domingo, 31 de agosto de 2008

Chez Monet et chez moi

Domingo fizemos um bonito passeio. A chuva que abriu o dia não sustentou-se, e o sol dominou o céu - para nosso alívio e contentamento. Saímos cedo de casa em direção a Giverny, onde Claude Monet, no início do século XX, já um artista reconhecido, recolheu-se para viver e trabalhar. Fomos, portanto, à casa de Monet, com seus jardins, ninféias e atelier.

Não há muito o que dizer, a não ser que vale à pena conhecer. Há flores de tudo quanto é tipo e cores, e o jardin aquático é uma beleza, com pontes, chorões e ninféias. Saíram desses recantos a inspiração para as famosas e gigantescas telas de Monet. Vi delas no Musée Orangerie (já falei disso numa outra postagem) e no Musée Marmottan (que acho que comentei, não sei). De toda forma, são lindas e imperdíveis. Em Giverny está a fonte inspiradora, na tela o artista inspirado; ou, como nas fotos (retratos) de Richard Avedon que vi numa exposição aqui, o resultado artístico é aquilo que ocorre entre o pintor-fotógrafo e a paisagem-pessoa. [Avedon diz sobre os retratos de pessoas que fez aos montes sobre um fundo neutro: o retrato não é uma representação da pessoa (ou da realidade), mas antes o que subjetivamente ocorre, naquele momento mágico do "click", entre o fotografado e o fotógrafo. Talvez dê pra pensar assim também sobre Monet-ninféias, embora, não sei, talvez no caso da pintura a habilidade, o talento, o estilo do pintor tenham um outro tipo de presença que a de um fotógrafo]

Fazendo uma ponte entre esses universos (interiores e exteriores), ando eu mesma com uns pensamentos ainda não sistematizados, mas que têm a ver com minha visão sobre o mundo, sobre a Amazônia e sobre mim mesma. Hum, ficou meio complexo. De toda forma, pra começar com algumas imprecisões e deixá-las no ar, diria que esta viagem está me dando uma "dimensão de mundo" inesperada. No Acre, onde vivo, o mundo tem uma dimensão. Aqui, em Paris, onde estou temporariamente, tem outra.

As fronteiras do universo acreano, por exemplo, seriam as dadas pelas nossas discussões e idéias, pelo que nos toca, nos diz respeito e mobiliza - como o destino da floresta. Para mim, por exemplo, esta tem sido uma questão central nos últimos tempos e que mobiliza minhas emoções, forças e idéias; informa meu comportamento e valores, aquilo que importa, aquilo em que acredito, aquilo que devo e quero fazer. Mas para os franceses é diferente. Bom, é uma obviedade, pois para eles só poderia ser diferente. Quero, contudo, dizer que senti o choque da diferença. Toda a questão ambiental, digamos assim, se colocaria aqui noutros termos, ou de outra forma, dentro de um outro padrão de comportamento. O consumo seria um bom exemplo.
Fiquei abismada com a quantidade de embalagens que se leva para casa quando se vai a um supermercado - e, claro, com a quantidade de lixo que isso gera. Isto quer dizer que os franceses, ou mesmo os europeus, não estão nem aí para a Amazônia ou a conservação de ambientes naturais? Não, não quer dizer isto. Eles estão aí pra Amazônia sim, só que de uma outra forma, com outras visões e soluções para conter a destruição da floresta. Eles têm uma longa história de construção do que são hoje e de como vivem - e isso não é algo que se largue ou se troque facilmente. Toda a visão sobre a Amazônia vai quase inevitavelmente passar por este filtro; talvez nem mesmo haja uma "visão sobre a Amazônia". O nosso filtro é diferente. Como incorporar o fato de que a Amazônia não é só uma só, a nossa [e este "nossa", sei, não é unânime, mas é "nossa" esta falta de unanimidade]? Que ela é percebida de diferentes maneiras, a partir de diferentes e ativos pontos de vista?
Talvez eu esteja sendo por demais etnocêntrica, ou acreocêntrica, ou marianocêntrica. Talvez, bem possível. Mas talvez se trate de outra coisa: uma certa crise pessoal, uma desesperança ou incerteza sobre o que fazer.

3 comentários:

TEIXAS disse...

mantenha a esperança embora estejamos a criar uma nova geração de egocentricos eles são ecologicamente responsáveis e sabem que não há segunda via no que toca á preservação do planeta, uma abraço sincero e força nesse seu trabalho, parabens

Marisa disse...

Outro dia me peguei numa consciência mais sentida ao pensar que existem muitas Amazônias, cada uma com suas espécies únicas de plantas,animais e formas de vida e que podemos perder muito quando qualquer uma delas é destruída. Que fazer? Trocar idéias já é um começo e sempre contribui um pouco ou talvez...quem sabe? contribui muito.

amilton disse...

bom jogo de perspectivas...
pensava hoje aqui na aldeia sobre a penúria e o privilégio de sentir a solidão em meio à multidão da revolução molecular, de perceber ao mesmo tempo o quão imaturos estamos em nosso processo de resistência ao capitalismo implementado pela extrema direita da cruz e do fuzil, que antes de esquartejar o carnaval revolucionário que foi nosso ensaio de guerrilha cortara a língua de nossa tão perigosa quanto pacífica antropofagia cangaceira: resultado: engolimos a aliança sinistra entre o liberalismo dos mídia que modulam e modelam nossa língua no jornalistês dos alcagüetes de cada esquina e a bem comportada esquerda democrática que vai liquidando a floresta para abrir os caminhos de um pac politica e ambientalmente correto, e o quão inusitado é despertar a essa altura dos acontecimentos, despertar ao lado da floresta e do mestre (o verdadeiro, como ele diz), para enfrentar a indiferença do entorpecimento e para apreender a potência da diferença sob o sígno heterofóbico da identidade, do claustro do ego que nos une, para aí dar conta do que em nós (e em nós neles todos os outros, nossos e outros irmãos) quer a servidão, nosso medo que aciona o desejo de servir e voltar-se, impiedoso, para encará-lo...
de fato, devir latinamericano e, melhor, devir índio é pra quem pode, quem pode saber o privilégio...
com uma floresta de saudades
amilton