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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Santos Reis

"Os três Reis do Oriente, que visitaram Jesus..."

Viva os Santos Reis! Que eles possam nos presentear, nos levando a visitar o Jesus que habita em cada um de nós.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Saramago para o Novo Ano

A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.
*
Fugir da morte pode tornar-se uma forma de fugir da vida.
*
O homem é o único animal capaz de chorar. E de sorrir. É diante do mar que o riso e a lágrima assumem uma importância absoluta. Dir-se-á que mais profundamente a assumiriam diante do universo, mas este, digo eu, está demasiadamente longe, fora do alcance de uma compreensão comum. O mar é o universo dentro de nós.
*
Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nasceu!

Depois de uma notícia triste que ficou aqui no blog por um bom tempo ("Luto"), a vida se manifesta novamente, aliás, sempre.

Passados 20 anos de sua criação, e dez anos da promulgação do SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), no último dia 29 de abril foi criado o Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista do Alto Juruá, a primeira do Brasil e do mundo. A notícia merece aplausos. Não que, a meu ver, a estrutura de Conselhos Deliberativos, instituída pelo SNUC, seja adequada, tenho sérias dúvidas com relação a isso. Mas os louvores devem-se mais a forma como a coisa foi sendo articulada e feita ao longo do último ano, quando começaram os trabalhos de elaboração do Plano de Manejo da Reserva, agora na reta final.

A Reserva e sua Associação, para ser bem direta, entrou o século XXI "ladeira abaixo". Maior baixo astral, maior desmobilização, política partidária pelo meio, corrupção, presidente preso, a moral lá embaixo. Na Reserva, aquele clima de "tragédia dos comuns", desamparo e revolta. Dava aquela sensação de crise total. Mas, lição meio difícil, a crise pode ser produtiva, ela pode ser geradora de soluções inusitadas e criativas. Sempre há os resistentes, os esperançosos, os inventivos. E alternativas começaram a aparecer: comunidades resistindo a invasão de seus territórios, moradores partindo para o plantio de sistemas agroflorestais e recusando o gado, grupos resgatando sua ascendência étnica e querendo seu próprio território.

Enfim, no meio disso tudo sai o edital do Plano de Manejo. O Augusto Postigo, praticamente um doutor pela UNICAMP (defende agora dia 26), candidatou-se. O candidato ideal: mais de uma década de pesquisa na área, envolvimento com as comunidades, conhecimento de causa e compromisso, além de ser parte de uma equipe maior coordenada pelo nosso professor e orientador Mauro Almeida. Mas não é que a candidatura do Augusto não chegou às mãos do ICMBio! Mais uma peça que nos pregou "o sistema". Augusto insiste, sofre, mas consegue provar que tinha enviado a candidatura no prazo e faz valer o seu direito de concorrer. Não ficou (inexplicavelmente) em primeiro lugar, mas a Justiça de Deus não falta e o(a) ganhador(a) desistiu.

Roxo e Roberto, convocados por Augusto para "botar a mão na massa"!

Augusto foi convocado e, junto com Roberto Rezende (também UNICAMP e quase-mestre) e o Roxo (Antonio Barbosa de Melo, seringueiro-pesquisador merecedor de honoris causa) - ambos na foto acima -, montaram uma proposta arrojada, de ampla consulta as comunidades da Reserva. Levaram a sério a idéia de que o Plano deve ser "participativo". O povo do ICMBio xiou, tudo parecia meio heterodoxo demais, o processo, os itens orçamentários, mas, com muito malabarismos para liberação dos recursos e cumprimento da burocracia, atrasos de cronograma, o planejamento dos nossos valentes guerreiros foi aprovado. Tudo começou então em meados do ano passado, e até o momento, em duas etapas, cerca de 160 reuniões comunitárias foram realizadas em toda a Reserva, sendo seus principais facilitadores os monitores socioambientais da Reserva: moradores que vem trabalhando em pesquisa colaborativa com pesquisadores acadêmicos há vários anos, alguns deles há quase duas décadas.

Na reunião de criação do Conselho Deliberativo, Augusto fez uma exposição sobre o Plano de Manejo aos conselheiros empossados.

Neste meio tempo (abril do ano passado) a Associação da Reserva, também por uma criativa iniciativa local, realizou eleições e elegeu nova diretoria. Foi uma eleição cheia de polêmicas, como pude inclusive tratar aqui neste blog naquela ocasião. Mas a nova diretoria foi empossada, e chamada a participar do processo do Plano de Manejo. E agora, já neste ano, por outro lado, depois de anos e anos de dificuldades de gestão, foi empossado como gestor da Reserva pelo ICMBio um nome novo (no orgão e na região, mas não na experiência com o assunto), o Urbano Silva Jr. Ah, nada como sangue novo no pedaço, e sangue bom!

Taí o Urbano facilitando a 1a. reunião do Conselho Deliberativo!

Esta conjunção astral favorável resultou num Conselho Deliberativo eleito, os representantes comunitários indicados pelos moradores entre aqueles que já estavam colaborando com o Plano de Manejo nas reuniões e assembléias, e não estavam já em cargos eletivos (das Associações que já existem). Então deu um formato interessante. Gente nova e gente antiga, veteranos, com e sem experiência nesses afazeres institucionais.

"Foto oficial" do Conselho Deliberativo da Reserva!

