sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

No Campus Floresta

Esta semana que passou estive em Cruzeiro do Sul. Fui participar de concurso da UFAC para preenchimento de vagas para professor. Estive em duas bancas, ambas selecionaram professores que estarão atuando no curso de Licenciatura Indígena, ou seja, professores que estarão dando aulas para indígenas, muitos dos quais, acho que quase todos, já atuando como docentes em escolas nas aldeias. Não vou contar do concurso, mesmo porque não pode, é meio secreto o que ocorre nas salas de aula e depois nos bastidores da banca. Então, deixa isso pra lá e vamos ao que me traz aqui hoje.

Quero falar do Campus Floresta, que me espantou pela ausência justamente do que a UFAC escolheu para batizá-lo: a floresta. Ao chegar, um susto: o estacionamento, amplo, imenso, asfaltado e sem um pé de planta para dar sombra, hoje ou futuramente. Fiquei sinceramente chocada com este cartão de visitas. E sem entender.

Comentei isso com alguns colegas professores, que na hora concordaram comigo. Um deles não descartou a possibilidade de um dia vir com uma picareta, abrir um buraco e plantar uma árvore pioneira no estacionamento. Seria um bravo ato, sem dúvida. Como pioneira, ela (a árvore) certamente sofreria um pouco sem companhia e no meio daquele asfalto que esquenta pra valer - mas esta parece ser a sina dos pioneiros e pioneiras: enfrentar resistência e dificuldades dobradas. Sugiro que esta árvore seja uma bem resistente, daquelas que não tem medo de "tempo ruim".

Entrando no campus, mais especificamente passeando entre os prédios novos, de cor clara e dois andares, agradáveis portanto, de novo, no que seriam áreas verdes internas, ausência de árvores. Uma ou outra espaçadamente plantada. Pensei, e falei: "mas aqui deveria haver era pequenas amostras de sistemas agroflorestais!". Imagina: entrar numa instituição de conhecimento científico e topar com pequenos sistemas diversos, a riqueza da floresta e do conhecimento humano associado a ela (pensando aqui nas plantas cultivadas) representadas em miniatura, uma espécie de bonsai da floresta. Bom, talvez isso já esteja começando a acontecer, pois vi bananeiras plantadas (na foto, bem ao fundo). De toda forma, o entorno do campus é inspirador, pois há uma matinha muito atrativa. Vale lembrar que o Campus Floresta da UFAC é um dos filhos que vingou da proposta de uma Universidade da Floresta, cujo mote inicial foi o intercâmbio entre conhecimentos nativos e científicos. Na construção, pelo menos, esta troca (ainda) não está espelhada.

Quero deixar claro que gostei muito de ter estado no Campus Floresta, encontrado colegas valorosos e que apostam suas vidas profissionais na região. Gente que veio de longe e que está dando o melhor de si para que a região do Juruá possa contar com uma instituição de ensino e pesquisa de qualidade. Vi isso no concurso, nas bancas de que participei e nos contatos e conversas que tive com alguns professores, como a Heide (na foto à esquerda, comigo, Maria e Selmo, já no aeroporto, na hora de ir embora) e o Marcus Athaydes, entre outros que infelizmente não recordo os nomes. Esclareço ainda que estou louca pra ser convidada a dar aulas lá, e espero que esta postagem não seja mal interpretada por meus colegas de Cruzeiro.

Tem algo na cultura universitária (talvez não só da UFAC), e na burocracia, que amarra idéias, enquadra propostas inovadoras, e nesta rigidez perde frescor e inteligência. E o resultado é que habitamos ambientes áridos e calourentos, uma tendência, inclusive, que ameaça toda a Amazônia. Precisamos ir na contra-mão!

4 comentários:

Débora Almeida disse...

Progresso é árido? Desenvolvimento é asfalto? O que essa construção revela sobre o paradigma das pessoas que estão dirigindo esse espaço? Tão lindo seria que entre os blocos, na sombra da agrofloresta, bancos e redes convidassem para tertulias, descanso, estudos... tão lindo seria se mais pessoas se contaminarem de amor pelas árvores... pela sombra... pelo bem estar... pela floresta.

Athaydes disse...

Estamos indo e resistindo ali na contramão da idéia dos engenheiros que planejaram o Campus Floresta; estes por sua vez, até tentaram, ou tentam, ir contra a ética reinante da sua profissão, mas no fim so pensam no concreto e não onde e de que forma este irá se harmonizar com as sempre curvas curvas da natureza.
Estamos resistindo ali na contramão das idéias de alguns que um dia falaram:
- Me mudar lá pro meio daquele Mato? É tão longe; prefiro não...
Na contramão de uma burocracia que pega pior que visgo de jaca, engessa, empaca. Faz concursos serem cancelados ou suspensos, aprova o planejamento insustentável de suas construções, não possui uma política ambienta, um plano de gestão ambiental, quanto mais a idéia de árvores nos Campi, e ainda mais...
- Aqui vocês ficaram tão prejudicados, tão longe aqui, no meio deste mato todo...
Muitas Universidades começaram com seus campi no meio do nada, UFRGS (Agronomia, depois o Campus do Vale), A Unicamp, A UFRJ, com o Fundão...depois o local onde elas se instalaram virou pequenas cidades universitárias, com intensa urbanização ao redor..
O avanço da cidade está pronto pra chegar junto ao Campus Floresta..queremos ele ainda floresta..mas com ainda MAIS FLORESTA !!
Athaydes

morenocris disse...

Feliz Natal, Mariana e família.

Beijos.

Aleta Dreves disse...

Panpan faltou eu na foto :( beijos