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sábado, 2 de julho de 2011

Crime hediondo


Você sabe por que a floresta está esbranquiçada na foto acima? Uso de veneno. Ao que parece uma nova técnica de desmatamento. Além de desfolhar e secar as árvores, o veneno, que é lançado com uso de aviões, ainda contamina o solo, os lençóis freáticos, os animais e, claro, as pessoas.

"A floresta vira um grande paliteiro, facilitando o desmatamento. É o mesmo processo usado pelo Exército norte-americano para encontrar os vietnamitas na Guerra do Vietnã", disse o superintendente do Ibama no Amazonas, Mário Lúcio Reis.

Credo!

A área atingida, de cerca de 180 campos de futebol, pertence à União e está localizada ao sul do município de Canutama (AM), entre o Parque Nacional de Mapinguari e a terra indígena Jacareúba/Katawixi, que ainda não foi demarcada.

Nem sei mais o que dizer... Para ler mais, vejo o site do Greenpeace.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre onças e pinguins

Duas matérias hoje nos jornais despertaram minha atenção, e deixaram-me, uma e/ou outra, chocada, passada, comovida, pensativa. A primeira é sobre a penalização de uma proprietária de fazenda no Pantanal Matogrossense que promovia safaris para turistas estrangeiros, tendo como alvo preferencial onças, pintadas e pardas. A dita senhora, que atende pelo irônico nome de Beatriz Rondon, parece que já chegou, em algum momento, a ser premiada como defensora das mesmas onças caçadas em sua fazenda. Vai entender. Coisas de Mato Grosso, acho. Foram três multas em um mês na fazendeira reincidente, totalizando ridículos R$ 230 mil para quem, segundo a matéria, cobrava US$ 30 mil dos turistas interessados em matar onças. Agora me diga: qual a graça disso? Matar onças... Só pode ser uma perversão do nosso melhor e mais valoroso bom senso.

Outra matéria é sobre os pinguins, esses nossos amigos de casaca que estão, como outros animais dos pólos, sofrendo com o aquecimento do planeta. Pois bem, os conhecidos como pinguins-adélia, que acho que são uns pequenininhos super-simpáticos, estão desaparecendo da Penísula Antártica porque as rochas onde punham seus ovos agora ficam cobertas pela neve que se precipita em maior quantidade. Então não tem mais como fazer os ninhos. E a outra péssima notícia é sobre os Imperadores, aqueles d'A Marcha dos Pinguins (que não viu este filme, ou não conhece a valentia desses seres, precisa se atualizar!), que desapareceram da região. Uma única colônia que tinha por ali, sumiu. Para onde foram eles? Refugiados ambientais, drama de muitas populações humanas.

Mas hoje quiz mesmo é falar dos animais, que estão vivendo suas vidas e sendo afetados dramaticamente pela nossa. Eles não nos acusam, não apontam seus dedos para nós, não nos xingam, nem ficam por aí se queixando, ressentidos. Não sei muito bem o que eles fazem, ou como designar o que fazem. A vida quer viver, eles vivem. E se não dá mais pra viver, não vivem mais. Talvez seja assim, meio natureza mesmo, simples, natural. Mas não dá pra não pensar no que nós estamos fazendo, com eles e com nós mesmos, privando-nos da sua companhia no planeta, da sua companhia nesta nossa viagem pelo espaço cósmico a bordo da nave Terra. Tornando a viagem mais árdua, e a nossa nave um ambiente difícil pra se viver. Sei lá, devemos estar precisando viver tudo isso. Será? Pra chegar a onde mesmo se tudo já está aqui...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"A Terra é nosso parente"

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Talvez a mimosa pudica possa nos ajudar a entender a tragédia que se abateu nessa semana sobre a região serrana do Rio de Janeiro, causando mais de 600 mortes. A mimosa é uma plantinha sensitiva, conhecida popularmente como “dormideira”, “morre João’ ou “Maria-fecha a porta”, encontrada em locais úmidos da Mata Atlântica ou da Floresta Amazônica. Possui flores pequenas, cor de rosa, um caule com espinhos e folhas divididas em vários folíolos. O que ela tem a ver com as chuvas torrenciais que tantos estragos fizeram?