Bom, o Conselho tem 23 membros, sendo 12 comunitários e 11 representantes de instituições relevantes no município em que a Reserva incide (Prefeitura, PF, Asareaj, Sema, Conselho Municipal, de Meio Ambiente, Exército, Ufac, STR, Seaprof, Yorenka Antame, ICMBio), cabendo a este último a coordenação. De acordo com o Regimento Interno aprovado, decidiu-se que o ICMBio não votará necessariamente nas deliberações, a não ser em casos de empate, o famoso "voto de Minerva". A reunião foi realizada na Câmara dos Vereadores, durou todo o dia, começando as 8:30 e fechando as 17 horas, com intervalo para almoço. Dou estes detalhes porque merece elogio a capacidade que o Urbano demonstrou em começar e encerrar os trabalhos no horário previsto, cumprindo toda a pauta e sem atropelar ninguém. Foi uma reunião produtiva, cheia de conteúdo, a altura do momento e da Reserva.

Vamos ver agora como vai ser este funcionamento e gestão compartilhada, num fórum que junta tanta gente diferente e que parece inverter um pouco a idéia inicial de criação da Reserva: a autonomia das populações na gestão do seu território. Mas vamos dar uma chance à experiência - ela deve ser soberana as nossas espectativas e especulações.

domingo, 1 de março de 2009

Fim de tarde continua

A empolgação do fim do dia continuou, e das brincadeiras caímos numa trilha sonora, uma música do Gonzaguinha que gosto muito, em particular da letra. Como o bom humor reinava, a música também foi por ele contaminada e ganhou quase uma nova interpretação. Momentos íntimos em família, enfim.

Inaugurando a fase filminhos aqui no blog, posto então mais um:

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Feliz Natal

Germinam os desejos da alma,
crescem os atos da vontade,

maturam os frutos da vida.

Eu sinto meu destino,
meu destino me encontra.
Eu sinto minha estrela, minha estrela me encontra.
Eu sinto meus objetivos,
meus objetivos me encontram.

Minha alma e o mundo são um só.


A vida, ela se torna mais clara ao redor de mim,
a vida, ela se torna mais árdua para mim,
a vida, ela se torna mais rica em mim.

Busque a paz,
viva em paz,
ame a paz.

(Dança da Paz, Rudolf Steiner)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Uma assembléia no tempo IV

O dia seguinte foi aberto com a apresentação das chapas concorrentes e um discurso de cada um dos candidatos, que não assisti pois me atrasei na casa do meu afitrião na foz do Tejo. Quando cheguei ao local da assembléia, a votação fora iniciada. Na escola, de longe, via uma aglomeração absurda de gente, como se todos quisessem votar ao mesmo tempo. Um sol de chuva brilhava e queimava. Não estava muito fácil. O calor era grande. Soube que estava levando muito tempo para que os mesários da eleição encontrassem o nome do eleitor na lista assinada no dia anterior, já que esta não estava em ordem alfabética. O pessoal do BIS, que desde o dia anterior estava ali e ajudara na fila da alimentação, tentava apoiar a organização da muvuca da votação. Não me atrevi a chegar perto.

Logo soube que se decidira mudar o processo: ao invés de procurar o nome das pessoas na lista, os eleitores iriam ser chamados a votar, pelo microfone. E assim o processo reiniciou. Mas a multidão não arredava o pé e a concentração de gente na entrada da sala de votação permanceu. Uma lógica interessante: ao invés de procurar um lugar para se sentar e aguardar seu nome, a maior parte das pessoas queria era ficar ali mesmo, embora apertadas e sem lugar para sentar. O pessoal do BIS continuava no apoio, tentando organizar aquele povo que relutava em ser enfileirado. Bravos rapazes os do BIS, pelo menos vi o Exército servindo o povo naquela foz do Tejo!

Surgiu então um assunto que deu muito o que falar: havia uma solicitação de que a lista de assinaturas para eleitores fosse mais um vez reaberta para os retardatários que chegavam para votar. Isso foi motivo de opiniões contrárias entre os partidários de uma e outra chapa, mas os dois candidatos a presidente acabaram concordando em que a lista fosse reaberta até o meio-dia. Esta autorização foi motivo de crítica dos partidários de Zé Augusto até muito depois de terminada as eleições. Diziam: fora por meio daquele expediente que muitos moradores da vila Thaumaturgo conseguiram votar, mesmo sem residir na Reserva.

O fato é que no domingo a foz do Tejo bombou. Encheu mesmo, muita gente da vila, gente que veio para vender coisas (lanches, refrigerantes, churrasquinhos) e também para passear, e sem dúvida para tentar votar. Não saberia dizer quantos acabaram fazendo-o e nem como conseguiram, já que os mesários supostamente conheciam quem era ou não morador da Reserva. Conversei pelo menos com um atual morador da vila, ex-morador da Reserva mas que tem nesta toda a sua família (pai e irmãos) e que foi impedido de votar. Mas ouvi outros casos onde esta negativa não teria ocorrido. Tem uma ambiguidade aí, pois muitos desses “moradores da vila” (mas não todos) são ex-moradores da Reserva, alguns inclusive mantendo uma casa na vila e outra na Reserva, ou ao menos um roçado ou seu gado, por exemplo. Onde afinal mora esta pessoa? Os estatutos são omissos sobre casos assim, que por sua vez atingem mais aquelas pessoas que moravam perto da vila, e não as dos altos rios.

