segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Pequena grande vitória

Direto de Marechal Thaumaturgo, extremo oeste do Acre, alto rio Juruá, Murilo Seabra conta um ocorrido recente...

“Eu não sou de Marechal Thaumaturgo. Cheguei aqui na região há cinco meses e estou aqui na sede do município há dois meses. Conversando com Izaquiel, que tem uma vendinha perto da praça central, fiquei sabendo que os fazendeiros e açougueiros daqui jogavam os couros dos bois abatidos nas margens do rio Amônea [afluente do Juruá]. Lá os couros apodreciam e a “água preta”, como dizem os thaumaturguenses, escorria para o rio. Levei os meus alunos [de arte e filosofia] para visitarmos o local. Descobrimos que algumas famílias ficavam expostas ao fedor vindo dos couros. Depois conversei sobre o fato com o presidente da Câmara dos Vereadores. Foi marcada uma assembléia com os vereadores, o prefeito, os fazendeiros, os açougueiros e os moradores. Levei meus alunos. Dois outros professores também compareceram. A assembléia teve um resultado positivo. O prefeito disse que a partir daquela data estava proibido jogar couros nas margens do rio e os couros que já estavam lá foram retirados no dia seguinte. Estou, é claro, resumindo excessivamente a história. Mas não é difícil imaginar, por exemplo, que as autoridades não queriam resolver o problema e que fui inclusive advertido em off para deixá-lo de lado. Já não sou tão bem querido em Marechal Thaumaturgo como era dois meses atrás. Hoje [26 de agosto] fazem exatamente quatro dias que aconteceu a assembléia”.


No dia 21, Murilo havia escrito o seguinte email:

“É engraçado como as coisas aconteceram... Nunca pensei em reclamar dos couros de boi daqui... Nunca... Nem sabia que eles existiam... Mas acabei me apaixonando pelas águas do Amônea... E aí quando Izaquiel me contou dos couros, fiquei inquieto... Fiquei três dias literalmente passando mal... Precisava ir lá... Tinha que ver a coisa com meus próprios olhos... Estava inquieto... E fiquei inquieto até o momento em que fui lá... E a inquietação, é claro, não passou...”

Atitudes movidas pelo coração e pela inteligência ainda fazem diferença neste mundo de meu Deus. É como a história do beija-flor apagando o incêndio na floresta, levando e trazendo água em seu diminuto bico. Aos animais que fugiam do fogo e do beija-flor troçavam, ele respondia: "estou fazendo a minha parte". A postagem de hoje está dedicada a você, Murilo.

2 comentários:

Gisela disse...

O que aquele prédio de 3 andares tá fazendo no barranco do rio em Marechal Thaumaturgo?

crisblog disse...

Que carinho.

Beijos.