quinta-feira, 17 de abril de 2008

Iceberg amazônico


Estou meio pasma com o que está acontecendo em Roraima, longíquo estado brasleiro (pra quem mora mais pro sul do país; aqui do Acre até que é perto), que raramente é notícia.

Roraima virou palco de discussão sobre a soberania nacional. Tudo isso por causa, pode-se dizer, de seis arrozeiros - os ditos habitantes não-indígenas que estariam, a seu ver, injustamente sendo retirados da área da Terra Indígena legalmente identificada e demarcada. Pergunta: quem chegou primeiro ali na área? Ao que me consta, os índios (hoje contabilizados em 18 mil, e notem que 18 mil não são seis). Esses empresários do arroz adquiriram suas terras, segundo também tem sido noticiado, após o processo de identificação da TI ter sido iniciado. Eles sabiam onde estavam pisando. Confiaram em sei lá o quê, no seu poderio econômico e político, nos seus aliados parlamentares, essas coisas. E também, provavelmente, nos militares, que estão alvoroçadíssimos e não param de falar na ameaça a "soberania nacional" que a homologação da TI Raposa Serra do Sol significará.

Soberania nacional? Como assim? O que se entende por isso? Eles e outros acham, pelo que tenho lido nos jornais, que está em curso como que um movimento federativo, ou o surgimento de territórios dominados por nações que não se considerariam brasileiras, e sim indígenas. Um perigoso autonomismo, um risco para o país, parecem temer. Paranóia, é uma das coisas que me parece. Pra quem não sabe ou atentou, TIs são propriedade da União, que entra e sai de lá a hora que bem entender. Vocês acreditam que tem um senhor chamado Demétrio Magnoli que publicou um artigo do jornal "Estado de São Paulo" falando que a retirada de não-indígenas corre o risco de se transformar na "primeira guerra étnica no Brasil"? Ou é puro correio da má notícia (popular fofoca de notícia ruim), ou mesmo ignorância. Nos últimos 500 anos se houve algo que possa ser chamado de guerra étnica foi justamente por nós, brancos, promovida contra os nativos da terra que virou Brasil. Haja paciência, e maledicência.

Lembro vagamente (eu era mais nova e menos ligada nesses assuntos) de que o mesmo tipo de conversa rolou quando a TI Yanomami estava sendo homologada. Havia uma corrente que queria que "ilhas" descontínuas de terra fossem demarcadas, e não um território contínuo, igual agora no caso da Raposa Serra do Sol. A proposta das "ilhas" acabou sendo derrubada, e os Yanomami ficaram com o seu território livre de enclaves brancos. Livre em termos, pois foram assediados de todas as maneiras pela mineração em sua TI. Uma tragédia. Bom, talvez em Roraima o arroz seja só a ponta do iceberg...

Vejam o que li hoje: a TI Raposa Serra do Sol e seus 1,7 milhão de hectares, além de terras ao que parece propícias para a agricultura empresarial, também é rica em minérios... No Congresso, já há algum tempo existe um grupo suprapartidário trabalhando para aprovar um projeto que libera a mineração em terras indígenas, e não só em Roraima. Estão jogando duro para aprovar isto este ano, e com apoio governamental. Pra quem não se lembra, o senador Romero Jucá (PMDB), de Roraima e atual líder do governo, é o autor da primeira versão do texto, que há 11 anos tramita na casa. Este iceberg é dos grandes... Puro acaso o Supremo Tribunal Federal ter suspendido temporariamente a remoção dos (seis) moradores não-indígenas da Terra Indígena? Por que os militares (Exército e Polícia Militar) se recusaram a apoiar a operação de retirada dos não-indígenas que a Polícia Federal estava executando na TI?

E o governo, o que faz este governo de meu Deus? (de meu Deus não, desculpe, pois Este não se mete nesses loucos assuntos terrenos) O Ministro Tarso Genro, da Justiça, ao que parece deu mole, e quando resolveu endurecer com os arrozeiros estes já estavam literalmente armados (bombas caseiras & cia - por que os militares não deram em cima desses "guerrilheiros subversivos"?) e articulados. Sei lá, o negócio tá esquisito e o iceberg cresce a cada dia...

E lá, na TI, o que está se passando? O que dizem os seus legítimos moradores? O que será que eles estão pensando de tudo isso? Incrível como essas vozes mal chegam a nós, que não paramos de falar deles e de suas terras. Fico até com vergonha de estar participando deste falatório...

Um comentário:

Lindomar disse...

Cara Mariana,

Tem mesmo muita coisa estranha neste cado da TI Raposa Serra do Sol. O que mais me incomoda é ver os 'milicos' falando em soberania nacional e apoiando vergonhosamente grupos terroristas armados que querem se apropriar de parte significativa de nossa fronteira e ainda são chamados, os terroristas, de "empresários". Os militares não estão só com paranóia, estão defendendo e dando sustentação à milícias armadas (anti)nacionais. É de uma irresponsabilidade quase inacreditável.
Enquanto isso o governo assiste a tudo de cima do muro. E a casa maior da (in)justiça brasileira? Que vergonha!!

Bom trabalho

Lindomar Padilha