Por falar em estatutos, gostaria de assinalar que o vice-prefeito eleito, o sr. Maurício Praxedes, permaneceu o sábado e domingo na foz do Tejo, conversando com seu candidato (Domingos), partidários e os que o procuravam. Na foto acima ele conversava com a equipe do BIS. Enfim, esteve bastante ativo durante todo o tempo, mesmo porque, como ele mesmo disse na sua fala de abertura, era um eleitor. Como assim? Pois é, boa pergunta. O fato é que modificações nos estatutos foram realizadas durante os últimos anos, sob o comando de Orleir Fortunato, e nas quais Maurício Praxedes era uma pessoa-chave, controlando o funcionamento da cooperativa. Entre essas mudanças esteve a de permitir que pessoas que prestassem relevantes serviços a Reserva ou a Associação (não sei bem a redação pois este último estatutos, que mais deve parecer uma colcha remendada, nunca chegou as minhas mãos) pudessem votar. Quem será que defendeu uma coisa destas? Pessoas de fora, ou que não são seringueiros ou agricultores, votando numa associação de representação justamente dessas categorias? Acho sinceramente um absurdo este tipo de coisa, um abuso. E caberia ainda perguntar que relevantes serviços são estes já que a Associação encontrava-se sem nem um palito de fósforo próprio?! Quem está no meio de movimento de trabalhadores sem o ser, ou é para apoiar na coadjuvância, ou está querendo tomar a direção da coisa.

E assim a coisa foi indo. Até que caiu a maior chuva, e a lama ficou boa mesmo – pra escorregar! Enquanto isso o almoço saiu, muito tumultuado, segundo relatos, e as eleições não pararam, chamando nome de eleitores a todo momento. Neste meio tempo, inventaram de despachar o combustível para os sócios, e aí a confusão ficou boa e uma fila só conseguiu ser minimamente organizada com a presença a autoridade da Polícia Federal. Muitos reclamavam que o despacho de combustível contemplara moradroes da vila, ou fora feito de forma inadequada, contemplando com muita gasolina quem mora perto e com pouca quem mora longe. Enfim, gasolina, diesel, esses assuntos, são danados pra dar confusão.

Ainda fiquei ali pela foz do Tejo até o final do dia, conversando com velhos amigos e amigas que a todo momento encontrava. Tanta gente boa! Encontrei, por exemplo, com o sr. Iraçu, o primeiro sócio da Associação, como ele mesmo lembrou, ainda nos tempos do Macedo e do Mauro Almeida, como ele também fez questão de assinalar. Emocionou-se dizendo do quão bons eram aqueles tempos, e mandou um abraço para os dois amigos dos quais não esquece.

E muitos representantes dos povos moradores das Terras Indígenas vizinhas a Reserva também se fizeram presentes - uma presença que foi tão marcante nos primeiros tempos da Reserva e que nos últimos dez anos tinha desaparecido. Pois nesta assembléia fizeram-se presentes, inclusive membros de uma aldeia Kaxinawá que está instalada dentro da Reserva, no rio Breu, sem que isso esteja significando qualquer tipo de conflito com os "brancos".

Mais tarde, já na casa do Nonatinho e da Maria, onde também estavam hospedadas outras pessoas, como a vibrante e conversadora-sem-papas-na-língua dona Zefa, irmã da dona Nazaré de quem já falei, e outras pessoas do Bagé, vimos nosso anfitrião, que justamente fazia aniversário naquele dia, entrar chorando em casa e se enfiar dentro do quarto. Logo ele saiu e anunciou que Zé Augusto perdera por 11 votos. Estava inconformado, repetia a todo momento que toda culpa fora da reabertura da lista de votantes naquele domingo. Logo outras pessoas chegaram, todas incorformadas e dizendo que no local da assembléia estava uma tristeza só por parte dos eleitores do Zé Augusto. Mas era aniversário do Nonatinho, e mais tarde não resistimos e cantamos – todos os hóspedes e família – um parabéns bem animado para o nosso anfitrião aniversariante.

Quanto ao Zé Augusto, este só fui ver no dia seguinte, ainda com a mesma roupa do dia anterior e preocupado com o combustível para os sócios voltarem para casa. Seu ânimo não estava comprometido. Disse: “é isso aí, vamos em frente”. É, ficar parado é que não dá. Mas o que será que aconteceu? Votos da vila explicam a derrota, que foi tão apertada? Domingos com 478 votos e Zé Augusto com 467 (mais 12 nulos, totalizando 957 votos). Fiquei pensando se não houvera uma transferência de votos das eleições municipais, ou seja, se muitos dos eleitores do PMDB não teriam transferido seus votos para Domingos nas eleições da Asareaj. Não sei. Será que o Zé Augusto ficou identificado com uma candidatura do PT? Não sei, talvez não, pois se este fosse o caso acho que a diferença teria sido maior entre ele e Domingos. Afinal, foram só 11 votos...