As imagens da TV mostraram um quadro desolador, com depoimentos dramáticos de sobreviventes. A correnteza, com forte estrondo, vem descendo do alto da serra. No caminho, arranca árvores, desenterra pedras, soterra casas e arrasta tudo o que encontra em sua frente: casas, carros, pontes, gente, bichos, corpos, barro, lama, entulho, lixo. Barreiras desabam nas áreas de encostas. Pequenos córregos e riachos se transformam em rios caudalosos que transbordam, irrompem velozmente pelas cidades e racham o asfalto, engolindo ruas, praças, bairros, semeando dor, sofrimento, morte. Um cenário de terra arrasada: escombros, devastação, destruição.

Ainda estamos contando, enterrando e chorando os mortos e os desabrigados em cinco cidades do Rio. A tragédia, em menores proporções, atingiu São Paulo, cuja capital ficou submersa, dando um nó no trânsito. A Folha publicou quarta-feira (12) foto impressionante: toneladas de garrafas plásticas cobrem o rio Pinheiro, que transbordou. Em Minas Gerais, 72 municípios estão debaixo d’água. A chuva castigou outros países - Austrália, Filipinas e Sri Lanka. Por que tanta raiva e tanta violência da natureza? Parece que o planeta está reagindo e é aqui que entra a Maria fecha a porta.

Teu pai morreu


A última vez que vi a Maria foi em setembro de 2007, em Soure, Ilha do Marajó, acompanhado de uma pajé cabocla, Zeneida Lima, e de um sábio guarani, então com 96 anos, o karai Tupá Werá, da Aldeia de M’Biguaçu (SC). Não resisti em reconstituir uma brincadeira de infância em Manaus, que consiste em passar a ponta do dedo no meio da sua folha, dizendo: “Maria, fecha a porta que teu pai morreu”. Ela fecha. Os folíolos obedecem sempre, se inclinam numa reverência e imediatamente murcham, para logo em seguida, com o pai ressuscitado, voltarem à posição normal.

Tem algo de mágico para uma criança falar com uma planta, trocar sensibilidade com ela, provocá-la e obter uma resposta imediata, o que não é nenhuma novidade para os índios para quem não é só a Maria que fecha sua porta, é possível falar com a Terra, as plantas, os bichos, os rios, os morros, as pedras. É outro sistema de pensamento. O guarani Marcos Moreira, meu aluno no curso de formação de professores, entrevistou para um trabalho de avaliação o velho karai Alexandre Acosta, da Aldeia de Jataity (RS) que declarou, entre outras coisas:

- Esta Terra que pisamos, é gente como nós, é nosso irmão. É por isso que o guarani respeita a Terra, que é também um guarani. O guarani não polui a água, pois é o sangue de um karai. Esta Terra tem vida, só que muita gente não sabe. É uma pessoa, tem alma. A mata, por exemplo, quando um guarani precisa cortar uma árvore pede licença, porque sabe que ela é uma pessoa. A Terra é nosso parente, mas está acima de nós. Por isso ensinamos as crianças a respeitarem a Terra, que até hoje se movimenta, só que não percebemos. Quando os parentes morrem, carne e corpo se misturam com a terra. Por isso, temos que respeitar esta terra e este mundo em que a gente vive.

A tragédia vivida em diferentes partes do Planeta nessa última semana não é um acidente natural, mas produto de uma intervenção desastrada do homem, que esqueceu que a Terra é gente como nós. As chuvas, que aterrorizam e paralisam as cidades, não causam tais estragos numa aldeia indígena. É que as cidades cresceram sem respeito ao “nosso parente”, se expandiram sem “pedir licença”, isto é, desordenadamente, agressivamente, sem planejamento de impacto ambiental e adoção de medidas para proteção de encostas, reflorestamento, uso do solo e destino do lixo urbano.

Jogar no mato


Na busca do lucro rápido, a especulação imobiliária desmatou indiscriminadamente, construiu em encostas, alterou os caminhos naturais da drenagem da água, tornando instáveis os terrenos e ferindo de morte a terra. Expulsos das áreas mais nobres, os deserdados abriram ainda mais a ferida, construindo perigosamente nos morros. Hoje, as cidades não ensinam às crianças sequer a tratar o lixo.

