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domingo, 24 de outubro de 2010

Escapando por pouco...

Ontem estava em casa, na varanda, corrigindo provas de alunos e organizando as coisas da disciplina "Antropologia 1" que estou ministrando no curso de História da UFAC. Pois bem, maior calor, ventilador ali ligada, eu tentando me concentrar nos textos dos alunos, avaliando, corrigindo ortografia, essas coisas. Eis que, de repente, toca o telefone.

Atendo. De forma rápida uma moça começa a falar, dizendo que era da TAM e ItaúCard. Ela falou isso muito rápido, não me deu tempo nem para processar, e em seguida começou a dizer que eu era portadora agora de um novo cartão que ia me dar acesso a isso e aquilo da TAM nas minhas viagens, não ia pagar multa etc etc. Ela falava tão rápido que eu não lembro direito tudo que ela falou, e eu também não estava muito interessada. Pouco viajo pela TAM, acho um saco esses telemarketings, mas havia feito uma viagem recente ao Maranhão e minhas pontuações tinham aumentado e isso devia ter resultado na minha "promoção" do reles cartão branco para algum de outra cor, e além disso, coitada, não ia desligar na cara da moça, afinal ela também é um ser humano, trabalhando pra viver... E ela continuava falando.

De repente, mudou. Já era outra pessoa no telefone, outra moça, que aí se apresentou acho que como consultora e já foi conferindo uns dados meus, tipo idade, RG, nome, profissão, e aí eu perguntei: "mas pra quê tudo isso?". E ela: "não, dona Mariana, é porque nós temos que checar os seus dados cadastrais...". Sei. De repente, no meio daquela verborragia toda ouvi a palavra-chave: "anuidade". Fiz rápidas sinapses: anuidade em cartão de companhia aérea???? "Epa, peraí, isso tudo é cartão de crédito?", perguntei interrompendo a moça. "Sim, dona Mariana", disse ela, "do ItaúCard". Ah, minha filha, tô fora. E assim, tão rápido como a conversa tinha começado, terminou. A moça se despediu com uma rapidez de dar inveja a quem deseja terminar rápido uma conversa e não sabe como fazer. "Escapei por pouco", pensei.

Alguém já viu o filme "Zeitgeist"?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Despacho literário!

Estou eu aqui de novo às voltas com o assunto do meu livro. O fato é que desde o seu lançamento, em 2008, estou descobrindo a duras penas as agruras de circular um livro a partir de uma editora universitária nos "confins" da Amazônia. Não é fácil. Minha primeira medida, claro, foi colocá-lo à disposição nas livrarias da cidade, e o fiz na Paim e Nobel. Levei séculos mas consegui colocar o livro no catálogo do site da Livraria Cultura. Estou numa negociação para ter o livro à venda no site do ISA, que só não se concretizou ainda por dificuldades burocráticas, apesar da super-boa vontade de ambas as partes. Que mais?

Procurei a Biblioteca Pública aqui em Rio Branco para saber o destino dos 50 exemplares destinados a FEM, pois desejava doar aqueles que por ventura estivessem faltando para que o livro pudesse estar no acervo de todas as bibliotecas e casas de leitura estaduais. Num primeiro momento, não se conseguia localizar os livros, depois de algum tempo foi-me dito que os mesmos ainda não haviam vindo da FEM, que, por sua vez, disse que "não, foram sim...". E aí o fim do ano chegou e eu deixei a empreitada para este ano.

Como uma caixeira viajante, sempre que viajo levo o livro e dou ou vendo para alguém ou alguma instituição relevante. Sinto que ainda falta fazer um pente fino aqui em Rio Branco mesmo, inclusive na Biblioteca da UFAC, para saber mesmo quantos exemplares tem lá.

Mas o fato é que a maior parte dos livros, cerca de 800, vieram aqui para casa e é daqui, portanto, que estou fazendo esta distribuição pra lá de doméstica. (A EDUFAC, claro, também está fazendo sua parte, mas falo aqui dos meus particulares esforços.) O fato é que findei o ano com uma sensação meio desconfortável, um "peso": aquelas caixas todas aqui, um monte de livros, e eu meio que sem saber como fazer. Outro dia, conversando com o Ailton Krenak, ele me tranquilizou: "o livro vai seguir o seu caminho". Tem razão. Mas resolvi dar um empurrãozinho:

Fiz uma demorada e laboriosa pesquisa na internet, e reuni cerca de 60 endereços de bibliotecas públicas, em especial de instituições universitárias federais e algumas estaduais. Fiz uma carta de doação, e embalei, com ajuda de minha comadre Mariazinha, uma das personagens do livro, um a um. Hoje, com ajuda do meu super-companheiro Zé Carlos, que carregou as caixas pesadíssimas, e assumindo os custos financeiros da empreitada, fui aos Correios e despachei Os Milton para o Brasil!