Pegamos – Terri, eu e Eliza, esta debutando na região – uma carona de canoa para voltar para vila e cruzamos com o batelão do fazendeiro Otávio, soltando rojão em comemoração pela vitória de Domingos, imaginamos. Ele, assim como outros, como o sr. Antonio Vieira, associaram-se e votaram nas eleições. Como isso foi possível? Quem os associou? Sua felicidade pela vitória de Domingos não deixava muitas dúvidas sobre isso.

Em Marechal Thaumaturgo, antes de voltar para casa, ainda presenciei uma movimentação ferrenha por parte dos moradores do Bagé, que desceram todos da foz do Tejo para a vila. Estavam inconformados com o resultado das eleições, e com a situação de desrespeito na Reserva. Pela diretoria eleita não nutriam qualquer esperança de mudança. Ainda no mesmo dia veio a notícia de que algumas irregularidades haviam sido identificadas nas eleições da Asareaj: o candidato eleito seria beneficiário do Projeto de Assentamento do Amônia, portanto um assentado; a presença de um número maior de votos do que de eleitores que assinaram a lista; o fato de fazendeiros terem votado. Começou a se formar um movimento daqueles que queriam a impugnação das eleições. Não sei bem como ficou, pois viajei sabendo que estava sendo organizado um abaixo-assinado. A semana passada, por telefone, soube que a ata da assembléia misteriosamente ainda não teria sido registrada. Mas que Domingos estaria em Cruzeiro do Sul, “apoiado por dois advogados” e disposto a brigar na Justiça por sua vitória.

Enfim, aí já estamos no campo da chamada rádio-cipó. Aguardemos os próximos capítulos desta trama, que parece que ainda vai longe...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Uma assembléia no tempo III

Marcada para os dias 25 e 26 de outubro, a assembléia só foi realmente aberta na parte da tarde do primeiro dia. Toda a manhã fora dedicada a cadastrar os sócios-eleitores que chegavam à foz do Tejo, local da assembléia. Esta foi a medida adotada para tentar evitar que não-sócios conseguissem votar nas eleições para presidente da Associação, como ocorreu, segundo relatos, nas últimas assembléias e teriam ajudado a garantir as sucessivas reeleições de Orleir Fortunato. Por “não-sócios” refiro-me aqui aos “moradores da vila”, como são conhecidos os habitantes da sede municipal, distante a menos de uma hora da foz do Tejo. Como se comprovou, a medida não foi de todo descabida, embora também não de todo eficaz.

Apesar do desaparecimento da sala de reuniões, hospedaria e refeitório da Associação – que um colaborador da diretoria que encerrava o mandato convenientemente atribuía ao fato do barranco estar “quebrando” e a roubos praticados por desconhecidos – ou seja, apesar da precariedade das instalações disponíveis, o grupo que, junto com Zé Augusto, organizara a assembléia, o tempo todo defendera que a assembléia devia ocorrer mesmo que “no tempo”, isto é, ao ar livre. A situação em que a Associação realizava sua assembléia espelhava nada mais, nada menos do que a situação real em que se encontrava.

A Prefeitura (do PT) concordara em mandar construir uma estrutura de casa coberta de lona plástica (esta paga com recursos da assembléia), como se vê na foto acima. O chão, contudo, não foi nivelado; era de capim, roçado contudo. A cozinha funcionou na antiga casa de um morador, já desabitada e convertida em sala de aula no período escolar. Na escola propriamente dita funcionou o local de votação. Assim, espaços públicos cobertos eram dois: o da casa de lona, onde ocorreram as atividades do primeiro dia, e a escola.

Para comer, era entrar na fila, pegar o prato e arrumar um canto para se sentar; bancos haviam uns poucos, mas algumas toras de madeira foram convertidas em assentos. Para dormir, a casa de lona foi usada, assim como de moradores da localidade e das proximidades (dentro do rio Tejo, por exemplo); um batelão da prefeitura também foi cedido para as pessoas passarem a rede, assim como o do sr. Otávio, um fazendeiro residente na foz do Caipora, dentro dos limites da Reserva. Assim, a maior parte do espaço ocupado pelos participantes era ao ar livre, sob sol e chuva – tal como profetizado, no tempo.

Após o almoço, que mesmo com pratos insuficientes ocorreu com relativa tranquilidade, foi aberta a assembléia. Não sei dizer quantos participantes encontravam-se naquele momento na foz do Tejo, mas já passávamos dos 400, com certeza. O presidente em exercício, o sr. Evandro Lima Firmino, foi o primeiro a discursar, agradecendo a todos pela presença mas sem dar qualquer esclarecimento sobre a situação da Associação que estava entregando a diretoria a ser eleita. Em seguida, já sob o comando da Mesa Coordenadora dos trabalhos, presidida pelo STR, vários falaram: Benki Pianko(Apiwtxa/Yorenka Ãtame), eu mesma, Adalberto Iannuzzi (ICMBio/Ibama, de Rio Branco), Terri Aquino, Erisberto (vereador encerrando mandato pelo PT e candidato a vice na chapa de Zé Augusto), Maurício Praxedes (verador encerrando mandato pelo PMDB, vice-prefeito eleito pelo mesmo partido e assessor das últimas diretorias da Associação), João (presidente do STR), entre outros.

