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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"A Terra é nosso parente"

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Talvez a mimosa pudica possa nos ajudar a entender a tragédia que se abateu nessa semana sobre a região serrana do Rio de Janeiro, causando mais de 600 mortes. A mimosa é uma plantinha sensitiva, conhecida popularmente como “dormideira”, “morre João’ ou “Maria-fecha a porta”, encontrada em locais úmidos da Mata Atlântica ou da Floresta Amazônica. Possui flores pequenas, cor de rosa, um caule com espinhos e folhas divididas em vários folíolos. O que ela tem a ver com as chuvas torrenciais que tantos estragos fizeram?

As imagens da TV mostraram um quadro desolador, com depoimentos dramáticos de sobreviventes. A correnteza, com forte estrondo, vem descendo do alto da serra. No caminho, arranca árvores, desenterra pedras, soterra casas e arrasta tudo o que encontra em sua frente: casas, carros, pontes, gente, bichos, corpos, barro, lama, entulho, lixo. Barreiras desabam nas áreas de encostas. Pequenos córregos e riachos se transformam em rios caudalosos que transbordam, irrompem velozmente pelas cidades e racham o asfalto, engolindo ruas, praças, bairros, semeando dor, sofrimento, morte. Um cenário de terra arrasada: escombros, devastação, destruição.

Ainda estamos contando, enterrando e chorando os mortos e os desabrigados em cinco cidades do Rio. A tragédia, em menores proporções, atingiu São Paulo, cuja capital ficou submersa, dando um nó no trânsito. A Folha publicou quarta-feira (12) foto impressionante: toneladas de garrafas plásticas cobrem o rio Pinheiro, que transbordou. Em Minas Gerais, 72 municípios estão debaixo d’água. A chuva castigou outros países - Austrália, Filipinas e Sri Lanka. Por que tanta raiva e tanta violência da natureza? Parece que o planeta está reagindo e é aqui que entra a Maria fecha a porta.

Teu pai morreu


A última vez que vi a Maria foi em setembro de 2007, em Soure, Ilha do Marajó, acompanhado de uma pajé cabocla, Zeneida Lima, e de um sábio guarani, então com 96 anos, o karai Tupá Werá, da Aldeia de M’Biguaçu (SC). Não resisti em reconstituir uma brincadeira de infância em Manaus, que consiste em passar a ponta do dedo no meio da sua folha, dizendo: “Maria, fecha a porta que teu pai morreu”. Ela fecha. Os folíolos obedecem sempre, se inclinam numa reverência e imediatamente murcham, para logo em seguida, com o pai ressuscitado, voltarem à posição normal.

Tem algo de mágico para uma criança falar com uma planta, trocar sensibilidade com ela, provocá-la e obter uma resposta imediata, o que não é nenhuma novidade para os índios para quem não é só a Maria que fecha sua porta, é possível falar com a Terra, as plantas, os bichos, os rios, os morros, as pedras. É outro sistema de pensamento. O guarani Marcos Moreira, meu aluno no curso de formação de professores, entrevistou para um trabalho de avaliação o velho karai Alexandre Acosta, da Aldeia de Jataity (RS) que declarou, entre outras coisas:

- Esta Terra que pisamos, é gente como nós, é nosso irmão. É por isso que o guarani respeita a Terra, que é também um guarani. O guarani não polui a água, pois é o sangue de um karai. Esta Terra tem vida, só que muita gente não sabe. É uma pessoa, tem alma. A mata, por exemplo, quando um guarani precisa cortar uma árvore pede licença, porque sabe que ela é uma pessoa. A Terra é nosso parente, mas está acima de nós. Por isso ensinamos as crianças a respeitarem a Terra, que até hoje se movimenta, só que não percebemos. Quando os parentes morrem, carne e corpo se misturam com a terra. Por isso, temos que respeitar esta terra e este mundo em que a gente vive.

A tragédia vivida em diferentes partes do Planeta nessa última semana não é um acidente natural, mas produto de uma intervenção desastrada do homem, que esqueceu que a Terra é gente como nós. As chuvas, que aterrorizam e paralisam as cidades, não causam tais estragos numa aldeia indígena. É que as cidades cresceram sem respeito ao “nosso parente”, se expandiram sem “pedir licença”, isto é, desordenadamente, agressivamente, sem planejamento de impacto ambiental e adoção de medidas para proteção de encostas, reflorestamento, uso do solo e destino do lixo urbano.

Jogar no mato


Na busca do lucro rápido, a especulação imobiliária desmatou indiscriminadamente, construiu em encostas, alterou os caminhos naturais da drenagem da água, tornando instáveis os terrenos e ferindo de morte a terra. Expulsos das áreas mais nobres, os deserdados abriram ainda mais a ferida, construindo perigosamente nos morros. Hoje, as cidades não ensinam às crianças sequer a tratar o lixo.