Rogo que eles cheguem aos seus destinos, sejam bem acolhidos (como merecem) e passem a habitar o imaginário de mais brasileiros.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Je suis fatiguée

Nossa, hoje eu estou cansada. Queria que já fosse sexta-feira. Pois é... Sabe o que é? O curso de francês começou: todo dia das 8 da manhã às duas da tarde, com uma hora de intervalo para um café ou um lanche. São quatro horas de gramática e afins, e uma hora de fonética (pronúncia). São boas as aulas, estou gostando. O negócio é que é todo dia, e "moro em Jaçanã" (favor pronunciar com sotaque francês!), saio de casa às 7 horas, acordo entre 5:30 e 6 horas - é que preciso de tempo de manhã, acordar e sair correndo não é comigo. Saio da aula e costumo ficar por Paris, ali pelo centro, Jardin du Luxembourg e proximidades, dando um tempo para almoçar, descansar e aí dar uma volta, conhecer algo. Acabo chegando em casa tipo 7 horas da noite, que aqui ainda é totalmente dia. Isso é muito louco, pois com o céu claro a última coisa que você pensa é em jantar e ir dormir! Resultado, começo a achar que é hora de dormir mais de 10 horas da noite, acabo deitando mais de 11, e durmo menos do que gostaria. Acumula isso na semana, dá o maior cansaço...

Esses dias fiquei pensando: pô, mas eu estou de férias! Tem alguma coisa errada, ou meio fora do lugar. Ainda não sei o que é. Este compromisso matinal infalível tá puxado. Mas, depois que eu chego, eu gosto, a aula é boa, eu gosto de estudar francês, é interessante, aquela coisa diferente, meio difícil, mas meio familiar, tem muita semelhança com o português. E é uma língua bonita. As duas professoras são boas profissionais, e os colegas de classe vou conhecendo aos poucos. Aí estamos nós (na foto acima), ou parte de nós, num café perto do local do curso, na hora do intervalo. Da esquerda para a direita estão representados o México, a Colômbia, o Brasil e a Jordânia.

Acho que vou ter que arrumar uma forma de conciliar as aulas, o horário solar francês, o meu ritmo biológico e as minhas férias - que estas eu não vou deixar em segundo plano! Hoje, por exemplo, aqui, agora, são quase 11 e meia da noite, cheguei tem uma hora da rua. E nem jantei ainda (e não vou jantar, a esta hora não dá). O negócio é que hoje eu saí do curso e resolvi ir estudar na biblioteca do Beaubourg (Centre Georges Pompidou), mas resolvi, antes, conhecer a coleção de arte moderna que tem no museu de lá, nos últimos andares, de onde tirei a foto a seguir.Fiquei horas no museu... E nem vi tudo, acho que visitei um terço. Nossa, muita coisa bonita e diversa. Lindo mesmo. Merece ser visitado. Vejam este Matisse abaixo, ao vivo é emocionante! Acaba que a gente fica até zonza.
Saí da exposição meio sem nem saber direito onde ir. Resolvi conhecer o último andar, seguindo mesmo um povo que estava indo neste rumo, peguei carona na corrente, digamos. Resultado: deparei-me com uma super-exposição chamada "Traces du Sacré", imensa e fascinante. Uma overdose de arte! Havia obras de Picasso, Matisse, Kupe, Klee, Kandinsky, Bill Viola, Nijinski (que desenhava!), Grodowski (filmagem de uma dramaturgia), Rudolf Steiner (escultura e desenho), Braque, Pollock, Artaud, Ginsberg, Victor Hugo, Munch e outros artistas. Uma diversidade de alto nível reunida, exposição bem montada, cheia de referências literárias interessantes - tudo conectado pela linha do sagrado, da constituição da arte moderna e do pensar do homem [mais o ocidental, embora havia outras referências também] sobre si mesmo, sua civilização e (não) relação com o transcendente. Queria ir embora e não conseguia. Não tirei nem foto, fiquei lá viajando.
Enfim, quando fui ver já eram mais de 9 horas da noite, lá fora uma turma de gente fazia uma manifestação pró-Tibet (o Dalai Lama está para chegar na França) e eu peguei foi o rumo de casa. Meus pés doendo de tanto que fiquei em pé. O que me salvou foram castanhas e frutas secas, que sempre levo comigo. Tô indo dormir agora, quase meia-noite. Acho que amanhã essa aula de francês vai dançar...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Carta ao aniversariante