Já durante a primeira fala, de Benki, a chuva caiu, e forte. Foi interessante, porque criou uma situação de efetiva reunião de todos ali de baixo daquela casa de lona. Não dava para sair dali, e o jeito era ficar bem juntinho. O barulho da chuva na lona era forte, mas o microfone também falava alto, e ali ficamos todos até o final desta abertura mais formal. Ao final de algum tempo de chuva, muitos já estavam com os pés dentro d’água. Mas havia uma predisposição e boa vontade de quem estava ali, isto era visível. Com toda aquela precariedade material, as pessoas estavam interessadas no futuro da Reserva e de sua Associação. Foi mesmo comovente observar isso, mas, mais do que isto, foi gratificante: depois de tantos anos de Reserva, era possível perceber uma maturidade em muitas falas.

Da parte dos convidados, gostaria de registrar aqui a fala do representante estadual do ICMBio/Ibama, que assumiu publicamente a ausência da instituição da área, desculpou-se como pôde explicando a reestruturação pela qual passara o órgão, e, principalmente, comprometendo-se a novamente marcar presença na Reserva. Este ano, assegurou, já haverão algumas reuniões comunitárias visando marcar este tempo de retorno. Este foi um fato relevante, e que merece apoio e monitoramento.

Terminadas as falas dos convidados, o microfone foi aberto para quem desejasse se pronunciar. Várias foram as falas: de dona Nazaré, com seus 80 anos de vida no alto rio Bagé, uma veterana das assembléias da Associação, sempre na primeira fila, assistindo a tudo do primeiro ao último dia; o sr. Sebastião Estêvão, outro veterano dos tempos em que Macedo começou a andar na área; dona Maritô, valente moradora do rio Amônia, dedicada a buscar os direitos daqueles que se acham ameaçados pela criação de uma Terra Indígena naquele rio; Valmar Calixto, da família dos Cunha, compositor e cantor; Toinho Grajaú, do rio Bagé; um morador do rio Caipora, que valentemente denunciou a ação do fazendeiro das imediações amedrontando os moradores; João Gonzaga, seringueiro, poeta e artista, morador da colocação Solidão, no alto rio Bagé, entre outros. O renascer da Reserva era uma imagem constante nessas falas, algumas defendendo um ou outro candidato a presidente da Associação.

Assim encerrou-se o primeiro dia. Minha impressão era que tudo corria bem, e acho que não estava de todo errada. Claro que o pessoal da cozinha e de apoio trabalhava de forma redobrada para dar conta do volume de pessoas que só crescia. Previa-se uma insuficiência de combustível. A lista de cadastramento de sócios-votantes teve que funcionar até as 17 horas dada a chegada a todo instante de moradores da Reserva. A lama tornava o deslocamento dos participantes pelo local bastante desconfortável. Mas o clima era tranquilo, não havia animosidade no ar. Neste dia houve mesmo cantoria, e a dupla João Gonzaga e Joãozinho mais uma vez brindou a todos com suas canções e interpretações.

Para mim, a previsão de vitória nas eleições era imprevisível. Ouvi opiniões contraditórias todo o tempo: “Zé Augusto vai ganhar”, “Domingos vai ganhar”. A disputa era grande, estava claro.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Uma assembléia no tempo II

Claro que Zé Augusto não é aquele mocinho que faz tudo sozinho e vence os bandidos. Primeiro porque ele não esteve sozinho: pôde contar com o apoio inestimável do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) de Marechal Thaumaturgo, liderado pelo combativo João Lima (seu irmão), e, principalmente, das comunidades de seringueiros e agricultores que visitou e que se uniram a ele na empreitada de retomar as rédeas da situação da Asareaj e da Reserva. Talvez não tenha ficado claro na última postagem, mas a Reserva encontrava-se numa situação de desgoverno. Não só pelo destino trágico da Asareaj – com seu presidente na cadeia, seu escritório de Cruzeiro do Sul fechado e sua estrutura na foz do Tejo totalmente destruída (na foto abaixo, restos arqueológicos do que um dia já foi um salão de reunião) – mas principalmente porque nos últimos anos todo o esforço de gestão participativa da Reserva foi colocado de escanteio, ou mesmo desestimulado.

Acabaram-se as reuniões comunitárias e as assembléias nas quais os sócios discutiam seus problemas e as soluções possíveis, planejando o futuro almejado. Práticas ilegais tornaram-se correntes, como a caçada com cachorros (“está liberta”, como vários moradores resumiam a situação), os desmatamentos na beira do rio, as pastagens (em especial no rio Juruá, mas não só) para gado que ultrapassam os limites permitidos pelo Plano de Utilização. Mesmo casos de retirada de madeira, na forma, por exemplo, de casas construídas na sede do Município por ex-moradores da Reserva ou de canoas para venda, passaram a ser relatados. Os antigos fiscais colaboradores, atuais Agentes Ambientais Voluntários, sentiam-se sem condições de trabalhar, principalmente pela não atuação complementar do Ibama, que da Reserva andava sumido há muito tempo. Assim, o Plano de Utilização, que pode ser descrito como a Constituição da Reserva, na qual estão gravadas suas leis mais fundamentais, parecia estar se tornando letra morta. Felizmente, para o desespero de muitos. Foi justamente este inconformismo que permitiu que a iniciativa de Zé Augusto, morador da foz do Bagé e com alguma experiência anterior na Asareaj, encontrasse terreno fértil.

