segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Uma assembléia no tempo IV

O dia seguinte foi aberto com a apresentação das chapas concorrentes e um discurso de cada um dos candidatos, que não assisti pois me atrasei na casa do meu afitrião na foz do Tejo. Quando cheguei ao local da assembléia, a votação fora iniciada. Na escola, de longe, via uma aglomeração absurda de gente, como se todos quisessem votar ao mesmo tempo. Um sol de chuva brilhava e queimava. Não estava muito fácil. O calor era grande. Soube que estava levando muito tempo para que os mesários da eleição encontrassem o nome do eleitor na lista assinada no dia anterior, já que esta não estava em ordem alfabética. O pessoal do BIS, que desde o dia anterior estava ali e ajudara na fila da alimentação, tentava apoiar a organização da muvuca da votação. Não me atrevi a chegar perto.

Logo soube que se decidira mudar o processo: ao invés de procurar o nome das pessoas na lista, os eleitores iriam ser chamados a votar, pelo microfone. E assim o processo reiniciou. Mas a multidão não arredava o pé e a concentração de gente na entrada da sala de votação permanceu. Uma lógica interessante: ao invés de procurar um lugar para se sentar e aguardar seu nome, a maior parte das pessoas queria era ficar ali mesmo, embora apertadas e sem lugar para sentar. O pessoal do BIS continuava no apoio, tentando organizar aquele povo que relutava em ser enfileirado. Bravos rapazes os do BIS, pelo menos vi o Exército servindo o povo naquela foz do Tejo!

Surgiu então um assunto que deu muito o que falar: havia uma solicitação de que a lista de assinaturas para eleitores fosse mais um vez reaberta para os retardatários que chegavam para votar. Isso foi motivo de opiniões contrárias entre os partidários de uma e outra chapa, mas os dois candidatos a presidente acabaram concordando em que a lista fosse reaberta até o meio-dia. Esta autorização foi motivo de crítica dos partidários de Zé Augusto até muito depois de terminada as eleições. Diziam: fora por meio daquele expediente que muitos moradores da vila Thaumaturgo conseguiram votar, mesmo sem residir na Reserva.

O fato é que no domingo a foz do Tejo bombou. Encheu mesmo, muita gente da vila, gente que veio para vender coisas (lanches, refrigerantes, churrasquinhos) e também para passear, e sem dúvida para tentar votar. Não saberia dizer quantos acabaram fazendo-o e nem como conseguiram, já que os mesários supostamente conheciam quem era ou não morador da Reserva. Conversei pelo menos com um atual morador da vila, ex-morador da Reserva mas que tem nesta toda a sua família (pai e irmãos) e que foi impedido de votar. Mas ouvi outros casos onde esta negativa não teria ocorrido. Tem uma ambiguidade aí, pois muitos desses “moradores da vila” (mas não todos) são ex-moradores da Reserva, alguns inclusive mantendo uma casa na vila e outra na Reserva, ou ao menos um roçado ou seu gado, por exemplo. Onde afinal mora esta pessoa? Os estatutos são omissos sobre casos assim, que por sua vez atingem mais aquelas pessoas que moravam perto da vila, e não as dos altos rios.

Por falar em estatutos, gostaria de assinalar que o vice-prefeito eleito, o sr. Maurício Praxedes, permaneceu o sábado e domingo na foz do Tejo, conversando com seu candidato (Domingos), partidários e os que o procuravam. Na foto acima ele conversava com a equipe do BIS. Enfim, esteve bastante ativo durante todo o tempo, mesmo porque, como ele mesmo disse na sua fala de abertura, era um eleitor. Como assim? Pois é, boa pergunta. O fato é que modificações nos estatutos foram realizadas durante os últimos anos, sob o comando de Orleir Fortunato, e nas quais Maurício Praxedes era uma pessoa-chave, controlando o funcionamento da cooperativa. Entre essas mudanças esteve a de permitir que pessoas que prestassem relevantes serviços a Reserva ou a Associação (não sei bem a redação pois este último estatutos, que mais deve parecer uma colcha remendada, nunca chegou as minhas mãos) pudessem votar. Quem será que defendeu uma coisa destas? Pessoas de fora, ou que não são seringueiros ou agricultores, votando numa associação de representação justamente dessas categorias? Acho sinceramente um absurdo este tipo de coisa, um abuso. E caberia ainda perguntar que relevantes serviços são estes já que a Associação encontrava-se sem nem um palito de fósforo próprio?! Quem está no meio de movimento de trabalhadores sem o ser, ou é para apoiar na coadjuvância, ou está querendo tomar a direção da coisa.

E assim a coisa foi indo. Até que caiu a maior chuva, e a lama ficou boa mesmo – pra escorregar! Enquanto isso o almoço saiu, muito tumultuado, segundo relatos, e as eleições não pararam, chamando nome de eleitores a todo momento. Neste meio tempo, inventaram de despachar o combustível para os sócios, e aí a confusão ficou boa e uma fila só conseguiu ser minimamente organizada com a presença a autoridade da Polícia Federal. Muitos reclamavam que o despacho de combustível contemplara moradroes da vila, ou fora feito de forma inadequada, contemplando com muita gasolina quem mora perto e com pouca quem mora longe. Enfim, gasolina, diesel, esses assuntos, são danados pra dar confusão.

Ainda fiquei ali pela foz do Tejo até o final do dia, conversando com velhos amigos e amigas que a todo momento encontrava. Tanta gente boa! Encontrei, por exemplo, com o sr. Iraçu, o primeiro sócio da Associação, como ele mesmo lembrou, ainda nos tempos do Macedo e do Mauro Almeida, como ele também fez questão de assinalar. Emocionou-se dizendo do quão bons eram aqueles tempos, e mandou um abraço para os dois amigos dos quais não esquece.

