde tem cadeiras espreguiçadeiras com listras coloridas, mesinhas e cadeiras de metal coloridas, uma espécie de chuveiro que solta vapor d'água (parece uma maresia de água doce e fresquinha) para quem quiser se refrescar, brinquedos para criança, lugares para comer e por aí vai. Muito legal, muito mesmo, esses equipamentos públicos de lazer, que todo mundo usa, sem precisar levar o seu de casa. Já imaginou ir para o Jardin du Luxembourg com a sua cadeira de baixo do braço?
Cheguei num tablado destinado a dançar: lá estava um senhor com um instrumento musical de mil novecentos e antigamente, uma pianola, digamos, daquelas nas quais você enfia a partitura que está codificada em folhas de papel furadas, e aí gira uma manivela e o som sai. Muito legal. Lembrou-me de cara o som do realejo, só que mais sofisticado (tocava até "La vie en rose"). Fiquei ali um tempo, lanchando e curtindo as pessoas cantando e dançando em volta.

Ao final do dia fui ao Musée du Quai Brainly, lembra, que você me falou. Um museu novo, para quem não sabe, inaugurado em 2006. O prédio é todo modernoso e o jardim, achei engraçado, parece um "matagal". Explico-me: há espécies diversas, mas entre elas uma espécie de mato. Você lembra daqueles terrenos baldios da Ilha do Governador, daquele mato que tinha? Pois é, achei parecido. Dá só uma olhada:

O Quai Brainly ("là où dialoguent les cultures") é um museu etnográfico com uma coleção permanente IMENSA. Visitei só um pedacinho, o destinado a sociedades da Oceania. Bom, vou falar um pouco do museu. Não tem mais foto porque lá dentro não pode fotografar. Ele tem uma divisão preliminar por grandes regiões do mundo: Oceania, África, América e Ásia. Aí, nestas grandes regiões, tem ainda um critério geográfico operando, ou seja, cada uma destas grandes regiões, no caso a Oceania (que visitei), é subdividida em regiões menores (mas grandes ainda), como a Nova Guiné, a Autrália, a Nova Zelândia, as Ilhas Marquesas etc. Combinado a esta subdivisão regional, vem uma que é temática. No caso da Oceania: objetos ornamentais e rituais (de iniciação, funerários, mágicos), adereços e jóias, máscaras, instrumentos (musicais, de trabalho, domésticos), motivos de pinturas corporais, entre outros.
Minhas primeiras impressões são duas. A primeira de que a divisão, o critério de exposição das peças, é passível de discussão. Por exemplo: eles pegam o leste da Nova Guiné e o tema dos ritos funerários, aí põem num mesmo espaço de exposição objetos utilizados em algumas das sociedades naquela região viventes. Aproxima-se coisas pela finalidade dos objetos, um pequeno texto tenta construir uma unidade também pelo significado, mas, não sei, a onde se quer chegar com este tipo de classificação? Em antropologia tudo isso dá pano para manga. Claro que alguma unidade regional é possível ser encontrada, afinal aquelas sociedades são vizinhas e trocam há muito, mas dá uma certa aflição ver aquela peça tirada do seu contexto societário e aproximada de outras igualmente "descontextualizadas" porque servem a mesma função.
Esta observação levou-me a segunda: chegou uma hora que simplesmente parei de ficar lendo aqueles textinhos e me detive nas peças mesmo; parei de ficar tentando compreender algo que não ia encontrar ali, de ficar aflita com aquela reunião de coisas "diferentes", e me deixei envolver pelas peças, pela sua beleza. São MARAVILHOSAS! Como será que esta coleção de objetos foi reunida? Coisa incrível. São esculturas gigantescas e belas, peças artesanais finíssimas, só vendo. Cada vez ficava mais deslumbrada, e aí me peguei dizendo "esses caras são uns artistas". Isso! Comecei a ver a exposição como de obras de arte. Aí fiquei me perguntando sobre as relações que existem entre o que é chamado de "arte", "artesanato", "objetos rituais". Há uma estética ali operando, isto é fora de dúvida, e houve artistas-artesãos profissionais que trabalharam naquelas peças. O que distingue o artefato, o artesanato, da obra de arte? Não será o Quai du Brainly também um museu de arte, e não tanto de objetos que servem para isso ou aquilo? Não será a arte o espaço de diálogo das culturas?
Fiquei pensando nisso tudo. Vou voltar lá. Quem sabe quando ver a parte da América do Sul, que me é mais familiar, possa entender melhor a proposta do museu e ter novas idéias sobre, afinal, o que é ou não arte. O que você acha?
Beijos, fica com Deus, e boas comemorações, Mariana
PS: desculpa aí, que este editor do blog não está aceitando os parágrafos que eu fiz no texto original e tá colocando tudo emendado...

Um comentário:

Estevao disse...

Querida,

É um prazer ir acompanhando sua viagem aqui de longe. Adorei esta homenagem "blogiana".
O museu é realmente impactante pelo tamanho e variedade das coleções. Não sei ler os problemas antrpológicos levantados por você mas fiquei pensando: como esses caras são craques em "pilhar" a cultura alheia. Não deve ter sido fácil trazer aquilo tudo... por isso também a Europa deve aceitar e incorporar toda a riqueza humana que vem junto com as riquezas materiais: os imigrantes que dão novas cores aos Pierres e Jean Lucs...
Voltando ao museu, a arte sempre esteve próxima à religião pois ambas ritualizam os acontecimentos da vida e tentam traduzí-los em novas experiências. Penso que todo esse questionamento da arte contemporanea é só um jeito bom de colocar "na roda" o mistério da vida, já que vivemos num mundo tão prático e pretensiosamente lógico. No fundo, nada é mais importante do que aproveitar cada momento, desfrutar cada mistério, se integrar a cada sensação que a existiencia nos oferece.
Fico muito feliz de ver você viajando e me sentir viajando um pouco com você também. mil beijos do irmão Estevão