No primeiro semestre deste ano, com apoio do STR, Zé Augusto percorreu, se não estou errada, 27 ou 28 comunidades da Reserva realizando reuniões comunitárias, todas elas com lista de presença e ata. Dessas reuniões emergia uma reivindicação: assembléia geral para eleição de nova diretoria da Asareaj. Foi com essas atas em mãos que, em agosto deste ano, Zé Augusto procurou antigos parceiros da Reserva: a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI), o Projeto de Pesquisa e Monitoramento e os Ashaninka do rio Amônea (estes institucionalizados na associação Apiwtxa e coordenando o Centro de Formação Yorenka Ãtame). Estes três parceiros – uma ONG, um programa de pesquisas colaborativas e uma organização indígena – estavam naquele momento, com recursos do Programa Arpa/Funbio, dando início a atividades focadas na gestão territorial da região do Alto Juruá. O apoio a demanda popular da qual Zé Augusto era portador foi conjuntamente avaliado como pertinente num contexto de necessário fortalecimento das organizações locais. Nesta mesma época, Zé Augusto, lograra viajar até Rio Branco e manter contato direto com o escritório do ICMBio/Ibama na capital acreana.
Em setembro do mesmo ano, em oficina realizada no Yorenka Ãtame, Zé Augusto compareceu com alguns representantes comunitários e o assunto foi novamente debatido. O presidente em exercício da Asareaj, o sr. Evandro, acabara de concordar em assinar um edital convocando uma assembléia geral para o dia 25 e 26 de outubro próximo. De repente o tempo ficou curto e a assembléia já estava no horizonte. Nesta conjuntura, dois fatos devem receber nossa atenção: candidaturas concorrentes começaram a pipocar pela Reserva, mas foram sendo localmente articuladas no esforço de uma chapa única encabeçada por Zé Augusto. Contudo, um candidato permaneceu independente. Conhecido por Domingos, este candidato a presidente da Asareaj, que já fora seringueiro no alto rio Machadinho (onde o conheci nos idos de 1994), tinha seus próprios apoios. Segundo relatos, entre seus apoiadores estaria o candidato a vice-prefeito pelo PMDB. O segundo fato a ser destacado é que justamente na semana seguinte o PT perderia a Prefeitura de Marechal Thaumaturgo para o PMDB.

Enquanto a política local esquentava, primeiro com as eleições municipais e, em seguida, com a proximidade da assembléia da Asareaj (já sendo divulgada no rádio), um esforço coletivo foi empreendido a partir de orçamento preparado por Zé Augusto e o sr. Antonio de Paula, ex-presidente da Asareaj e experimente em assembléias. Calculou-se que 400 sócios se fariam presentes. Ao final, quase na última hora, com a colaboração da CPI (pagamento de serviços locais, como cozinheiras), da Apiwtxa (combustível), do Gabinete do governador do Acre (combustível), do gabinete do deputado estadual Edvaldo Magalhães (combustível), da Rainforest Concern (combustível, alimentação), Prefeitura (infra-estrutura), Exército e Polícia Federal (segurança) e a doação de dois bois (pelo sr. Evandro e outra pessoa), alcançaram-se os recursos necessários a realização do evento. Observe-se que todo este trabalho não contou com o interesse ou participação do candidato que concorria com Zé Augusto, que se concentrava em fazer sua campanha na Reserva com apoios que só ficaram mais claros durante a assembléia.

Na próxima postagem, começa a assembléia!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Uma assembléia no tempo I

Há já algum tempo a Reserva Extrativista do Alto Juruá vem sofrendo com a progressiva desestruturação, ou melhor, descaracterização pela qual vem passando a associação local de moradores. Criada em 1990, a Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá (Asareaj) já conheceu dias melhores.
Nos dez anos que se seguiram à sua criação, enfrentando as dificuldades naturais de quando se está dando os primeiros passos, a Asareaj foi responsável pela condução do processo de consolidação da Reserva. Lembremo-nos de que trata-se da primeira Reserva Extrativista do planeta, e que o decreto que em 1990 regulamentou esta figura jurídica não era muito detalhista sobre como fazer para implantá-la. A Asareaj, nos primeiros anos junto com a representação regional do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS, coordenada por Antonio Macedo), e também com apoios diversos (Ibama, Cedi, Unicamp, Associação Saúde Sem Limites, CVA, organizações indígenas, entre outros), enfrentou com coragem seu ineditismo e seguiu em frente. Cadastrou os moradores, fez um levantamento sócio-econômico, votou e aprovou seu Plano de Utilização. Impossível dizer aqui tudo que ocorreu naqueles dez primeiros anos de Reserva, mas citaria, por exemplo, as unidades de produção de couro vegetal implantadas; o amplo programa de pesquisa e monitoramento que foi iniciado, e ainda vigora; os agentes comunitários de saúde que foram capacitados, estando hoje vários deles contratados pelo Município de Marechal Thaumaturgo, que na época, diga-se de passagem, ainda nem fora criado; os professores voluntários que trabalhavam em escolas construídas pela Asareaj.