Quando chove, minha rua alaga. Da janela do meu apartamento, contemplo a estupidez humana. Vejo boiando garrafas pet, sacos de plástico, embalagens de alumínio, latas de refrigerantes, que entopem as grelhas dos bueiros das galerias pluviais, prejudicando a vazão da água. Na minha infância, a vovó Filó recomendava dar um destino ao lixo: “joga no mato”. Mas o lixo atirado no quintal era sobra de alimentos, casca de banana e de outras frutas, bagaço de laranja, que adubavam a terra.

Hoje, o lixo é formado por resíduos sólidos, embalagens descartáveis de plástico, lata, vidro, alumínio, mas continua predominando a mentalidade de “jogar no mato”. A foto da Folha de São Paulo é uma prova gritante do fracasso da educação ambiental na escola e no ambiente familiar. Crianças e adultos atiram o lixo em espaços coletivos, com a mentalidade patriarcal de que o espaço público é terra de ninguém e de que existem garis para limpar nossa sujeira. Quem a terra fere, com a terra será ferido?

Na visita feita ao sítio da pajé Zeneida Lima, em Soure, ela entrou no mato com o guarani Tupã Werá, conhecido no mundo não indígena como Alcindo Moreira. Os dois trocaram informações. Ali, onde qualquer pessoa, mesmo o paraense comum, só via árvores genéricas, eles viam cada espécie em particular. Alcindo dava o nome em guarani, algumas vezes também em português, descrevendo as propriedades medicinais ou alimentícias de cada planta.

- As árvores falam. A gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem - disse.

Gabriel Garcia Márquez conta que em dezembro de 1981 recebeu telefonema de um amigo sério e inteligente, perguntando-lhe qual era o tema da crônica da semana, que seria publicada no dia seguinte no jornal El Espectador, de Bogotá. Ele respondeu que estava escrevendo sobre o sofrimento das plantas e das flores, sustentando que elas têm alma. Alarmado, o amigo exclamou:

- Ay, carajo! Te estás volviendo maricón?.

Meus amigos do Ceará me informam que o governador Cid Gomes - aquele que levou a sogra para Paris com dinheiro público - encaminhou à Assembléia Legislativa, em caráter de urgência, Projeto de Lei que dá poderes extraordinários ao governador para dispensar de licenciamento ambiental no Estado do Ceará uma série de atividades, dentre as quais o desmatamento, os aterros sanitários, habitação dita de interesse social, estradas de rodagem, projetos agropecuários e outras atividades e obras modificadoras do meio ambiente.

Enquanto o planeta for povoado por machos dessa estirpe, que formulam e implementam políticas públicas, não ouviremos a voz da terra e as tragédias se repetirão. Maria, fecha a porta que teu pai está morrendo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Luto

Gente, este é o Glauco Vilas Boas. O Glauco morreu esta madrugada, foi assassinado junto com seu filho, Raoni, de apenas 25 anos. Até o momento não está claro como tudo aconteceu, se foi assalto, se foi uma pessoa fora de si. Mas isso não importa muito agora, pois o Glauco se foi.

Todo mundo conhece o Glauco, todo mundo que conhece e admira o trabalho de cartunista dele, que já se divertiu lendo as aventuras do Geraldão, aquele drogadito muito louco e atrapalhado, e Dona Marta, taradíssima, um perigo na repartição! E tantos outros. Sempre lia ele na Folha de São Paulo, onde trabalhou por mais de 30 anos.

E também conheci o Glauco. Lá no Céu de Maria, igreja do Santo Daime localizada no Pico do Jaraguá, na Grande São Paulo. No Céu de Maria o Glauco era o comandante do trabalho, sempre tocando sua sanfona. Pois é, o cara era o maior sanfoneiro! Uma pessoa gentil, atenta ao ritual, zelando a casa da qual era o responsável.

Não dá pra acreditar: um cara rezador, temente a Deus, que não fazia mal a ninguém, e uma morte tão estúpida! A gente fica sem saber o que pensar. Entender, é melhor nem tentar. A gente não sabe o seguimento de cada um de nós. A gente sabe muito pouca coisa.

Que Deus, a Rainha da Floresta, Jesus Cristo, Ns. Sra. Aparecida, Mestre Irineu, Padrinho Sebastião Mota de Melo, Yemanjá e todos os seres divinos acolham este irmão que ora se apresenta.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tribos urbanas

Chove no Rio desde ontem. Aquela chuvinha fina e que não pára. Tempo ideal para ficar em casa, lendo, dormindo, estudando, ouvindo música, escrevendo, enfim, aquela atividade concentrada gostosa. Pois é, mas tive que ir ao centro do Rio resolver umas coisas. Passei pelo centro e depois pelo Largo do Machado e Catete, dois bairros intermediários entre o centro a zona sul carioca. Não tive coragem de fotografar, mas vi coisas, atravessei fronteiras.

O centro do Rio está muito degradado. E já foi tão agradável! Hoje é um festival de camelôs e camelódromos, por todo canto. Muita gente andando, muita. Naquele aperto da chuva, guarda-chuva em punho, uma primeira cena chamou minha atenção: um homem, um mendigo, cujos pés eram negros, e que olhei para conferir se era um sapato, mas não, eram os pés mesmo, ele estava descalso. As calças compridas cobriam parte dos pés, arrastavam no chão, mas deu para ver os dedos e as negras unhas, que eram como patas. Foi forte, pois não vi um pé, e sim outra coisa.

