terça-feira, 8 de julho de 2008

Ainda a florestania


Uma vez, após uma longa caminhada pela mata e pelo rio, arrastando canoa pois era verão, Toinho Alves e seus companheiros chegaram a uma colocação de centro. Logo se arrumaram para dormir, estavam todos muito cansados. Com certeza comeram algo antes de deitarem em suas redes. Naquele estágio antes do sono chegar, quando o pensamento vai embaralhando e fica-se entre acordado e adormecido, Toinho percebeu que seu raio de percepção do entorno ampliara-se sensivelmente: escutava os sons da mata, dos animais num raio de aproximadamente 50 metros e, ao ouví-los, podia visualizá-los, ou imaginá-los. Realizou que sua mente não era só aquilo que costumeiramente se define como pensamentos, e que parecem residir dentro da cabeça da gente, no cérebro, e sim que sua mente correspondia aquilo do qual tinha percepção sensível. Num instante, que durou segundos, as linhas demarcatórias entre mente e matéria se diluíram. A consciência e o corpo eram um só.

"Tudo é um", já dizia Heráclito, lembrou-nos Toinho, na conversa que tivemos na noite passada na UFAC. O convidei para um encontro com a minha turma de Sociedade e Meio Ambiente (5o. período de Ciências Sociais). Neste curso estamos fazendo uma incursão - todos nós, professora e alunos - no tema das relações entre cultura e natureza, entre humanidade e animalidade, tentando borrar um pouco estas fronteiras tão paradigmáticas do pensamento ocidental. Temos nos valido basicamente de literatura antropológica, e já passamos por "clássicos" como Marcel Mauss e Evans-Pritchard, por outros mais contemporâneos como Philippe Descola, Tim Ingold e Eduardo Viveiros de Castro, e estamos agora na última parte do curso, aprofundando o estudo de propostas ou visões que apontem para outras cosmovisões. Pois bem, achei que o Toinho e a idéia de "florestania" poderiam colaborar com nossos estudos.

A florestania, diz Toinho, mais do que uma idéia, deve ser um sentimento; está no plano mental-corporal; é algo que se sabe porque se sente. Sim, mas é o quê este sentimento? Entendi que tem a ver com o que somos.

Toinho diz que estamos hoje pressionados por basicamente duas ocorrências simultâneas que a seu ver são apenas uma: uma revolução natural (que vem na esteira das mudanças climáticas e aquecimento global) e um tsunami social (irrupções sociais, guerras, selvageria urbana, crises de valores). Esta separação analítica que fazemos entre eventos naturais e sociais é, num certo sentido, falsa. Podemos, por exemplo, lembrou-nos o palestrante, vislumbrar suas raízes na mitologia ocidental do livro do Gênesis, um mito fundador. Lá estavam Adão e Eva e todos os seres viventes, convivendo em harmonia, sem diferenças, sem conflitos. Havia apenas uma interdição: o fruto a árvore do conhecimento. Por que interditada?

Bom, o que aconteceu lá no Paraíso mostrou que provar desta fruta foi instaurar a dualidade no mundo: bem e mal, cultura e natureza, homem e animal, vestido e nú, superior e inferior. E, observe-se, o nosso antropocentrismo e etnocentrismo permite relacionar estas oposições de forma respectiva: bem/cultura/homem/vestido/superior versus mal/natureza/animal/nú/inferior, e por aí vai. Na história dos descobrimentos, por exemplo, o homem "civilizado" europeu considerava-se superior aos "selvagens" do Novo Mundo, enxergados como "seres naturais", ou seja, sem cultura ou mesmo condição de humanidade (têm alma?, era uma pergunta da época). Era preciso civilizar estas pessoas, tirá-las da natureza e introduzí-las na cultura (roupas, religião etc). Todos sabemos os resultados catastróficos desse projeto civilizador...