Seguindo os estatutos, assembléias periódicas eram realizadas e novas diretorias eleitas, destacando-se nomes como Chico Ginú (antigo delegado sindical, ex-coordenador regional do CNS e hoje no ICMBio coordenando as ações na Reserva Extrativista do Riozinho da Liberdade), Dolor Farias (ex-seringueiro, liderança na criação da Reserva, talentoso mecânico e ferreiro, hoje morando na sede do Município), Milton Gomes da Conceição (líder d’os Milton, desde a primeira hora engajados no esforço de criação da Reserva), Antonio de Paula (veterano seringueiro, agente de saúde, contabilista e eternamento ativo nas lutas sociais), e Orleir Fortunato (ex-seringueiro, tesoureiro de muitas diretorias da Asareaj até sua ascensão à presidência, em 1999). Haveria outros nomes a serem lembrados, mas concentro-me aqui nas pessoas que ocuparam o cargo de presidente da Asareaj, alguns deles por mais de um mandato.

A entrada no século XXI, ao contrário do que poderia se esperar, representou um retrocesso para a Asareaj. O Projeto RESEX (recursos da cooperação internacional para Reservas Extrativistas) inundara a Reserva com várias ações, mas várias delas, contudo, acabaram sendo capitaneadas com fins eleitoreiros, o que ficou bem claro na assembléia da Asareaj de 1999. Nesta época, um outro paradoxo: a ascensão do PT ao governo do estado, em 1998, acabou por introduzir o componente partidário na luta e organização dos moradores da Reserva, com o tempo desviando a Asareaj de suas funções primeiras, quais seja: a defesa da Reserva e do interesse de seus moradores seringueiros e agricultores. Todo essse período é difícil de ser descrito num parágrafo, pois foram complexos e densos os processos que tiveram lugar. Políticas governamentais (municipais, estaduais e federais) terminaram estimulando a formação de pequenas “vilas” na Reserva, com o consequente abandono do modelo de “colocações”; as atividades agropecuárias entraram em alta em detrimento do extrativismo gomífero; a Asareaj passou a admitir entre seus sócios e assessores pessoas oriundas da sociedade local de ex-patrões, comerciantes e fazendeiros; e o Ibama, nos últimos anos, esteve quase que totalmente ausente da Reserva. Cooperação internacional, política partidária, urbanização, agropecuária, dominação neopatronal, ausência do poder público: posso estar exagerando, mas de alguma forma esses elementos compuseram o contexto dos últimos dez anos de história da Asareaj e da Reserva.

Há dois anos, contudo, um fato novo, novo e dramático: em 2006 o presidente da Asareaj, Orleir Fortunato (já em terceiro mandato por meio de alterações casuístas nos estatutos) foi preso por porte de drogas no aeroposto de Cruzeiro do Sul. Ainda hoje Orleir está preso. A notícia caiu como uma bomba na Reserva, abatendo a moral dos moradores, o que com o tempo foi se refletindo na própria dilapidação do patrimônio e imagem da Associação. A foto acima deve ser vista como uma metáfora dramática desta situação, e digo que hesitei bastante antes de colocá-la aqui. Os motivos que levaram Orleir a transportar drogas são, para mim e outros, desconhecidos, mas não deixa de causar estranhamento sua trajetória de seringueiro-diretor de associação à traficante-“mula”. Como este percurso tornou-se possível? Quem eram suas companhias? Em que esferas circulava? O que tudo isso tem a ver com a Reserva? São perguntas sem resposta. Hoje, soube, não sei se é verdade, Orleir tornou-se evangélico e, para o meu espanto, ouvi dizer que ainda tem liderança na Reserva, em especial no rio Juruá, onde concentrou sua atuação nos últimos anos de mandato. Se isso é verdade, como terá sido esta legitimidade construída a ponto de superar uma acusação tão grave quanto a que está enfrentando na prisão?

Com a prisão de Orleir, assumiu o vice, o sr. Evandro, sem nenhuma experiência prévia a frente de qualquer associação. E assim as coisas foram seguindo, a Asareaj parecendo uma espécie de carta momentaneamente fora do baralho. Em meados deste ano o mandato da diretoria eleita em 2005 expirou, mas nenhum esforço, que eu saiba, foi feito no sentido de convocar uma assembléia e realizar eleições para diretoria. Contudo, já em julho do ano passado, por ocasião da inauguração do Centro de Formação Yorenka Ãtame, coordenado pela Apiwtxa, na sede de Marechal Thaumaturgo, um homem procurava conversar com antigos aliados da Reserva e buscar apoio para mudar aquela situação.

Nas próximas postagens vou contar um pouco dos frutos do esforço desta pessoa, o Zé Augusto, morador do rio Bagé. Em particular, a Assembléia Geral que foi finalmente realizada no último fim de semana na foz do rio Tejo e que elegeu uma nova diretoria para a Asareaj. É emocionante, aguardem.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Viva a aniversariante!

No último dia 29 fiz aniversário. Estava na Yorenka Ãtame, nos finalmentes da Oficina de Agroflorestalismo que lá realizávamos. Foi um aniversário atípico, por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque datas natalícias não costumam ser comemoradas naqueles interiores como costumamos fazê-lo nas cidades. Não foram poucas as vezes em que, ao longo desses anos, conversava com alguém que de repente se lembrava que aquele dia era o do seu aniversário, ou mesmo que seu aniversário havia passado e nem se lembrara... Bolo, velinhas para soprar e “parabéns pra você”, coisas que adoro fazer no meu aniversário, não são muito comuns nos altos rios. Então passei sem. Felicitações sim, recebi várias depois que alguém me denunciou como a aniversariante (eu mesmo estava disposta a passar o dia no anonimato).

