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domingo, 10 de agosto de 2008

Ou isto ou aquilo

Cecília Meireles (com foto d'O Pensador, de Rodin)

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.

* * *
Pós-escrito por mim mesma:

Ou passeio ou estudo
ou acordo cedo ou durmo mais um pouco

Ou corro ou ando devagar
ou relaxo ou tensiono

Realmente, sempre há escolhas
Mas, feita a escolha, chega de pensar

O melhor é o que se escolhe!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Meu mundinho


Logo que cheguei no aeroporto, aquele ritual da bagagem, a esteira rodando, malas passando, "onde estará a minha?". Começou a demorar, mas olhava nas imediações e a turma que viajara comigo de Lisboa a Paris estava quase toda lá. Mas uma hora a esteira parou. Ué! Vejo e sigo meus companheiros que andavam em direção a um guiche, provavelmente o de reclamação. Era só o que me faltava, chegar sem a mala...

Pois foi isso mesmo que ocorreu (e eu nem cogitava nisso quando escrevi a última postagem falando sobre a imprevisibilidade do porvir). As bagagens estavam todas em Lisboa. Saí do aeroporto quase uma hora depois carregando minha bolsa de mão um papel com o registro da minha reclamação e um número para telefonar no dia seguinte. "Mas não se preocupe, é quase certo que às 10 horas da manhã estáremos lá com sua mala". Acertei fácil o caminho até em casa, e me virei com roupas dos meus anfitriãos. Dia seguinte, ligo, claro, as bagagens ainda estão em Lisboa, "talvez às 18 horas tenhamos alguma notícia". Passei o dia pensando nesta situação.

A primeira coisa que me fez pensar foram meus sapatos, bons para viajar de avião, mas não para andar em Paris debaixo do sol. Minha calça jeans, a mesma da viagem, também reforçou a vontade de ter minhas coisas: minha sandália havaiana, uma bermuda, uma saia. Não gosto de calça jeans no calor, nunca uso, por isso só trouxe a da viagem mesmo. Andei bastante hoje, mas do que planejara, passei por locais, como o Jardim de Luxemburgo (foto abaixo com a torre Eiffel ao fundo), que pediam algo mais leve e fresco.
Pensamentos à toa passavam pela minha cabeça: "e se a mala sumir? Como vou fazer? Só me faltava ter que comprar roupas novas aqui em Paris, com tanta coisa mais interessante para fazer". Aí pensava: "não, deixa disso, vai dar tudo certo". Mais um pouco de caminhada e calor, vinha outro pensamento: "ah, eu preparei a minha mala com tanto cuidado pra não trazer coisas em excesso, mas coisas que eu gosto de usar, comprei roupas especialmente para a viagem...". Corrigia meu pensamento, e assim passei a tarde me equilibrando entre ficar tranquila e sentir falta de algo que eu queria muito e não sabia quando teria, ou se teria - minha mala.
Pra encurtar a história, no fim do dia me foi devolvida a mala. Nossa! Foi muito louco, pois mudou o meu ambiente interno. Um peso saiu, uma leveza entrou. Aí fiquei pensando: "nossa, esta mala é mesmo importante para mim". Por que? Por causa das coisas materiais ali? Será que eu não poderia passar sem elas? Será isso um apego doido às "coisas"? Ou será porque ela é o meu mundo aqui em Paris? Ela encerra o que tenho aqui (lembrem-se que acabei de chegar) e também as minhas referências do Brasil? É como se a mala fosse um pouco da minha identidade, ou um pouco da minha identidade estivesse guardada ali dentro: minha maneira de me vestir, o que gosto de usar, minhas intenções ao fazer a mala para Paris.
Minha mala é, por hora, o meu universo, o meu mundinho que eu trouxe para cá. De repente senti-me ameaçada de ficar sem ele, e não foi nada confortável. Fiquei pensando nisso tudo, intrigada em como aquele bólido azul marinho e de rodinhas representava tanto para mim.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O tempo em mim


Hoje estava na cozinha, a TV ligada, e ouvi uma propaganda de um produto de beleza, desses tipo miraculosos, e que dizia algo como "não deixe ninguém perceber que o tempo passou [e que agora você tem rugas]". Não foi a primeira vez que este anúncio, ou "reclame", como dizia minha avó, sobre um creme para o contorno dos olhos me chamou atenção. Num outro da Natura também já tinha reparado: um que vai mostrando cremes diversos e mulheres comuns sempre aparentando menos idade do que supostamente teriam - e isso as faz belas. Mesmo cremes para mulheres mais maduras, ou idosas, visam sempre disfarçar algo que se tem: as marcas do tempo. E a beleza das rugas?, me perguntei. Bom, é certo que "rugas" é uma palavra meio feiosa: ru-ga, sei lá, não gosto. Uma ruga é uma dobra que foi feita em algo que antes era liso, ou esticado. O seu rosto, outrora esticado, dobrou aqui e ali. Mas este "aqui e ali" é justamente o retrato externo do que se é, da vida que se viveu e da transitoriedade da vida. É bonito isso, penso. A conformação que seu rosto foi adquirindo durante a vida, as marcas do sorriso (populares "pé de galinha"), as rugas na testa pela preocupação - tudo isso é um patrimônio, pessoal e instransferível. Cruel esta nossa sociedade que quer mexer nisso, em nós e no tempo. Apague as marcas. Apague-as, são feias. Elas falam de você. É claro que uma plástica também fala de você: da vaidade, por exemplo. Isto não é necessariamente ruim, e o resultado pode ser bonito e fazer a pessoa mais feliz. Tudo bem. Mas falo por mim, do que fiquei pensando a partir daquele anúncio na TV. Gostaria de passar por esta vida sem fazer uma plástica, sinceramente gostaria. Ser eu mesma, assumir-me até as últimas consequências. Quero ter esta coragem. E quero mais: quero viver muito e ter auto-estima para encarar minhas rugas, as transformações do tempo, e ver nelas (e em mim) uma vida e uma pessoa que valem à pena. E ainda por cima sem maquiagem!