Para tentar fugir deste modelo de pensamento, Toinho propôs a imagem de icebergs: todos nós somos um, cuja ponta visível é o que achamos que somos, como nos apresentamos no mundo, nossa racionalidade e emoções mais conscientes. A medida que vamos descendo, dimensões insondáveis do nosso ser podem ir se revelando, inconscientes, ancestrais, pré-históricas, e muito dificilmente teremos acesso a todo este universo. Mas isso tudo está lá, nos constituindo. Somos muito mais do que sequer imaginamos, e este "muito mais" inclui o que costumamos colocar em planos separados de nós mesmos. Ou seja, somos não só humanos (natural e culturalmente falando), mas também animais, vegetais, minerais, universais, cósmicos. A florestania, neste sentido, seria como uma rede cujos pontos estão linkados e novas conexões podem sempre ser estabelecidas. Tudo é um.

A florestania, disse Toinho, é um sentimento de mundo, a formação da nossa alma. A florestania está associada à floresta, que é o meio em que vivemos aqui no Acre (ou na Amazônia) e que nos constitui, quer queiramos ou não (para aqueles que acham a "selva" um símbolo de "atraso"), quer saibamos ou não. Esta floresta não é só, claro, árvores, animais, rios etc (embora o seja também), comporta também as populações humanas e suas histórias de constituição, contato, confronto. A florestania é uma singularidade multidimensional.

Este termo foi cunhado num contexto de disputas políticas, quando o PT sonhava em governar o Acre, e discutia-se o modelo de desenvolvimento possível para o estado. Toinho contou-nos um pouco das resistências que o termo enfrentou dentro do partido, que relutava em empunhar a bandeira da conservação como uma das bases para o desenvolvimento do Acre. Acabou adotando-o, mas o fez descaracterizando-o ao associá-lo à noção de cidadania. Se a florestania é uma singularidade (pois que assentada no direito à diferença), a cidadania já fala em direitos universais, uniformes, iguais para todos. A cidadania enquadra a existência, digamos assim, e a florestania quer a liberdade da existência. A cidadania é para os humanos, a florestania visa também os não-humanos. A florestania pode chegar a divergir da cidadania quando esta impõe soluções prontas para situações ou realidades em movimento.

Pra finalizar, a florestania é um termo em movimento, como não poderia deixar de ser. Outros já escreveram sobre ele, e sugiro aqui a leitura de um belo e curto texto de Mauro Almeida (clique aqui). Pretendi apenas registrar e socializar a boa conversa que tivemos ontem à noite, e que pode interessar ao leitor ou leitora que passe por aqui. E ainda colaborar com o trabalho do Tissiano Silveira, meu orientando de monografia na UFAC, a quem dedico esta postagem.

4 comentários:

Ricardo Soares disse...

aprendi mais sobre o acre aqui nesse blog... parabens

Daniel Klein disse...

Professora Mariana,

Bom, já vi o Toinho falar do termo florestania. Numa aula que tive já há algum tempo lá no curso de História, vi um professor dizendo que a florestania era a cidadania da floresta - em certo sentido você aponta esse sentido em seu texto. Bom, o quê há de diferente no termo do Toinho e nessa segunda interpretação? Acho que quando o Toinho fala sobre florestania usa um conceito dialeticamente constituído, possivel de ser modificado pela complexidade real dos Acres, das amazonias, dos mundos em que vivemos. Escrevo esse post para externar uma crítica: de que o governo se apropriou do termo para justificar uma certa ideologia de poder - logicamente que todos sabemos disso, o problema é que as críticas mistificam um termo, que em sua origem, não tem nada que se relacione com um sustentáculo ideologico. No mais é isso.

Abraços, Daniel da Silva Klein.
Historiador do quadro permanente do Departamento de Patrimônio Histórico do Acre.
danielklein10@hotmail.com

Mapinguari disse...

Acredito que o termo é uma condição de imobilização ao indivíduo enquanto agente do real. Ele coletiviza, unifica sob um véu de ideologia o que é diverso. é um termo capitalista, uma corda, isso não é perspectivismo, apesar de muito esforço para compará-lo, é abertura do Acre para o capital e ferro estrageiro, é um analgésico que nos cala a boca, é um erro, uma agressão contra a consciência indígena tratar de um tal sentimento e transplantá-lo para os brancos. Em resposta preparo um artigo sobre,

abraços professora

marcio

Mariana disse...

Márcio, a apropriação política-governamental do termo é isso mesmo; mas acho que florestania pode ser uma coisa muito mais rica, e neste sentido estou com o Mauro Almeida e com o Toinho. Aguardo seu artigo!