O segundo motivo da singularidade deste 29 de setembro foi a surpreendente companhia, durante quase todo o dia, da Soraya, que por várias vezes me parabenizava e me brindava com um presente: um beijo, um sorriso, um piscar de olhos que ela sabe fazer, e até mesmo um presente mesmo: uma bonequinha, de nome “Pretinha”, presente de sua mãe e que ela carinhosamente depositou em minhas mãos depois de procurá-la com determinação no meio de suas coisas. Também brincamos na varanda de tirar fotos enquanto ela corria com meu xale para lá e para cá, “voando” como uma águia, afirmou. Contamos estórias uma para outra, brincamos de rugir como felinos e rimos bastante.

A Soraya tem sete anos. É filha da Ramene, que está morando em São Paulo, e do Tupi, com quem ela mora em Rio Branco há mais de um ano. Disse para a sua mãe que ela [Soraya] é um “ser ramênico”: amorosa, risonha e leve. Adorei o meu presente de aniversário. Uma alegria, a Soraya. Que Deus a abençoe sempre.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Aliança agroflorestal

Tem que ser com amor, ensinava ontem Antonio Caxixa, morador da Reserva Extrativista do Alto Juruá, inventivo agroflorestal formado por meio de oportunidades diversas na vida e fundamentalmente por seu próprio empenho e criatividade. Estávamos – participantes de uma Oficina de Agrofloresta no Centro de Formação Yorenka Ãtame – aprendendo como plantar uma muda de coco da praia. Caxixa mostrava como cortar as raízes da muda antes de colocá-la na terra e nos orientava como segurar o coco para não ofender as palhas.

Dali partimos para um local, uma parcela de terra pequena, em torno de 5 por 8 metros, e Benki indicou inicialmente os locais onde as mudas de coco (num total de três) poderiam ser plantadas. Como fazê-lo? Estava eu interessadíssima no assunto: mais um passo nos meus planos futuros de ter um dia uma propriedade com muitos pés de coco. Pois bem, aprendi que, escolhido o local, uma cova de meio metro de fundura deve ser cavada, sendo seu diâmetro também de 50 centímetros. Feito isso, a cova deve ser toda preenchida com terra estrumada (com cinza, esterco ou outro paú) e o coco plantado sem que seu “cólo” (da onde saem as palhas) seja inteiramente coberto. Última etapa: cobrir a terra em volta do coco com capim para que o sol não judie da muda recém-transplantada ou a chuva não a encharque impiedosamente.

Mas não paramos por aí. O objetivo era formar um início de Sistema Agroflorestal e Benki logo apareceu com outras mudas para dar continuidade à atividade de plantio. Ali, naquele pedaço de chão, cerca de meia hora depois, além dos cocos, já estavam plantados pés de pupunha, açaí, acerola e uma jabuticaba. Que coisa bacana, pensei, se esta moda pega... É um pouco este o objetivo da Oficina, embora moda talvez não seja o melhor termo, pois que passageira: é mais um modo de bem-viver que possa ser compartilhado pelos moradores indígenas e não-indígenas do Alto Juruá.

Como se sabe, a região do Alto Juruá, riquíssima na sua diversidade biológica e cultural, tem estado ameaçada por vários fatores, desde a exploração madeireira peruana que entra pela fronteira brasileira, invadindo Terras Indígenas e a Reserva; o tráfico de drogas, que tem na região algumas de suas rotas, assustando muitas famílias residentes em especial no rio Amônia; a expansão da pecuária na Reserva e seus consequentes desmatamentos, que por sua vez ameaçam os recursos hídricos; a criação de vilas no meio da floresta, impactando fortemente as tradicionais formas de ocupação do território e de uso dos recursos; a hipertrofia da influência do poder público municipal e a concomitante atrofia da força institucional das associações locais de moradores, agravada pela ausência do ICMBio/Ibama na região. O rosário é grande e não é o caso de o desfiar agora. Vamos antes às oportunidades e boas novas.

Índios, seringueiros e agricultores moradores da região começam a perceber que novas alternativas precisam ser criadas para a vida na região. Ouvi vários moradores duvidando do gado como uma alternativa realmente vantajosa, embora eles mesmos tenham investido nesta opção. Contudo, observam, os desmatamentos estão excessivos, não dá pra negar, e, afinal, está-se dentro de uma Reserva; os igarapés estão secando, a terra ficando dura como barro; e o rendimento auferido com o gado é no longo prazo e com muito investimento. Estas ponderações, estas dúvidas sobre que caminho seguir, são salutares e também portas de entrada para novas idéias e práticas.

Por meio de lideranças locais, de mediadores e aliados de longa data, da Yorenka Ãtame e de apoio financeiro externo governamental e não, um arco de alianças quer se firmar. Esta aliança é fundamentalmente entre quem tem mais a ganhar junto e muito a perder cada um por si: as populações locais. Alguém disse: “morar perto não é o mesmo que ser vizinho”. A construção desta vizinhança potencializa o agroflorestalismo como uma prática econômica e ambiental, e também como uma ação social e política.

Ver esta conversa acontecer, com seus impasses, diferenças e sinergias é algo que estimula e põe lenha na chama da minha esperança – que anda meio bruxuleante, como se sabe.