Querido Lucas,

Cada dia uma novidade. Quando a gente viaja isso fica mais evidente, mas pensando melhor, todo dia é uma novidade. O negócio é que no dia a dia rotinizado parece que é tudo meio igual, mas isso é só uma meia verdade, ou uma grande mentira. É sempre diferente. Viajando as diferenças são mais visíveis, mas com o tempo de permanência correm o risco de se rotinizar, ou fatalmente se rotinizarão. Aí o olhar e a percepção tem que estar bem treinados e desobstruídos para ver o novo que vem com cada nascer do sol.

Hoje o dia aqui amanheceu chovendo e frio. Tu acredita? Eu pensei: caracoles, que roupa que vou pôr? E os meus vestidinhos para o verão parisiense insuportavelmente quente? Improvisei daqui e dali, na verdade estava chovendo mas não frio de verdade, e fui pra minha primeira aula do curso de francês. Puxa, vai ser puxado, deu pra perceber. É muita coisa de uma vez só e num curto espaço de tempo. Vamos ver como a coisa vai andar. Tem um certificado no final, que quero muito ter, mas não tem aquela pressão: tem que passar de ano! Afinal, estou de férias...

Saí de lá as 14 horas daqui (cinco a menos do que aí no Rio), e fui fazer uma nova experiência de transporte: ônibus. Virei fã, demais! Comprei um guia de itinerários de ônibus que tem tudo que você precisa para andar por cima da terra na cidade, e não por baixo, como um tatu. E ainda pude presenciar o maior barraco dentro do ônibus. Barraco em francês, tá pensando o quê? Achei até que ia dar briga uma hora, mas não, foi só bate-boca mesmo. Não entendi direito, mas era um monte de gente discutindo com um homem muito exaltado, se achando cheio de razão. Fiquei com a impressão de que ele era um mal-educado.

Fui conhecer a biblioteca do Centre Georges Pompidou. Que coisa incrível, fiquei de cara. O "Beaubourg", como também é conhecido, é um baita centro cultural, como você sabe e conhece. Não fui ver as exposições, priorizei a biblioteca, estava, e estou, em busca de opções na cidade onde possa estudar, revisar as aulas de francês, e lá com certeza será um lugar. Totalmente equipado, cheio de gente, mesas de estudo cheias, todos mundo lendo, trabalhando, bacana de se ver. Arrumei um cantinho e fiquei lá gramando no francês. Do lado de fora, aquela coisa despojada e à vontade, cafés, artistas se apresentando, pessoas sentadas por todo canto. Acabei não tirando foto, fico devendo. Foi onde vi, digamos, um policiamento mais ostensivo. Deve rolar uma malandragem. Fui depois pegar o metro no Chatellet Les Halles, e realmente o negócio é meio animado. Mas nada que uma brasileira e carioca não possa tirar de letra.

Enfim, cheguei em casa, e o dia está lindo, abriu, céu azul e solzinho das 20:30 hs. Lembrei de você várias vezes durante o dia, inclusive quando acordei e você certamente dormia. Feliz aniversário, que o dia esteja sendo novo, feliz e novo, e que novos possam ser os que virão daqui pra frente (como foram os que já passaram), que você possa ter esta percepção. Engraçado porque a matéria da gente, a rigor, fica menos nova, mas a nossa percepção pode ficar mais aguçada, o espírito renovado, que por sua vez dá uma leveza para o corpo. Mente-Corpo, é um segredo e estudo fino. Muitos anos deste estudo pra você!

Beijos e saudades, da tua irmã que te ama, Mariana

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Axé e munição 1

O mundo anda me deixando de cabelo em pé!

