quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Livro de Jó - terceira leitura

Já era hora de voltar ao Livro de Jó, mas o fato é que me sentia insegura quanto a concluir a narrativa de minha leitura pois sentia que nada tinha de conclusivo, e sim dúvidas e perguntas. Até que percebi que a leitura de uma escritura talvez seja assim mesmo: dá-nos o que no momento podemos vislumbrar. Assim, outras leituras haverão, e aqueles que quiserem compartilhar seus estudos serão bem-vindos. Dito isso, vamos ao que tenho para contar.

Vimos que Jó, que vivia na bonança, foi acometido daquilo que mais temia: desgraças que o pertubaram profundamente e terminaram por abalar sua fé em Deus. Mas, notem, se era algo que ele mais temia, é provável que já estivesse dentro dele dado como possibilidade. O que quero sugerir é que a difícil passagem pela qual ele envereda pode ter sido produzida por ele mesmo. Mas como? Não sei bem. Que paciência é esta pela qual a história é tão conhecida? Consigo mesmo? Novamente, não sei.

Mas talvez seja a hora de revelar algo que está no início da história e que permaneceu oculto até agora. Antes de começarem as provações de Jó, logo no início da narrativa encontramos a seguinte passagem: “Certa vez, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor; entre eles veio também Satanás”. Satanás, filho de Deus? Pois é, está lá, escrito assim mesmo (pelo menos na minha tradução...). Se é assim, o mal ou qualquer coisa que o valha associada a Satanás está contida na Criação Divina. Bom, pensando bem, se Deus é o supremo criador e dono de todo poder, por que estaria o mal e seu principal representante, o Diabo, fora de sua alçada? Sinto-me em terreno perigoso... Se Deus está em cada um de nós e Deus encerra o bem e o mal, este último também está dentro de nós, certo? Mas o que que ele [o mal] está fazendo em nós e com consentimento de Deus? Que papel ou função terá esta presença na Criação?

Voltando a Jó, trava-se o seguinte diálogo entre Deus e seu filho Satanás:

- Donde vens?, indaga Deus.
- Dei umas voltas pela terra, andando a esmo.
- Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, teme a Deus e se afasta do mal.

Satanás então diz que esta situação só é assim porque Deus levantou “um muro de proteção ao redor” de Jó e sua família e bens. “Mas estende a mão e toca em todos os seus bens; eu te garanto que te lançará maldições no rosto”. Deus permite que assim seja feito, mas proibe Satanás de tocar em Jó.

Sai Satanás e promove uma série de desgraças que atingem os bens e filhos e filhas de Jó, que, contudo, resiste e não protesta contra Deus. Novo diálogo tem lugar entre Deus e Satanás, e este último afirma que Jó só permanece firme porque seu próprio corpo não foi ainda tocado. “Seja!”, disse o Senhor a Satanás, “ele está em suas mãos, mas poupa-lha a vida”. É então que Jó é acometido de chagas e sofrimentos físicos indescritíveis, e é neste momento que seus três amigos o vem visitar. O resto já sabemos um pouco: Jó lamenta-se, pede para morrer, depois revolta-se; os amigos o afirmam culpado (alguma culpa havia de ter!), acusam-no tal como a um astucioso herege; Jó não se entrega, não assume culpa, protesta inocência, sente-se injustiçado.

(espero que me perdoem, a postagem já vai grande e vou me permitir uma quarta leitura do Livro de Jó, que logo estará no ar!)

2 comentários:

lunalunera disse...

Hum! Tá , tu sabe que amei esse post? tá bonito de se ver. gracias!

Marcelo disse...

Acho curioso q esse tema da provação esteja tão presentes no velho testamento e na bíblia, pois seus ensinamento valorizam as fraquezas, como escancarou Nietzsche na Genealogia da Moral.

Mas vejo nesses duelos uma luta interessante contra o ressentimento, que entendo como uma postura passiva que atribui culpa ao outro e se furta da auto-crítica e reconhecimento de sua participação no processo, ainda que pequena.

Aliás, esse conceito foi bem trabalhado por Nietzsche, mais nunca citado por Freud, seu contemporâneo. Fiquei sabendo que só uma vez este citou aquele. Displicentemente, numa entrevista pouco antes de falecer, teria narrado de memória uma passagem de Zaratrusta, denunciando seu apreço pela obra.

Fechando, digo que esperarei ansioso a quarta leitura, mas sugiro uma interrupção menos brusca que a última, pois senti como se me tirassem rapidamente o chão, e caisse completamente desprevenido.

É isso,

Ah, foi boa a fala do Maurício ontem em.

Vc disse q vai viajar, é pro Juruá? (to perguntando aqui pq não tenho seu novo e-mail...)


Bjs!