terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tribos urbanas

Chove no Rio desde ontem. Aquela chuvinha fina e que não pára. Tempo ideal para ficar em casa, lendo, dormindo, estudando, ouvindo música, escrevendo, enfim, aquela atividade concentrada gostosa. Pois é, mas tive que ir ao centro do Rio resolver umas coisas. Passei pelo centro e depois pelo Largo do Machado e Catete, dois bairros intermediários entre o centro a zona sul carioca. Não tive coragem de fotografar, mas vi coisas, atravessei fronteiras.

O centro do Rio está muito degradado. E já foi tão agradável! Hoje é um festival de camelôs e camelódromos, por todo canto. Muita gente andando, muita. Naquele aperto da chuva, guarda-chuva em punho, uma primeira cena chamou minha atenção: um homem, um mendigo, cujos pés eram negros, e que olhei para conferir se era um sapato, mas não, eram os pés mesmo, ele estava descalso. As calças compridas cobriam parte dos pés, arrastavam no chão, mas deu para ver os dedos e as negras unhas, que eram como patas. Foi forte, pois não vi um pé, e sim outra coisa.

Depois, no Largo do Machado, vi pessoas pedindo dinheiro na rua. Uns andando, outros no chão. Vi um negro, um senhor, que abordou outro senhor, branco, bem limpo e vestido, que só conseguiu reagir fingindo que não havia ninguém falando com ele. Duro de ver. Prometi a mim mesma que não procederia da mesma forma (mas já devo ter feito isso algum dia). Depois, em frente a uma drogaria mega que tem aqui (tal de "vovó Pacheco"), um rapaz comendo um sanduíche sujo com uma mão bem suja, unhas sujas, e um outro dormindo, todo encolhido e maltrapilho, descalso. Logo à frente, quando atravessei a rua, um homem, mendigo, comendo um pedaço de pão e usando uma lata de lixo como "mesa". Surreal, e nojento.

Que tribo é esta, fiquei me perguntando. Como definir estes seres, estas pessoas, que tipo de gente é esta? Veio primeiro uma idéia de "animalidade", vivendo como animais, como se diz. Mas não, nem animal vive daquele jeito, ao menos que esteja muito mal-tratado. Estas pessoas estão mal-tratadas. Uma degradação, uma degeneração de padrões de civilização? Outro tipo de gente, outros trajes, estratégias de sobrevivência, hábitos, códigos - uma sociedade das ruas. Sei lá que nome dar a essas tribos e territórios. Mas fiquei entre assustada e perturbada com o que vi. Pensando agora: será que esse povo acredita em Deus? O que pensam sobre isso? A que falanges pertencem? Em volta de alguns, digo mesmo, havia seres não visíveis.

Um comentário:

Karine Narahara disse...

Poxa Mariana, só agora viu seu diário de bordo do Velho Mundo... Se soubesse tinha acompanhado suas andanças por aqui, dia-a-dia! Pois é, o Rio de Janeiro apesar de continuar lindo, tá cada vez mais caótico. Minhas férias por lá mexeram muito comigo... Talvez porque ainda não havia ficado tanto tempo por lá desde que sai... Talvez pela eminência de voltar a morar lá... A vida parece cada vez mais banal na nossa terra natal. E as condições humanas cada vez mais degradantes. Triste. Ao mesmo tempo, vemos pelas ruas que aquela camaradagem carioca continua a existir. Entramos num ônibus, e as pessoas ainda se ajudam, indicam o melhor lugar pra saltar, cedem o banco para alguém mais velho. Acho que essa camaradagem carioca segura muito a onda do povo. Também conheci e reencontrei várias pessoas incríveis, que seguem tocando sua missões, buscando uma cidade mais harmônica, de mais amor a vida. Bonito. Tive a oportunidade de conhecer um grupo de amigos rastafaris, lindos... Que reconheciam que a vida carioca não anda muito fácil, mas acreditando que a babilônia está realmente ruindo, e que algo um mundo mais belo e de mais amor é possível... Bom, eles seguem nas missões deles lá, e nós continuamos nas nossas aqui. Um beijo, e seja muitonbem-vinda de volta ao Novo Mundo!