segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Uma assembléia no tempo III

Marcada para os dias 25 e 26 de outubro, a assembléia só foi realmente aberta na parte da tarde do primeiro dia. Toda a manhã fora dedicada a cadastrar os sócios-eleitores que chegavam à foz do Tejo, local da assembléia. Esta foi a medida adotada para tentar evitar que não-sócios conseguissem votar nas eleições para presidente da Associação, como ocorreu, segundo relatos, nas últimas assembléias e teriam ajudado a garantir as sucessivas reeleições de Orleir Fortunato. Por “não-sócios” refiro-me aqui aos “moradores da vila”, como são conhecidos os habitantes da sede municipal, distante a menos de uma hora da foz do Tejo. Como se comprovou, a medida não foi de todo descabida, embora também não de todo eficaz.

Apesar do desaparecimento da sala de reuniões, hospedaria e refeitório da Associação – que um colaborador da diretoria que encerrava o mandato convenientemente atribuía ao fato do barranco estar “quebrando” e a roubos praticados por desconhecidos – ou seja, apesar da precariedade das instalações disponíveis, o grupo que, junto com Zé Augusto, organizara a assembléia, o tempo todo defendera que a assembléia devia ocorrer mesmo que “no tempo”, isto é, ao ar livre. A situação em que a Associação realizava sua assembléia espelhava nada mais, nada menos do que a situação real em que se encontrava.

A Prefeitura (do PT) concordara em mandar construir uma estrutura de casa coberta de lona plástica (esta paga com recursos da assembléia), como se vê na foto acima. O chão, contudo, não foi nivelado; era de capim, roçado contudo. A cozinha funcionou na antiga casa de um morador, já desabitada e convertida em sala de aula no período escolar. Na escola propriamente dita funcionou o local de votação. Assim, espaços públicos cobertos eram dois: o da casa de lona, onde ocorreram as atividades do primeiro dia, e a escola.

Para comer, era entrar na fila, pegar o prato e arrumar um canto para se sentar; bancos haviam uns poucos, mas algumas toras de madeira foram convertidas em assentos. Para dormir, a casa de lona foi usada, assim como de moradores da localidade e das proximidades (dentro do rio Tejo, por exemplo); um batelão da prefeitura também foi cedido para as pessoas passarem a rede, assim como o do sr. Otávio, um fazendeiro residente na foz do Caipora, dentro dos limites da Reserva. Assim, a maior parte do espaço ocupado pelos participantes era ao ar livre, sob sol e chuva – tal como profetizado, no tempo.

Após o almoço, que mesmo com pratos insuficientes ocorreu com relativa tranquilidade, foi aberta a assembléia. Não sei dizer quantos participantes encontravam-se naquele momento na foz do Tejo, mas já passávamos dos 400, com certeza. O presidente em exercício, o sr. Evandro Lima Firmino, foi o primeiro a discursar, agradecendo a todos pela presença mas sem dar qualquer esclarecimento sobre a situação da Associação que estava entregando a diretoria a ser eleita. Em seguida, já sob o comando da Mesa Coordenadora dos trabalhos, presidida pelo STR, vários falaram: Benki Pianko(Apiwtxa/Yorenka Ãtame), eu mesma, Adalberto Iannuzzi (ICMBio/Ibama, de Rio Branco), Terri Aquino, Erisberto (vereador encerrando mandato pelo PT e candidato a vice na chapa de Zé Augusto), Maurício Praxedes (verador encerrando mandato pelo PMDB, vice-prefeito eleito pelo mesmo partido e assessor das últimas diretorias da Associação), João (presidente do STR), entre outros.

Já durante a primeira fala, de Benki, a chuva caiu, e forte. Foi interessante, porque criou uma situação de efetiva reunião de todos ali de baixo daquela casa de lona. Não dava para sair dali, e o jeito era ficar bem juntinho. O barulho da chuva na lona era forte, mas o microfone também falava alto, e ali ficamos todos até o final desta abertura mais formal. Ao final de algum tempo de chuva, muitos já estavam com os pés dentro d’água. Mas havia uma predisposição e boa vontade de quem estava ali, isto era visível. Com toda aquela precariedade material, as pessoas estavam interessadas no futuro da Reserva e de sua Associação. Foi mesmo comovente observar isso, mas, mais do que isto, foi gratificante: depois de tantos anos de Reserva, era possível perceber uma maturidade em muitas falas.

Da parte dos convidados, gostaria de registrar aqui a fala do representante estadual do ICMBio/Ibama, que assumiu publicamente a ausência da instituição da área, desculpou-se como pôde explicando a reestruturação pela qual passara o órgão, e, principalmente, comprometendo-se a novamente marcar presença na Reserva. Este ano, assegurou, já haverão algumas reuniões comunitárias visando marcar este tempo de retorno. Este foi um fato relevante, e que merece apoio e monitoramento.

Terminadas as falas dos convidados, o microfone foi aberto para quem desejasse se pronunciar. Várias foram as falas: de dona Nazaré, com seus 80 anos de vida no alto rio Bagé, uma veterana das assembléias da Associação, sempre na primeira fila, assistindo a tudo do primeiro ao último dia; o sr. Sebastião Estêvão, outro veterano dos tempos em que Macedo começou a andar na área; dona Maritô, valente moradora do rio Amônia, dedicada a buscar os direitos daqueles que se acham ameaçados pela criação de uma Terra Indígena naquele rio; Valmar Calixto, da família dos Cunha, compositor e cantor; Toinho Grajaú, do rio Bagé; um morador do rio Caipora, que valentemente denunciou a ação do fazendeiro das imediações amedrontando os moradores; João Gonzaga, seringueiro, poeta e artista, morador da colocação Solidão, no alto rio Bagé, entre outros. O renascer da Reserva era uma imagem constante nessas falas, algumas defendendo um ou outro candidato a presidente da Associação.

Assim encerrou-se o primeiro dia. Minha impressão era que tudo corria bem, e acho que não estava de todo errada. Claro que o pessoal da cozinha e de apoio trabalhava de forma redobrada para dar conta do volume de pessoas que só crescia. Previa-se uma insuficiência de combustível. A lista de cadastramento de sócios-votantes teve que funcionar até as 17 horas dada a chegada a todo instante de moradores da Reserva. A lama tornava o deslocamento dos participantes pelo local bastante desconfortável. Mas o clima era tranquilo, não havia animosidade no ar. Neste dia houve mesmo cantoria, e a dupla João Gonzaga e Joãozinho mais uma vez brindou a todos com suas canções e interpretações.

Para mim, a previsão de vitória nas eleições era imprevisível. Ouvi opiniões contraditórias todo o tempo: “Zé Augusto vai ganhar”, “Domingos vai ganhar”. A disputa era grande, estava claro.

2 comentários:

Débora Almeida disse...

Aguardo ansiosa o desfecho da blognovela...
Já tive notícias, mas quero muito ouvir o relato a partir do seu olhar...
Escreve logo!!

Mariana disse...

Ai, desculpa, é que uma gripe me pegou em cheio e fiquei toda amuada e tendo que dar conta do dia a dia. Mas não passa deste fim de semana! Não sabia que vc gostava tanto de blognovela!?