Militares e parlamentares criando uma frente contra as terras indígenas; transgênicos bombando; o presidente do Brasil e sua diplomacia pregando que o negócio é crescer, a que custo for (afinal, logo agora que começamos a crescer vem este papo careta de redução de emissões...); os ursos polares em extinção; as hidroelétricas e grandes projetos em expansão; o governador de Mato Grosso querendo dizer que o rei (seu estado) não está nú (desmatado); o governo cedendo a pressão dos desmatadores-políticos-empresários e liberando crédito independentemente de licença ambiental... Ah, desculpem, mas isso tá virando um muro de lamentações!

E justo hoje, quando este blog completa 100 postagens... Ah, um pouco de axé e munição para a luta!



quinta-feira, 13 de março de 2008

Rodo pelas capitais 2

Falemos agora de São Paulo. Bom, fiz uma passagem meteórica na cidade, 24 horas. Fui visitar um amigo querido que acabara de passar por uma delicada e bem sucedida cirurgia. E aproveitei para rever alguns bons amigos de tempos antigos, de Campinas, Unicamp. Um bom tempo mesmo. Passou, mas os amigos ficaram, é o que vale.

Cheguei no aeroporto de Congonhas no final da tarde. Meu destino era nas proximidades da Vila Madalena, então resolvi pegar um ônibus até a estação de metro mais próxima, São Judas Tadeu. Fui para o ponto. Ali realizei na hora que chegara numa cidade diferente de Brasília: trânsito denso, mil ônibus para tudo quanto é canto, pessoas passando para lá e para cá, vendedores ambulantes, fumaça, um certo clima de caos. Veio o ônibus, não demorou muito. Entrei e arrumei um lugarzinho, de pé, meio malocada, perto do cobrador. Do aeroporto à estação não é longe, quilometricamente falando. Mas, na real, levou mais de uma hora. Congestionamentos – uma das marcas da capital paulistana. E o ônibus encheu de uma maneira inacreditável. Não tem foto aqui porque fiquei com vergonha de tirar, mas merecia. Pra quem estava sentindo falta de encontrar gente na rua, foi uma overdose... No metro não foi diferente, com a diferença que o trem anda em trilhos desimpedidos. Dentro dos vagões, bem, sessão “lata de sardinhas”. Muito tempo que não passava por isso, não chegou nem a ser ruim. Só cansativo. Imagina quem vive isso todo dia?!

Fui pra casa da minha amiga Bia Labate. À noite saímos para jantar. Onde ir? Bia tem uma inacreditável e fascinante coleção de cartões de restaurantes; um certo hobby: conhecer, experimentar e colecionar os cartões. Na hora de sair: “o que você quer comer?”. Aí tinham cartões de restaurantes italianos, japoneses, mexicanos, macrobióticos, lanchonetes, lugares finos e por aí vai, e ainda classificados entre aqueles ruinzinhos e os que valem a pena (re)conferir. Optamos por um japonês na Liberdade. E lá fomos nós.

Não sei andar em São Paulo, mas gosto de ver a cidade, principalmente com alguém que a conhece. Passamos pela avenida Paulista iluminada, taí uma foto.


No dia seguinte, feita a visita que me levara à cidade, tomei o rumo do aeroporto. Digno de mencionar, novamente o trânsito intenso. Desta vez pude apreciar a quantidade de carros e motos de dia, e tirar fotos. Impressionante. As motos, e motoboys em particular, fiquei sabendo, estão aos poucos conquistando uma espécie de pista própria entre os carros, e nos congestionamentos passam a uma velocidade temerosa. Mas é interessante ver como certas regras se impõem sem que o poder público legisle sobre elas - mesmo em metrópoles como Sampa, com tantas seres pensantes e com suas próprias opiniões e idiossincrasias. Não sei muito bem como, um acordo tácito, consensuado, se estabelece – e ganha força de lei: um tipo de direito costumeiro achado no asfalto...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Fim de tarde em Cruzeiro do Sul