E muitos representantes dos povos moradores das Terras Indígenas vizinhas a Reserva também se fizeram presentes - uma presença que foi tão marcante nos primeiros tempos da Reserva e que nos últimos dez anos tinha desaparecido. Pois nesta assembléia fizeram-se presentes, inclusive membros de uma aldeia Kaxinawá que está instalada dentro da Reserva, no rio Breu, sem que isso esteja significando qualquer tipo de conflito com os "brancos".

Mais tarde, já na casa do Nonatinho e da Maria, onde também estavam hospedadas outras pessoas, como a vibrante e conversadora-sem-papas-na-língua dona Zefa, irmã da dona Nazaré de quem já falei, e outras pessoas do Bagé, vimos nosso anfitrião, que justamente fazia aniversário naquele dia, entrar chorando em casa e se enfiar dentro do quarto. Logo ele saiu e anunciou que Zé Augusto perdera por 11 votos. Estava inconformado, repetia a todo momento que toda culpa fora da reabertura da lista de votantes naquele domingo. Logo outras pessoas chegaram, todas incorformadas e dizendo que no local da assembléia estava uma tristeza só por parte dos eleitores do Zé Augusto. Mas era aniversário do Nonatinho, e mais tarde não resistimos e cantamos – todos os hóspedes e família – um parabéns bem animado para o nosso anfitrião aniversariante.

Quanto ao Zé Augusto, este só fui ver no dia seguinte, ainda com a mesma roupa do dia anterior e preocupado com o combustível para os sócios voltarem para casa. Seu ânimo não estava comprometido. Disse: “é isso aí, vamos em frente”. É, ficar parado é que não dá. Mas o que será que aconteceu? Votos da vila explicam a derrota, que foi tão apertada? Domingos com 478 votos e Zé Augusto com 467 (mais 12 nulos, totalizando 957 votos). Fiquei pensando se não houvera uma transferência de votos das eleições municipais, ou seja, se muitos dos eleitores do PMDB não teriam transferido seus votos para Domingos nas eleições da Asareaj. Não sei. Será que o Zé Augusto ficou identificado com uma candidatura do PT? Não sei, talvez não, pois se este fosse o caso acho que a diferença teria sido maior entre ele e Domingos. Afinal, foram só 11 votos...

Pegamos – Terri, eu e Eliza, esta debutando na região – uma carona de canoa para voltar para vila e cruzamos com o batelão do fazendeiro Otávio, soltando rojão em comemoração pela vitória de Domingos, imaginamos. Ele, assim como outros, como o sr. Antonio Vieira, associaram-se e votaram nas eleições. Como isso foi possível? Quem os associou? Sua felicidade pela vitória de Domingos não deixava muitas dúvidas sobre isso.

Em Marechal Thaumaturgo, antes de voltar para casa, ainda presenciei uma movimentação ferrenha por parte dos moradores do Bagé, que desceram todos da foz do Tejo para a vila. Estavam inconformados com o resultado das eleições, e com a situação de desrespeito na Reserva. Pela diretoria eleita não nutriam qualquer esperança de mudança. Ainda no mesmo dia veio a notícia de que algumas irregularidades haviam sido identificadas nas eleições da Asareaj: o candidato eleito seria beneficiário do Projeto de Assentamento do Amônia, portanto um assentado; a presença de um número maior de votos do que de eleitores que assinaram a lista; o fato de fazendeiros terem votado. Começou a se formar um movimento daqueles que queriam a impugnação das eleições. Não sei bem como ficou, pois viajei sabendo que estava sendo organizado um abaixo-assinado. A semana passada, por telefone, soube que a ata da assembléia misteriosamente ainda não teria sido registrada. Mas que Domingos estaria em Cruzeiro do Sul, “apoiado por dois advogados” e disposto a brigar na Justiça por sua vitória.

Enfim, aí já estamos no campo da chamada rádio-cipó. Aguardemos os próximos capítulos desta trama, que parece que ainda vai longe...

3 comentários:

Roberto Rezende disse...

Mariana, é um privilégio receber um relato tão detalhado mesmo estando tão longe!
Só fico triste com o desfecho conturbado (e suspeito) de uma eleição que parecia estar sendo bem conduzida, se comparada com outras das quais tenho notícias.
Mas o mais importante é esta volta de várias instituições e pessoas tão representativas nos debates sobre o futuro da reserva. Tomara que este fôlego não se perca frente a apenas uma derrota!
Ah, uma dúvida: este senhor na sexta foto é o Raimundo (Tuîn) Kaxinawá? Lá onde ele mora não é a Terra Indígena Ashaninka/Kaxinawá?

Um grande abraço e obrigado pelas notícias!

eliza disse...

Olá!

Parabéns Mari!

Quanta lama...
em vários sentidos..

Fiquei pensando se não é hora da Reserva ter um novo censo...
Saber mais detalhes sobre as mudanças, que são tantas, desde 1991...
Um beijo.

Noé disse...

Uau, a internet tem valor, pois, afinal, sem ela como alguem daqui, como eu, ia ficar sabendo de tudo isso, aí?
Ou como íamos poder aproveitar essa deliciosa narrativa, e valorizar a Mariana, se ela não tivesse postado?
Essa aparente decadência da Asareaj, não é uma manifestação da lei dos ciclos?
O candidato que perdeu percebeu isto e já tocou a bola para frente. Acho que ele também sacou que o fator tempo, no sentido timing, também é relevante.
Que encontro fantástico de culturas e energias, deve ser um lugar mágico.