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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Essa é boa!

Não acreditei quando li as ameaças do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, de que as medidas antidesmatamento que o governo está para baixar – como a que bloqueia o crédito de produtores atuando na ilegalidade – podem comprometer o abastecimento e vir a aumentar o preço da carne bovina, largamente consumida pela população brasileira. "Com toda a certeza, isso vai pesar na crise da falta de alimentos e na elevação do preço", disse o governador, em audiência pública na Câmara dos Deputados. É muita audácia! Aliás, essa turma do agrobusiness estão me saindo é uns terroristas muito competentes no ramo, que pelo visto está fazendo escola: primeiro foi o Quartiero, lá em Roraima, com bombas caseiras e tudo, atentando contra a legalidade de forma violenta e ostensiva – e logrando paralisar o processo da TI Raposa Serra do Sol que já se encontrava nos seus finalmentes, com todas as etapas legais cumpridas. E agora o Maggi, com seus torpedos que trazem a mensagem: para o povo comer, a lei não pode valer; ou a floresta ou a fome; ou a floresta ou a carestia; “bois piratas” na panela do povo!

Bois piratas... agora a culpa é dos pobres, que de toda forma vão morrer, culpados ou inocentes. E olha que segundo o mesmo Maggi são 10 milhões só em Mato Grosso. De acordo com o Ministério da Agricultura, neste estado 56% das cabeças de gado estão pastando em áreas que estão dentro do bioma Amazônia. E vocês acreditam que o Maggi, também em Brasília, se juntou ao seu colega Ivo Cassol, de Rondônia, e ambos vieram com a conversa de que o desmatamento em seus estados está caindo. Bom, só se for porque quase não tem mais floresta! Informação pirata, como diz uma amiga. Como é que vai desmatar se não tem... Caindo ou não, estes dois estados, junto com o Pará, até onde eu sei, são campeões de taxas de desflorestamento na Amazônia. É aquela história do rei que está nu, só ele mesmo não vê, ou não quer ver, ou não está nem aí. Sei lá.

Mas eu acho mesmo que ao invés da gente ficar batendo palma para a atitude do Maggi de ficar de bem com o Carlos Minc, dizendo que a Polícia Militar no seu estado vai ajudar no combate aos crimes ambientais, a gente tem mesmo é que parar de comer carne. Sério, gente. Temos que parar de engordar o bolso deste negócio que está colocando a nossa floresta abaixo. É uma boa causa, para não falar nas questões de saúde. A criação de gado é altamente impactante, não só para a mata, mas para os recursos hídricos, na concentração fundiária e por aí vai. E para a saúde também, não é lá essas coisas.

– Ah, mas é tão bom, me dizem os meus alunos na Ufac, uma picanha, hum... Acho isso uma fraqueza.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Pérolas e abóboras

Segundo jornais do sul do país, Lula ontem soltou uma nova pérola. Primeiro disse que a preocupação com a preservação da floresta não pode impedir o desenvolvimento da região Norte. Caso isso não ocorra - o desenvolvimento - corremos o risco de sermos, moradores da região, "segregados" . E arrematou: "Moram lá quase 25 milhões de habitantes, que querem ter acesso aos bens que nós temos aqui no Rio, em São Paulo". Pulei na cadeira: péra lá, seu presidente, eu não!!!!

Querer toda a tralha desfrutada pelos cariocas e paulistas aqui? Hum... Mas a que "bens" estaria Lula se referindo? Carros (disso ele entende)? Eletrodomésticos? Já temos, obrigado. Asfalto, estradas? Bom, aí já tem uma turma que quer (não é a minha turma). Que mais? Eletrificação pra ver TV? Só se não for de hidroelétrica que mata bagre e alaga terras de populações tradicionais, e se não for pra ver TV! Saneamento? Ah, isso é importante. Enfim, a que estaria se referindo o nosso presidente quando fala em "desenvolvimento"? Urbanização? Indústrias? Agrobusiness? Tendo a achar que a cabeça dele vai mais por aí. Se não fosse, ele teria segurado a Marina lá, teria sido mais educado e dado pancada é nos outros, e não nela.

Esta conversa de desenvolvimento vai longe. Desenvolvimento econômico - isto é uma obsessão. Mesmo quando o pessoal faz projeto pra manter a floresta em pé, tá lá: manejo e comercialização e produtos florestais, acesso ao mercado, cadeia produtiva... O projeto nem começou, as populações locais nem sabem direito do que se trata, mas as metas já estão estabelecidas. Olha, não é mole não, e raramente dá certo. Injustiça o que estou dizendo? Talvez, talvez.