selvagem

eram seis horas e quinze da tarde-noite;
estava sentado em frente à catedral, vendo o pôr do sol e esperando por uma carona;
passou o primeiro garoto, que me ofereceu engraxe;pensei que meu sapato não era de engraxar e agradeci;
em seguida, passou um sem teto exalando sua condição;
pensei, ele virá ter comigo;torci para que não como torcendo para que sim;
na seqüência passou outro garoto pequeno com uma pequena caixa de engraxate (as caixas de engraxate de minha infância era maiores e tinham outro formato, as de hoje são menores, obedecendo os nossos padrões estéticos e o tamanho reduzido de nossa nova geração de engraxates);
perguntou se eu queria engraxar;disse que não;ele pacientemente se colocou no chão e começou a tirar o material;
como meu idioma sulista é dificilmente entendível aos índio-cearences ouvidos acreanos, repeti que não queria, alegando agora que meu sapato não se prestava ao engraxe;
ele continuou, em meio a resmungos que funcionavam como um tipo de resposta que servia para estender o diálogo mal entendido e ganhar tempo para continuar a retirar os seus instrumentos de dentro da caixinha;
perguntei-lhe, então, mais diretamente se ele tinha entendido o que eu tinha dito, que não queria engraxar, que meu sapato não era de engraxar;
ele entreolhou-me e respondeu que sim;
nisso, como ele continuou agindo enquanto eu conversava ele já estava com a graxa aberta e a escovinha melada, com a outra mão pegou a escova grande e escovou o sapato;
enquanto isso foram chegando outros garotos, que, como num exercício de estranhamento, me perguntavam onde eu morava;
suas expressões eram estranhas no lusco-fusco;
no crepúsculo parecia que tinham expressões sujas e famintas;
respondi qualquer coisa, como que eu morava ali perto;
enquanto isso o garoto não parava e já avançava sobre meu sapato com a escova cheia de graxa;
levantei-me e o segurei, mas ele colocou força no ato e veio pra cima;
eu fiquei desconcertado de estar envolvido numa situação como aquela;
comecei a segura-lo junto ao chão;
um fluxo disparou em minha mente;
um embate estava sendo travado, não queria de forma alguma cessá-lo oferecendo dinheiro a ele, o que não quis fazer desde o início;
percebi num relance um pedaço de chiclete no seu cabelo;
passou pela minha mente: estará ele chapado;
outro garoto entrou para chamar-lhe a atenção;
agarrou-o e dizia pra eu ir embora;
não consegui;ele não se rendeu ao companheiro;
até que não mais resisti e permiti que ele esfregasse a graxa em meu sapato;
para apaziguar a situação e ceder ao acontecimento, ainda disse que não ficara tão mal;
ele pediu que o outro buscasse a graxa;
olhei para o lado e uma senhora com um garotinho assistia parada ao acontecimento singular;
passou pela minha mente, num disparate, a idéia de brincar com o tal garotinho, o que pode ser que eu, estranhamente, num gesto de nervosismo desesperado, tenha feito;
por alguns instantes não sei o que aconteceu, via o carro chegando e a chance de me desvencilhar de um novo embate com o engraxate;
podia escapar indo para o carro;agora sim podia dar-lhe uma moeda, estava livre, precisava ir e queria agradecer pela situação inusitada que ele me proporcionara;
tirei uma bela e pesada moeda de vinte e cinco centavos, voltei-me e disse;
engraxate aí vai;
e lancei a moeda no ar;todos o garotos, uns quatro ou cinco, tentaram agarrar a moeda;
voltei as costas e parti ainda atordoado na direção do carro;

O texto é do Amilton, tá num imperceptível blog.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Roxo, passarinho rouxinol

Antonio Barbosa de Melo, o Roxo, nasceu no igarapé Manteiga, afluente do alto rio Tejo. Lá viveu toda a sua infância e juventude, morando com os pais, dona Esmeralda e o seu Ginú, irmãos e irmãs. Era seringueiro. No final dos anos 80, por intermédio de seu irmão, o Chico (do) Ginú, conheceu o antropólogo Mauro Almeida. Naquela época, Chico era bolsista de pesquisa num projeto do professor da Unicamp. Não escapou a Roxo alguns procedimentos de pesquisa, tal como anotações incansáveis no caderno de campo.

Anos depois, em 1993, quando Mauro e uma grande equipe iniciavam um extenso projeto de pesquisa na área, já decretada como a Reserva Extrativista do Alto Juruá, Roxo procurou Mauro: queria “fazer pesquisa”. Não sabia bem o que era, mas queria mesmo assim. Mauro lhe passou um caderno e Chico assumiu a “orientação” do irmão, em especial na checagem de seus escritos. Segundo o próprio Roxo, seus garranchos só eram decifráveis por Chico...

