domingo, 7 de setembro de 2008

Ainda lições de antropologia

Quanto mais se vive mais se aprende. Uma maravilha. Ando me sentindo uma antropóloga reiniciada. O primeiro sinal deste fenômeno foi o incrível estranhamento que tive nas primeiras semanas em Paris, acompanhado de um forte sentimento de pertencimento ao Brasil. Uma conclusão certamente de cunho etnocêntrico, mas insisto que defensável com argumentos razoáveis e (ir)racionais, e que perdura até hoje é a de que o Brasil é a melhor terra para se viver. A Europa, para passear, conhecer, estudar; o Brasil, para se viver, com todos os seus prazeres e tristezas. Bom, desta idéia, que é como que uma certeza, não consigo ou tenho a intenção de me livrar.

Estou agora no Rio de Janeiro. Tirando os efeitos do cansaço da viagem e do fuso horário, percebo-me muito feliz de estar aqui e com um olhar mais atento para as singularidades do lugar. Atento e generoso, pois estou numa fase que acho tudo bom. A cidade é linda, o clima é ótimo, o povo é bacana - minha aldeia é o máximo!

Hoje, por exemplo, peguei um pequeno engarrafamento de trânsito numa rua de Botafogo porque um trio elétrico puxava uma pequena multidão com uma música de carnaval pra comemorar o dia da Independência. Achei tão bom. Mais cedo entrara numa farmácia e me vi surpreendida com o fato de conseguir me comunicar: falei o que procurava, o balconista me indicou onde estava, conversamos sobre detalhes do produto e depois vimos que o mesmo estava em falta - tudo isso sem qualquer problema de entendimento mútuo. Tudo muito natural: eu falei, ele entendeu; ele falou, eu entendi. A língua parece uma coisa natural, e num certo sentido funciona assim mesmo: um fala, o outro entende, e vice-versa. Contudo, a língua (digo, o idioma com suas palavras, estruturas, gramática) não é nada natural, é sim uma ralação para aprender. Uma obra da humanidade, uma bela e imprescindível obra.

Pois bem, assim me encontro: entre deslumbrada com a cidade e seus nativos e me conscientizando do óbvio (ao menos do ponto de vista antropológico) tenho passado esses primeiros momentos. O familiar e conhecido, pelo distanciamento e exotismo vivenciados há pouco noutras terras, ganharam novos ares e aspectos, num certo sentido um redescobrimento - intelectual e afetivo também.

Vejo o povo andando na rua: outro andar, outro trajar, outro povo. Fiquei pensando nos efeitos do ambiente sobre o corpo e suas sensações e afetos.

Desde que cheguei, por exemplo, não usei casaco. O clima está ameno, morno, acolhedor. Em Paris e na Holanda conheci pessoas, pessoas de quem gostei muito, e na hora de abraçá-las para me despedir, havia um monte de pano entre nós: casacos. Não conseguia tocar nessas pessoas, ou em algumas delas, sentí-las um pouco mais. O toque, algo aqui relativamente corriqueiro ou que rola com mais facilidade e sem tantos obstáculos. Fiquei com aquela impressão de um relativo desconhecimento em relação a pessoas com quem conversei e convivi um pouco. Frio, casaco, corpo, relacionamentos. Por outro lado, quem sabe (quem sabe?), o frio e os casacos tragam para as relações um componente de recato e mistério, de intimidade conquistada. Ou de obstáculos e distanciamento. Fiquei lembrando do Mauss, das técnicas corporais e dos esquimós também.

5 comentários:

Pamela disse...

MInha querida Cris: Era por eso que no tenia sus noticias. No me daba cuenta que estaba paseando tan lejos!! Cris, eres una persona muy sabia, Paris esta bien para visitar, lo mismo Europa. Brasil es para VIVIR, por lãstima no soy brasileira, pero concuerdo totalmente. Uno precisa de su pais, de sus olores, de sus alegrias y sus dolores.

Ah y ese detalle del abrazo con casaco, me encantõ> es tal cual, no se siente la piel del otro. Es otra manera de acercarse al otro. El brasilero es ante todo sensibilidad y sensualidad.

Válber Lima disse...

Olha, Cris, quanto mais eu leio seu blog, mais fico fã dele. Muito rico e consistente. Aprendo muito aqui. Agora, sobre a naturalidade da língua, acho que na verdade é apenas uma sensação. Depois que associamos os signos sonoros aos seus respectivos significados, fica fácil nos parecer natural qualquer língua. Mas isto é algo que, em certo sentido, até prejudica a liberdade filosófica do homem, porque quando nos limitamos a um código só, nos limitamos também o pensamento. O que é a língua? Uma associação. Construir uma associação é fácil; mas a dissociação é algo muito mais difícil do que o inverso. Por isso é que na linguagem cultural é quase impossível fazer com que um determinado ritual, que significa o bem para uma tribo qualquer, ganhe outro sentido para estes mesmos que já têm a linguagem mítica como natural. Para eles não existe forma mais confortável do que aquela que eles já cristalizaram na mente, e para eles já é natural. Eu por exemplo até hoje fico me perguntando por que a maioria das pessoas não acha estranho que o sétimo mês do ano não seja setembro. Acredito que depois que a gente aprende uma linguagem, seja qual for, ela nos torna cegos. Ninguém questiona porque o mês de setembro é o mês nove. A gente usa a palavra e pronto. Nunca esqueci de algo que ouvi de um desconhecido no aeroporto: “quando o homem fala mais de cinco idiomas, ele olha para o mundo com outros olhos”. Acho que isso é parecido com a sensação que tenho de que é preciso conhecer várias cidades para se conhecer melhor o seu lugar de origem. abraço.

Mariana disse...

bom, não estou entendendo este "Cris" com o qual estão me chamando... Não é Cris, pessoal, é Mariana, lembram-se?

Válber Lima disse...

Desculpa, Mariana. Eu fui no embalo da Pamela e depois foi que percebi a falta de atenção. Foi mal.

Cris Moreno disse...

Caramba, Mariana, perdão. Acho que a Pame clicou no post sobre o seu blog e deixou comentário como se estivesse falando comigo. Já ri tanto, que você nem imagina. A Pame é assim mesmo...rsrs. Quer visitá-la? Vanellus é o blog dela.

Saudades.

Beijos.