quinta-feira, 3 de julho de 2008

Alegria pura!

Hoje assisti o casamento de Maria Chacrona da Luz e Jagubino Mariri da Força - acreditam? Pois é, foi lá do Arraial Cultural que ocorre esses dias no estacionamento da Arena da Floresta (nome do estádio de futebol daqui da capital acreana).


O casamento, parte tradicional dos festejos juninos e também de um concurso de quadrilhas que tem todo ano, foi encenado pelos Apalquentados do Tangará, um grupo que por seis meses, no dito bairro do Tangará, ensaiou para a apresentação de hoje. O texto é de Cícero Farias e a direção, de Karla Martins. A coreografia, bom, não sei, mas merece aplausos também, assim como o figurino. Tratou-se - todo o conjunto: texto, dança, interpretação, vestuário - de uma sensível, poética e estética homenagem do Apalquentados aos grupos que fazem uso ritual da ayahuasca na cidade de Rio Branco.


Conversando com a Karla depois da apresentação, ela contou um pouco de como todo o processo aproximou as pessoas do grupo da realidade dos grupos ayahuasqueiros, que eles não conheciam, quer dizer, só de ouvir falar. No São João, ela contou, levou o grupo ao Alto Santo, para conhecer de perto; disse que todos gostaram muito, e que se admiraram com o bailado, o ambiente de respeito e a gentileza com que foram tratados. Foi uma descoberta para essas pessoas. Que esta iniciativa, tão bacana, possa sensibilizar positivamente também aqueles que assistiram a apresentação para o patrimônio cultural que só esta cidade tem.


Aprendi este ano, assistindo a um outro concurso de quadrilhas no Sesc, que toda apresentação comporta um enredo inicial, em torno de um casamento, e aí depois vem a festa, que é a apresentação coreográfica da dança da quadrilha. Surpreendi-me, não tanto com o fato da história de um casamento, e sim com a dança mesmo: é inacreditável o tanto que o povo, homens e mulheres, pulam e remexem-se para dançar a quadrilha, aquela que a gente dança quando menino e mais velho também, que tem "a grande roda", "olha a chuva", "a cobra!" - que coisa mais boa! Pois é, mas nunca tinha visto do jeito que tem aqui. Talvez tenha noutros cantos (no Nordeste?), mas eu desconhecia. Tem uma beleza de movimentos, mas, novamente a partir da experiência deste ano, saquei que as roupas, o tempo de apresentação e a criatividade da coreografia são fundamentais pra não ficar uma coisa enfadonha e quase monótona (mesmo com toda a pulação, sua repetição pode cansar).


Bom, mas estávamos no casamento do Jagubino e da Chacrona, uma união profetizada em mirações que os dois receberam. E aí tinha um padrinho e uma madrinha servindo "daime" para o povo da quadrilha (era igualzinho... o que será que era?), teve a Rainha da Floresta aparecendo em miração, fogos de artifício, bailado e maracá. Ah, gente, foi muito lindo. E aí a festa animada! Uma coreografia toda criativa, a turma da quadrilha esbanjando alegria, contagiava a gente! Criou-se um clima tão gostoso que quem é ayahuasqueiro fica logo achando que não podia ser diferente. E tudo com muito respeito e educação. Nas roupas dos homens, o sol, na das mulheres, uma pequena coroa, algumas fitas e lindas saias multicores. Um texto bem humorado o do Cícero, todo em cordel, daqueles que a gente fica seguindo as rimas e a história. Ao final da apresentação, que achei até curta (!), mandei uma mensagem para o celular da Karla: Já ganhou!!!

Só um porém: a bateria da minha máquina acabou logo no início da apresentação, e por isso não tenho fotos de todo o grupo dançando mesmo. Fiz três pequenos filminhos antes da máquina apagar, mas ainda não sei como se faz pra postar filmes. Vou aprender.

5 comentários:

Cris Moreno disse...

Sabes, e a antropologia está dentro do mundo, finalmente!

Maravilhoso o seu testemunho!

Beijos.
Bom final de semana.

karlota disse...

Mari...foi relamente contagiante apresentar o trabalho dos apalquentados para eles um mundo novo se abriu: Eles nunca haviam ido ao daime, sequer sabiam direito o que é, ficaram emocionados com os rituais e começaram a entender que a nossa identidade é muito grande, tem muitas nuances. Fico feliz que você e tantos outros amigos e irmãos das igrejas tem compartilhado este momento especial e ímpar das quadrilhas juninas do Acre.

Débora Almeida disse...

Ontem soube que a linda quadrilha do Tangará ficou em QUARTO lugar no festival. E sabe qual categoria puxou sua nota para baixo? ORIGINALIDADE! Há quem diga que originalidade vem de origem...
Com um texto primoroso do Cícero Farias, a turma dos Apalquentados nos trouxe um mix dessa religião "original" do Acre, com os festejos juninos!
Mas o objetivo foi cumprindo. Essa quadrilha colocou as cabeças para pensar, refletir sobre nossa cultura, romper paradigmas...
E na minha opinião, de uma forma muito original!

Mariana disse...

É isso aí, Dedé, viva a originalidade dos Apalquentados!!!

Athaydes disse...

Beeem Legal !!
Queria ter assistido...muito original..bom, pelo teu relato Mari, me transportei pra la! Bem que o grupo podia, no ano que vem, se transportar pra ca, cruzeiro do sul e se apresentar aqui !!!
Grande abraço!
Saudades tuas
Athaydes