Roxo, que não é homem de desistir fácil daquilo que almeja, além de ser dotado de uma paciência que só posso atribuir ao seu bom coração, seguiu em frente com suas pesquisas. Aos poucos, por sua própria iniciativa e trabalho, foi se destacando entre a equipe de monitores que então começava a se estruturar na Reserva. Lembro nesta época que Roxo estava sempre por perto, ouvindo, conversando e nos acompanhando. Em 1993, quando uma equipe de antropólogas passou seis meses em campo, Roxo acompanhou uma delas, a Andréia Martini, em seu debut entre os seringueiros do igarapé São João. Nas nossas reuniões ele estava sempre presente. Enfim, Roxo iniciava-se como pesquisador.

Anos passaram, o Projeto de Pesquisa passou por altos e baixos, mas Roxo (assim como outros também) manteve-se firme. E mais firmeza ainda lhe foi exigida quando seu filho adoeceu de leucemia. Foram quatro anos de batalha, viagens e muito sofrimento. Roxo, que então já morava noutra localidade, na foz do Tejo, viu-se obrigado a mudar para a cidade de Cruzeiro do Sul para melhor assistir seu filho, que viajava periodicamente com a mãe para Goiânia. Era preciso trabalhar, arrumar recursos monetários para tantas viagens e gastos. Amigos pesquisadores apoiaram, mas Roxo também não ficou parado. Hoje o menino está curado, e o pai aliviado e agradecido.

Esta foto tirei hoje, em Cruzeiro do Sul, de onde cheguei há pouco. Roxo já há algum tempo tem um carrinho de lanche, e um ponto certo de venda: em frente ao Banco do Brasil. Ele mesmo produz os salgados e os sucos que vende, estima tirar por dia uma média de R$ 10 de lucro, descontadas já as despesas e a alimentação diária da família. Mas há dias que a venda é ruim, e a coisa toda fica mais difícil. Acho que Roxo ainda pensa em voltar para o seringal. Ele diz que continua fazendo suas pesquisas na cidade, observando o modo de viver e de ser das pessoas. É um entusiasta do Projeto de Pesquisa, e um sábio e sensato conselheiro. Ajudou-me muito quando coordenei atividades deste Projeto entre 2006 e 2007.

E Roxo também é, como não poderia deixar de ser, um pensador, um intelectual, mesmo um filósofo. Sua reflexão é delicada, fina. Aqui vai uma, intitulada “Pesquisador”.

Em 1993, na colocação Pão, passando a conhecer a Reserva Extrativista com Chico Ginú e Mauro, comecei a andar junto com os companheiros do Projeto de Pesquisa. Neste tempo aprendi muito mais, que não só tem o rio Juruá e o rio Jordão, tem muita coisa. Quando nós chegávamos nas casas das pessoas, e pessoal ficava espiando, pensando e tinha muita gente que perguntava: “Roxo, pra quê você está fazendo este trabalho?”. Eu respondia que não sabia. Muitas pessoas ficavam com medo porque não sabiam o que aquela pessoa estranha estava fazendo em sua casa.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Pequena grande vitória

Direto de Marechal Thaumaturgo, extremo oeste do Acre, alto rio Juruá, Murilo Seabra conta um ocorrido recente...

“Eu não sou de Marechal Thaumaturgo. Cheguei aqui na região há cinco meses e estou aqui na sede do município há dois meses. Conversando com Izaquiel, que tem uma vendinha perto da praça central, fiquei sabendo que os fazendeiros e açougueiros daqui jogavam os couros dos bois abatidos nas margens do rio Amônea [afluente do Juruá]. Lá os couros apodreciam e a “água preta”, como dizem os thaumaturguenses, escorria para o rio. Levei os meus alunos [de arte e filosofia] para visitarmos o local. Descobrimos que algumas famílias ficavam expostas ao fedor vindo dos couros. Depois conversei sobre o fato com o presidente da Câmara dos Vereadores. Foi marcada uma assembléia com os vereadores, o prefeito, os fazendeiros, os açougueiros e os moradores. Levei meus alunos. Dois outros professores também compareceram. A assembléia teve um resultado positivo. O prefeito disse que a partir daquela data estava proibido jogar couros nas margens do rio e os couros que já estavam lá foram retirados no dia seguinte. Estou, é claro, resumindo excessivamente a história. Mas não é difícil imaginar, por exemplo, que as autoridades não queriam resolver o problema e que fui inclusive advertido em off para deixá-lo de lado. Já não sou tão bem querido em Marechal Thaumaturgo como era dois meses atrás. Hoje [26 de agosto] fazem exatamente quatro dias que aconteceu a assembléia”.