Depois, no Largo do Machado, vi pessoas pedindo dinheiro na rua. Uns andando, outros no chão. Vi um negro, um senhor, que abordou outro senhor, branco, bem limpo e vestido, que só conseguiu reagir fingindo que não havia ninguém falando com ele. Duro de ver. Prometi a mim mesma que não procederia da mesma forma (mas já devo ter feito isso algum dia). Depois, em frente a uma drogaria mega que tem aqui (tal de "vovó Pacheco"), um rapaz comendo um sanduíche sujo com uma mão bem suja, unhas sujas, e um outro dormindo, todo encolhido e maltrapilho, descalso. Logo à frente, quando atravessei a rua, um homem, mendigo, comendo um pedaço de pão e usando uma lata de lixo como "mesa". Surreal, e nojento.

Que tribo é esta, fiquei me perguntando. Como definir estes seres, estas pessoas, que tipo de gente é esta? Veio primeiro uma idéia de "animalidade", vivendo como animais, como se diz. Mas não, nem animal vive daquele jeito, ao menos que esteja muito mal-tratado. Estas pessoas estão mal-tratadas. Uma degradação, uma degeneração de padrões de civilização? Outro tipo de gente, outros trajes, estratégias de sobrevivência, hábitos, códigos - uma sociedade das ruas. Sei lá que nome dar a essas tribos e territórios. Mas fiquei entre assustada e perturbada com o que vi. Pensando agora: será que esse povo acredita em Deus? O que pensam sobre isso? A que falanges pertencem? Em volta de alguns, digo mesmo, havia seres não visíveis.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Madeirocídio 2


A matança continua. Na semana que passou, no Pará, começaram a aparecer indícios sobre a origem da madeira ilegal que as empresas madeireiras movimentam – e enterram. Novas toras de madeira foram encontradas em Tailândia da Floresta da Amazônia, desta vez enterradas sob um milharal. Novos “corpos” encontrados, num contínuo de acontecimentos que faz com toda situação beire ao bizarro. A quantidade de madeira ilegal apreendida já beira aos 20 mil metros cúbicos. Nem sei como contabilizar isso...

Gente, o negócio fede mesmo... que cheiro será este? De enxofre, diria um amigo que anda fazendo análises políticas repletas de referências bíblicas. De enxofre ou não, o “pixé”, como se diz por aqui sobre o mau cheiro, é forte.

O leitor que me desculpe, mas não consigo não ter nojo de tudo que tenho lido e ouvido. E não consigo me comover com a crise no mercado de trabalho que se abateu sobre Tailândia – era o dinheiro da matança de árvores que sustentava a cidade. Desculpem-me os “tailandenses da floresta da amazônia”: não esperem, por hora, qualquer solidariedade de minha parte. Estou mordida, fera ferida.
E o negócio é ardiloso, repleto de má intenções, acusações e de jogos de palavras – a que uma certa imprensa se arvora em reproduzir. E o correio da má notícia corre solto – e eu devo tomar cuidado para não participar dele.

O que se anda dizendo é que, assim como existem “sem terra”, existiriam os “sem tora”. As informações são meio confusas, mas a idéia é que grupos de posseiros, financiados por madeireiras e munidos de moto-serras, “invadem” áreas de floresta primária e passam a derrubar as árvores a serviço das madeireiras. Não entendi se ficam ou não depois na área, mas talvez sim – só que “sem tora”. São pagos para isso, ou pelas toras. O que quer dizer tudo isso?

Além de confusa, incomodei-me com esta associação inevitável entre “sem tora” e “sem terra”, estes do MST e que costumam sair na imprensa quando ocupam uma fazenda e reivindicam sua desapropriação para fins de reforma agrária. A notíca acima, divulgada num importante jornal paulista (FSP), insinuaria a cooptação de grupos de agricultores (posseiros) por empresas que trabalham na ilegalidade. Mas “sem tora”? Que agricultor se reúne para ocupar uma área visando as toras de madeira? Não consigo acreditar que em posseiros demandando “toras”, e sim terra.

Esta notícia dos “sem tora” veio em meio a uma outra, no mesmo jornal, acusando o Incra de ter criado uma série (mais de 100) assentamentos irregulares no Pará, sem licença ambiental, e suspeitos de esconderem por trás de si interesses madeireiros. Ou seja, cria-se assentamentos não por pressão dos agricultores sem terra (ou posseiros), mas das madeireiras sem tora. É isso: quem é “sem tora” são as madeireiras. Se alguma associação pode ser feita, é a da presença de um Movimento das Madeireiras Sem Tora, mas que, ao contrário do MST, não se declara enquanto tal e age corrompendo agentes do Estado. Como os posseiros entram aí? Certamente, acredito, manipulados, por ambos os lados, Estado e empresas. Ai, este balseiro parece ser dos grandes, cheio de pau pra gente se enganchar!