Quando chove, minha rua alaga. Da janela do meu apartamento, contemplo a estupidez humana. Vejo boiando garrafas pet, sacos de plástico, embalagens de alumínio, latas de refrigerantes, que entopem as grelhas dos bueiros das galerias pluviais, prejudicando a vazão da água. Na minha infância, a vovó Filó recomendava dar um destino ao lixo: “joga no mato”. Mas o lixo atirado no quintal era sobra de alimentos, casca de banana e de outras frutas, bagaço de laranja, que adubavam a terra.

Hoje, o lixo é formado por resíduos sólidos, embalagens descartáveis de plástico, lata, vidro, alumínio, mas continua predominando a mentalidade de “jogar no mato”. A foto da Folha de São Paulo é uma prova gritante do fracasso da educação ambiental na escola e no ambiente familiar. Crianças e adultos atiram o lixo em espaços coletivos, com a mentalidade patriarcal de que o espaço público é terra de ninguém e de que existem garis para limpar nossa sujeira. Quem a terra fere, com a terra será ferido?

Na visita feita ao sítio da pajé Zeneida Lima, em Soure, ela entrou no mato com o guarani Tupã Werá, conhecido no mundo não indígena como Alcindo Moreira. Os dois trocaram informações. Ali, onde qualquer pessoa, mesmo o paraense comum, só via árvores genéricas, eles viam cada espécie em particular. Alcindo dava o nome em guarani, algumas vezes também em português, descrevendo as propriedades medicinais ou alimentícias de cada planta.

- As árvores falam. A gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem - disse.

Gabriel Garcia Márquez conta que em dezembro de 1981 recebeu telefonema de um amigo sério e inteligente, perguntando-lhe qual era o tema da crônica da semana, que seria publicada no dia seguinte no jornal El Espectador, de Bogotá. Ele respondeu que estava escrevendo sobre o sofrimento das plantas e das flores, sustentando que elas têm alma. Alarmado, o amigo exclamou:

- Ay, carajo! Te estás volviendo maricón?.

Meus amigos do Ceará me informam que o governador Cid Gomes - aquele que levou a sogra para Paris com dinheiro público - encaminhou à Assembléia Legislativa, em caráter de urgência, Projeto de Lei que dá poderes extraordinários ao governador para dispensar de licenciamento ambiental no Estado do Ceará uma série de atividades, dentre as quais o desmatamento, os aterros sanitários, habitação dita de interesse social, estradas de rodagem, projetos agropecuários e outras atividades e obras modificadoras do meio ambiente.

Enquanto o planeta for povoado por machos dessa estirpe, que formulam e implementam políticas públicas, não ouviremos a voz da terra e as tragédias se repetirão. Maria, fecha a porta que teu pai está morrendo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Fogo! Fogo!

Interrompemos nosso relato do Festival Pano para uma triste notícia de última hora:
Fui ao aeroporto por volta das 17 horas buscar o meu professor Mauro Almeida, chegando de Cruzeiro do Sul num voo já totalmente atrasado devido à falta de condições de pouso: muita fumaça das queimadas. Na volta, paramos para observar o drama que se desenrolava no campus da Universidade Federal do Acre: fogo, a mata ali perto da UTAL estava pegando fogo. Tirei fotos com a máquina do Mauro, mas minha conexão está péssima e não consigo carregar as imagens...

Ah, gente, um horror ver as árvores serem devoradas pelas chamas. Sinistro. E lamentável. Um retrato da nossa situação atual: seca, fumaça e a floresta queimando. Estamos todos, direta e indiretamente, colocando fogo e criando o nosso próprio inferno.

Onde tudo isso vai parar? Quando vamos parar? Hoje vi carros andando com um pano preto em sinal de luto pela morte de um parlamentar. Pensei em algo similar em protesto pela morte das nossas árvores, palmeiras, animais e oxigênio.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Xingu é aqui

"Ondas de calor jamais sentidas. Ventos acima da média. Rios cada vez menos caudalosos. Esse é o cenário atual da região do Alto Xingu, segundo o chefe indígena Raoni Txucarramãe, líder da etnia Kayapó".