Desenvolvimento é o povo feliz. Meios econômicos são justamente isso, meios, e não fins. A finalidade é a felicidade. É aquele menino tão inteligente poder ter a chance de virar cientista; e aquele outro que não suporta ir pra escola, poder ficar na mata ou na roça e se sustentar dignamente. Não é todo mundo rezar na mesma cartilha. Cada um é de um jeito. Fico desolada quando vou no seringal e vejo o povo estudando naquelas escolas, aprendendo Deus sabe o quê e querendo arrumar um emprego. A felicidade é um salário. Escravização voluntária. Será que o Lula quer isso? Todo nós, escravos voluntários do sistemão?!

Tô fora! Tô tentando ao menos...

Pensando bem, não dá pra falar em pérola. Pérolas se criam a partir de grãos de areia, são gestadas no interior de conchas, no mar. Pérolas são formas redondas perfeitas. São lindas. Ah, elas não merecem estar metidas nesses emboglios discursivos. O que o Lula falou foi mesmo um abobral, que me perdoem as abóboras.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Jantar hibridizado

Pense na seguinte situação, vivida ante-ontem aqui em casa: eu, do Rio de Janeiro, Murilo, de Brasília – ambos vivendo no Acre, eu no leste, ele no oeste. A proposta gastronômica: “sushi heterodoxo”.

Posta a mesa, nos deparamos com os seguintes e híbridos itens:

- algas nori, do Japão, é claro, sem sombra de dúvida;
- gengibre em conserva, comprados numa loja japonesa (no Rio de Janeiro!);
- raíz forte, num tubo parecido com o de pasta de dente, importado do Japão e encontrado numa prateleira do supermercado Araújo, aquele ali da avenida Isaura Parente, aqui em Rio Branco;
- shoyo, de uma marca brasileira;
- manga, diretamente do Araújo, mas original da Índia;
- abacaxi, adquirido no mercadão da cidade;
- pepino, não o dito “japonês”, mas bem parecido, orgânico, adquirido no mercado de produtores aqui perto de casa;
- gergelim torrado, da Jasmine, marca de produtos integrais;
- arroz empapado, cozido com água (mineral, marca Verágua), vinagre (de arroz) e açucar (cristal), mas não o moti, e sim o integral, também da Jasmine;
- de talheres, “pauzinhos” de madeira, japoneses, e um garfo – tem hora que é o jeito!;
- pra beber? Um vinho argentino, tinto, bem razoável.

domingo, 14 de outubro de 2007

É fantástico?

Acabo de ver uma reportagem no Fantástico sobre mudanças climáticas. É de domínio público a dramática situação em que nos encontramos no planeta. Pois bem, a uma determinada altura da reportagem, foram elencados duas causas principais de tanta alteração climática e ameaças ao meio ambiente (lixo, escassez de recursos etc). Não lembro se a palavra foi “causas”, mas eram dois pontos que precisam, na opinião do programa, serem enfrentados e para os quais soluções são urgentemente necessárias. Superpopulação e concentração de gases na atmosfera. Estavam ali os dois vilões do nosso drama atual.

Mas será possível, pensei, que meus amigos Kontanawa, que vêem com bons olhos o crescimento demográfico de seu povo com o expressivo nascimento de novas crianças, estejam entre os culpados do aquecimento global? Alegrar-se com o crescimento demográfico é comum entre povos e minorias que começam a se reerguer de anos de massacre e subjugação. Quanto aos gases na atmosfera, bem, entendo que são antes efeitos e não causa, ou seja, há uma relação de causalidade aí que parece estar invertida. Como e por quê aqueles gases foram e estão indo parar na nossa atmosfera? Acho que esta é a pergunta.

Por que não se fala uma palavra de todo o sistema que está por trás de tudo isso? De toda indústria de consumo e de guerra que ganha muito com tudo isso? É como se nosso mundo capitalista fosse algo “natural”. (Alguém já viu “The Corporation”?) Os gases na atmosfera são as flatulências de toda esta grande engenhoca. A (super)população, o mercado consumidor. Lá na Restauração, no alto rio Tejo, o lixo aumentou, é verdade, e plásticos são cada vez mais frequentes. Mas se os moradores compram é porque tem quem produz, divulga e vende aquela porcaria toda.

E aparecia o sr. Wilson dizendo, como tantos outros, que não precisamos parar o desenvolvimento, e sim fazer com que ele seja sustentável. Alguém consegue acreditar que é possível uma economia capitalista sustentável? Quem quiser, venha a Rio Branco e assista as carretas transportando madeira no verão – onde que aquilo pode durar para sempre? Ah, que saco...