domingo, 17 de fevereiro de 2008

Sobre palavras e águas


Murilo Seabra


Quando estava em Marechal Thaumaturgo, observei uma coisa curiosa: algo que, na verdade, deve acontecer todos os dias em infinitos lugares do mundo, mas que só consegui realmente enxergar pela primeira vez lá: fui com um senhor na casa de um outro senhor, amigo dele; e o primeiro já chegou gritando, feliz da vida: “Seu viado! Seu corno!” O outro ficou tão feliz em rever o amigo que gritou também: “Seu viado! Seu corno! Seu cabra safado! Vem cá para eu lhe dar uma pisa! Vem se for homem!”



Então, achei a coisa interessante: pareceu-me que a ligação afetiva entre eles era tão forte que eles poderiam troçar das convenções sem temerem ofender um ao outro. Era assim que celebravam o seu reencontro: Somos tão amigos! Tão amigos! Tão amigos que podemos trocar entre nós palavras que os inimigos trocam entre si! Tão amigos que podemos nos xingar mutuamente dos piores nomes possíveis! Tão amigos que eles deixam de ser xingamentos e passam a ser manifestações de afeto! Aliás, o nosso xingar mútuo é uma espécie de confirmação e de celebração da nossa imaculável amizade! É uma espécie de marretar festivamente o vidro não quebrável só para mostrar que ele é não quebrável!

Palavras e linguagem


São só as pessoas com as quais não temos ainda laços afetivos estreitos e não quebráveis que tratamos com deferência. São só com elas que medimos as palavras, que seccionamos a linguagem em dois, usando só a sua parte semanticamente inofensiva e deixando a outra nos recessos mornos do silêncio. A linguagem não é um tecido afetivamente homogêneo com o qual as pessoas revestem as coisas e no qual embrulham umas às outras. Ela é antes uma colcha de retalhos das mais diversas proveniências e que servem aos mais diversos fins, e entre os seus retalhos há alguns mais ásperos, outros mais suaves, alguns de um verde aconchegante, outros de um vermelho sangüíneo, todos compondo juntos uma unidade, porém uma unidade tumultuosa, uma unidade que beira o caos, uma voz única temperada a sussurros adocicados e a gritos apimentados.



Mas não é incrível que as palavras usadas para acionar os afetos mais terríveis possam ser também usadas para acionar os afetos mais profundos? “Seu viado! Seu corno!” Há palavras de afeto que os casais nunca trocam entre si – pelo menos, não sem o risco de incitar desafeto. Em nossas sociedades, a abertura para trocas lingüísticas parece ser inversamente proporcional à abertura para trocas corporais: elas refratam umas às outras, elas ameaçam umas às outras, elas contaminam umas às outras.



[Para ler na íntegra esta interessante conversa, clique aqui]

Um comentário:

pacífico disse...

Uma foice muito amolada pode servir para descascar laranjas também.
Mas, por via das dúvidas, prefiro usar as unhas. Existem palavras foices, palavras unhas, palavras rosas...
e, além disso, existem nomes inesquecíveis, Mariana!
Melhor esses caras se tratarem assim e celebrarem entre si a amizade do que com palavras belas esconderem pérfidas intenções.
Mas é bom que saibam com quem se aventuram a falar tão livremente.