No dia 21, Murilo havia escrito o seguinte email:

“É engraçado como as coisas aconteceram... Nunca pensei em reclamar dos couros de boi daqui... Nunca... Nem sabia que eles existiam... Mas acabei me apaixonando pelas águas do Amônea... E aí quando Izaquiel me contou dos couros, fiquei inquieto... Fiquei três dias literalmente passando mal... Precisava ir lá... Tinha que ver a coisa com meus próprios olhos... Estava inquieto... E fiquei inquieto até o momento em que fui lá... E a inquietação, é claro, não passou...”

Atitudes movidas pelo coração e pela inteligência ainda fazem diferença neste mundo de meu Deus. É como a história do beija-flor apagando o incêndio na floresta, levando e trazendo água em seu diminuto bico. Aos animais que fugiam do fogo e do beija-flor troçavam, ele respondia: "estou fazendo a minha parte". A postagem de hoje está dedicada a você, Murilo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Cadê a madeira?

Na floresta, diria o bom observador. Ou nos caminhões de tora que cada vez mais se tornam comuns, diria um segundo bom observador. Mas para onde vai a madeira que passa em cima desses caminhões?

Pergunto porque passei a tarde de hoje com três amigos (a Gisela, o Joca e o Antonio) percorrendo algumas madeireiras do Pólo aqui de Rio Branco e, acreditem se quiser, madeira é artigo raro. E isso em pleno verão, quando é favorável transportar as toras já que os ramais e estradas de terra estão transitáveis. Encontramos, via de regra, cumaru e cumaru-cetim, madeiras conhecidas por sua dureza e peso. Como fazer um forro de cumaru? Corre o risco do telhado cair...!

Um dos empresários com quem conversamos atribuiu a responsabilidade pela falta de madeira à morosidade burocrática de liberação de licenças de extração e transporte. Visitamos uma outra, com um pátio imeeeenso, e vazio. O dono disse que este ano provavelmente não vai nem operar. Ouvimos de um funcionário de uma outra madeireira que havia sim outras espécies, mas para exportação para fora do estado. De outras pessoas, também contruindo ou fazendo obras, já ouvira esta resposta. Mas e o consumidor local? Ah, sim, cumaru e cumaru-cetim... e o forro continua sem solução. Bom, algumas pistas então para a pergunta inicial: ou a madeira está em pé, ou lá no canto onde foi derrubada, ou aguardando para ser exportada.

Maior calor, a gente pra lá e pra cá, e nada de madeira. Tentamos um sorvete pra refrecar, mas a marca era de fundo de quintal, o gosto duvidoso. Ok, não tem madeira para os moradores e consumidores do estado com uma das maiores coberturas florestais; o estado que pretende ter neste seu patrimônio natural um de seus principais produtos comerciais. Num certo sentido, pode-se pensar, é até coerente: governo da floresta não deixa arrancar a floresta! Ah, mas seria bom demais pra ser verdade... embora o forro fosse continuar sem solução. Tudo bem, faz a casa sem forro - a floresta merece isso e muito mais.

Mas, não sejamos tão radicais. Afinal, uma casa de madeira, naturalmente climatizada, é muito mais coerente do que cimento, brita, areia etc etc - materiais que vem todos de fora do estado, gastando combustível e poluindo a atmosfera. Ah, mas e a madeira manejada? Certificada? Ora, claro que já pensáramos nisso, aliás foi a primeira coisa na qual pensamos. E de preferência comunitária. Tentamos a Cooperfloresta, uma cooperativa de produtores comunitários de madeira manejada e, parte dela, certificada pelo FSC.

Bom, há alguma possibilidade de conseguir adquirir parte do que precisamos junto a Cooperfloresta, em especial uma madeira cujos planos de manejo já estão aprovados. As demais áreas, em especial a da Reserva Extrativista Chico Mendes, enfrenta ainda esta etapa junto ao Ibama. Mas o mais interessante de tudo, para não dizer dramático, é a situação atual da Cooperfloresta e seus demais sócios, que têm, junto ao orgão ambiental estadual, 46 pendências a sanar... Entre elas, pérolas como exigência de ITR das áreas ocupadas pelos produtores comunitários, que vivem em unidades de conservação nas quais não se paga ITR...