sexta-feira, 27 de junho de 2008

Boa conversa sobre o bom português

Esta semana tomei conhecimento de uma planilha sintetizando as novidades do Novo Acordo Ortográfico da língua portuguesa tal como falada e escrita entre nós, brasileiros. Procurei ansiosamente por mudanças nas regras da crase, ou mesmo na extinção desta senhora que é uma pedra do meu calcanhar. Que nada, ela é imexível, e pelo visto continua valendo com todas as suas regras e exceções. Na redação da minha tese de doutorado, ralei com a tal da crase, e meu orientador e amigo Mauro Almeida por diversas vezes, além de corrigir meu texto, explicou-me as regras de uso, em particular aquela em que a gente substitui a palavra depois do "a" por uma masculina e vê se cabe "ao"; se couber, perfeito, tasca a crase! Bom, mas o fato é que há várias exceções e subregras...

Assim que recebi a planilha, numa atitude de cumplicidade, enviei para o Mauro, apreciador da boa escrita que é. Mauro então me respondeu com um email que eu gostei muito de ler, pelo frescor de uma conversa despretensiosa entre amigos, por um tom de professor que é também o de um observador crítico sobre a idéia de "não saber escrever", e ainda pelas informações (mesmo curiosidades) que traz sobre a língua portuguesa. Pedi a ele para reproduzir seu email aqui imaginando que teria gente que apreciaria o texto. Ele topou. Então, caro leitor e leitora, com vocês as palavras de um bom mestre e estudioso:

Mariana: já que você tocou no assunto...

Muitos dos acentos que caíram com a nova reforma ortografica não faziam diferença para a pronúncia, e vários deles já não rolavam em Portugal.

Já com a crase há uma diferença essencial entre Brasil e Portugal: aqui ela não faz diferença para a pronúncia, sendo um acento puramente gráfico; já em Portugal, ela é pronunciada e faz muita diferença no significado! Por isso mesmo, lá ela designa um aspecto da lingua popular, e ninguém faz "erro de crase". Lá ela soa diferente e significa diferente.

Qual é a diferença de som que a crase assinala em Portugal? Lá, há dois sons distintos: "à" é pronunciado como um "aa" longo; e "a" sem crase é pronunciado como um "a" curto. No Brasil, pronunciamos igual os dois como um "a" curto.

E qual é a diferença de sentido? No primeiro caso, o do "aa" longo (que se escreve "à"), o papel da palavrinha, quando soa no ouvido português, é modificar o ato em questão: "ataco à direita" quer dizer que meu ATO se dá pelo lado direito (adjunto verbal). Já no segundo caso, o do "a" curto, o papel da palavrinha é apenas o de individualizar o objeto da ação: "ataco a direita" quer dizer que ataco esse objeto que é "a direita" (objeto direto). Se você disser essas duas frases em Portugal, a diferença de sentido fica imediatamente claro. Se você der um endereço dizendo "Vire a direita" (sem pronunciar a crase), é possível que o ouvinte não entenda: "-- Como virar a direita? A direita é flexível? Cadê ela, para eu virar?"

No Brasil, se dissermos por exemplo que Roberto "atacou a direita..." e a frase não for completada, não sabemos se ele atacou pela direita (atacou à direita do campo, pelo lado direito) ou se atacou os defensores do lado direito (atacou a direita da defesa adversária). São duas coisas diferentes...

Mas entendemos muito bem qual é qual por causa do contexto! Logo, aqui no Brasil, se fosse abolida, a crase não faria diferença, porque a gente entende intuitivamente qual é a função daquele sonzinho, pelo significado e pelo contexto.

Há um outro exemplo interessante de diferença entre Portugal e Brasil na maneira de falar. Lá, a palavra "falamos" é escrita de duas formas: "falamos" e "falámos", e pronunciada de dois modos: no primeiro caso como "falâmos", e no segundo caso como "falámos" (a aberto). "Falamos" (falâmos) refere-se ao presente, como em "falamos muito mal nossa língua hoje em dia". Já na frase "Falámos muito mal nossa língua, mas hoje falamos bem", um português sabe que a primeira palavra refere-se ao passado, e a segunda ao presente. Brincamos hoje, e brincámos na nossa infância...

Mais uma vez, não precisamos dessa distinção sonora, nem gráfica! O contexto torna a coisa clara. Mas os portugueses gostam de tudo muito bem explicado.

Em suma: essa diferença gráfica do "falamos/falámos", que expressa sons e sentidos diferentes, desapareceu no Brasil. Já no caso da crase "à direita/a direita", a diferença se manteve no Brasil apenas como marca gráfica. Para quê? Só para traçar uma distinção hierárquica entre "quem sabe escrever e quem não sabe". Alguém já disse que "a crase não foi feita para humilhar ninguém", mas no Brasil é exatamente essa a função dela!


Bjs,
Mauro

4 comentários:

Cris Moreno disse...

É interessante Mariana. Uma vez coloquei no blog um post do Mundo Pessoa(Casa Fernando Pessoa), em que Saramago declara que não mudará sua escrita. Ele já passou várias mudanças, mas que agora...As palavras portuguesas que levam o "c", por exemplo, acto, vão ficar sem o "c".

Beijocas.

Valeu o post. Você está cada vez melhor, mas rapaz! rsrs

:)

Mauro Almeida disse...

Mari:

Que divertido! Mandei para a Luana, o Tiago e a Manuela... Espero que não tenha muita coisa errada. Depois pensei: devia ter feito uma proposta formal de abolição da crase. ABAIXO A CRASE! A língua muda com o tempo, e o nosso portugues também, e se ninguém fala a crase, nem o povo nem a elite culta, é porque ela deixou de existir e a forma gráfica é uma relíquia que só serve para alimentar a indústria editorial com livros cheios de dicas para "escrever certo". Já fiz muito esse erro com meus alunos, mas voce tem toda razão: são regras com exceções, sem razão aparente. E que no fundo chocam-se com regras inconscientes e novas, surgidas do uso real da língua. Aliás tem outros casos similares que não tem (aquele acento do têm caiu, não?)nada a ver com acentos. O que gosto mais é o de "vende-se picolés". Quando eu era revisor, aprendi que o "certo" era "vendem-se picolés" significando que "picolés se vendem" ou que "são vendidos (por eles mesmos?)". Como assim? É o gramático que decide o que eu quis dizer? Na minha cabeça, e acho que na de muitos, "vende-se picolé" quer dizer que alguém vende picolé, e "vende-picolés" quer dizer também que alguém vende vários picolés. Então o "se" passou a funcionar no inconsciente coletivo como um sujeito indeterminado. E essa idéia foi publicada em 1921 pelo gramático M. Said Ali, que morreu em 1953, e que como era um grande erudito estava acima da mesquinhez de usar a gramática "para humilhar os outros". Mauro

Dona Sra. Urtigão disse...

Hà um movimento em Portugal tentando impedir a unificação da língua. OS argumentos me parecem suficientes e embasados. Correm coletas de assinaturas... Veremos.

Bia Saldanha disse...

Fala Comadre!

Ralemos!Com ou sem crase, português bem falado e bem escrtito é desafio.
E por agora, motivo de boas conversas eletrônicas...
Boa semana!