Esta descrição de Raoni, publicada na Folha de SP de hoje, parece extremamente familiar para nós acreanos, em especial neste verão que se encerra (assim esperamos). O calor tem estado verdadeiramente INSUPORTÁVEL, o sol machuca e é implacável, dá uma sensação de sufocamento, sei lá. Ir no centro virou um pesadêlo. Lá em casa, os cachorros vivem debaixo de casa, que é mais fresco. Os filhotes de um mês choram de calor durante o dia. À noite, melhora um pouco, mas dormir sem ventilador (não tenho e não gosto de ar condicionado) virou pré-condição. Durante o dia também: os dois que tenho em casa funcionam sem parar. Esses dias passou lá em casa uma amiga querida, a Maria Alice. Conversando ela me contou que nos Estados Unidos, numa cidade onde esteve (não recordo o nome), cuja temperatura sempre ficou nos 35 graus, ela experimentou um calor de 47 graus! Disse que as pessoas iam para os jardins e ficaram estateladas em cima da grama. Imaginou a cena?

"O calor está intenso, os ventos são muitos mais fortes do que eram antes e o nível dos rios na seca é diferente do que era tempos atrás. Estou muito preocupado, pois estou vendo acontecer tudo o que vinha falando há tanto tempo". É Raoni, também estou preocupada.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tribos urbanas

Chove no Rio desde ontem. Aquela chuvinha fina e que não pára. Tempo ideal para ficar em casa, lendo, dormindo, estudando, ouvindo música, escrevendo, enfim, aquela atividade concentrada gostosa. Pois é, mas tive que ir ao centro do Rio resolver umas coisas. Passei pelo centro e depois pelo Largo do Machado e Catete, dois bairros intermediários entre o centro a zona sul carioca. Não tive coragem de fotografar, mas vi coisas, atravessei fronteiras.

O centro do Rio está muito degradado. E já foi tão agradável! Hoje é um festival de camelôs e camelódromos, por todo canto. Muita gente andando, muita. Naquele aperto da chuva, guarda-chuva em punho, uma primeira cena chamou minha atenção: um homem, um mendigo, cujos pés eram negros, e que olhei para conferir se era um sapato, mas não, eram os pés mesmo, ele estava descalso. As calças compridas cobriam parte dos pés, arrastavam no chão, mas deu para ver os dedos e as negras unhas, que eram como patas. Foi forte, pois não vi um pé, e sim outra coisa.

Depois, no Largo do Machado, vi pessoas pedindo dinheiro na rua. Uns andando, outros no chão. Vi um negro, um senhor, que abordou outro senhor, branco, bem limpo e vestido, que só conseguiu reagir fingindo que não havia ninguém falando com ele. Duro de ver. Prometi a mim mesma que não procederia da mesma forma (mas já devo ter feito isso algum dia). Depois, em frente a uma drogaria mega que tem aqui (tal de "vovó Pacheco"), um rapaz comendo um sanduíche sujo com uma mão bem suja, unhas sujas, e um outro dormindo, todo encolhido e maltrapilho, descalso. Logo à frente, quando atravessei a rua, um homem, mendigo, comendo um pedaço de pão e usando uma lata de lixo como "mesa". Surreal, e nojento.

Que tribo é esta, fiquei me perguntando. Como definir estes seres, estas pessoas, que tipo de gente é esta? Veio primeiro uma idéia de "animalidade", vivendo como animais, como se diz. Mas não, nem animal vive daquele jeito, ao menos que esteja muito mal-tratado. Estas pessoas estão mal-tratadas. Uma degradação, uma degeneração de padrões de civilização? Outro tipo de gente, outros trajes, estratégias de sobrevivência, hábitos, códigos - uma sociedade das ruas. Sei lá que nome dar a essas tribos e territórios. Mas fiquei entre assustada e perturbada com o que vi. Pensando agora: será que esse povo acredita em Deus? O que pensam sobre isso? A que falanges pertencem? Em volta de alguns, digo mesmo, havia seres não visíveis.