O Encontro foi uma experiência de cartografar e estimular consórcios de conhecimentos e conhecedores na região do Vale do Juruá acriano. (Foto: Enaiê Apel) |
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A idéia de “des-matamento”
como um “des-conhecimento” foi explorada. Acima, Antonio Texeira da Costa,
conhecido por Caxixa, líder do Grupo Vida e Esperança. (Foto: Enaiê Apel)
Para tal, estiveram presentes no Encontro 35 pessoas, entre pesquisadores da floresta e da academia. Da floresta vieram agentes agroflorestais, professores, artistas, inventores e agricultores, todos envolvidos em experiências autorais que apontam para alternativas de vida e futuro na floresta, da floresta e para a floresta. Junto com antropólogos e biólogos, entre outras formações acadêmicas, procurou-se discutir a própria ideia de “conhecimentos tradicionais”, sua dimensão política como alternativa a processos de desmatamento e a proposta de uma rede que possa divulgar essas experiências e potencializar a atuação conjunta.
O Encontro propôs, portanto, um diálogo entre conhecimentos que têm vigência em diferentes espaços, obedecem a distintos pressupostos culturais e critérios de validade, e são produzidos em condições contrastantes entre si. Um, o dito tradicional, por meio do aprendizado cotidiano e direto, envolvendo muita troca e circulação livre de informação, e o outro, dito científico, requerendo salas de aula, muita leitura e escrita e uma apropriação privada do conhecimento produzido, cuja forma limite seriam as patentes. Por outro lado, ambos regimes de conhecimento requerem observação, experimentação e muita pesquisa, e neste sentido podem ser descritos como “científicos”.
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Realizar um diálogo mais simétrico e explorando possibilidades de tradução e composição foi um objetivo de fundo do evento, mesmo considerando todas as dificuldades que uma tal perspectiva enfrenta, em especial na universidade onde a ciência e suas verdades são produzidas.
Para desenhar o que foi pensando como uma cartografia de
rede e de conhecimentos, os grupos presentes foram convidados a apresentar suas
experiências. Estas foram entendidas como os próprios conhecimentos que esses
grupos detém e põem em ação. Por meio de desenhos, fotos, filmes e falas
representantes do Grupo Vida e Esperança, dos povos Kuntanawa (do alto rio
Tejo, dentro da Reserva Extrativista do Alto Juruá), Kaxináwa (dos rios Jordão,
Breu e Humaitá), Ashaninka (do rio Breu) e ainda o sr. Manoel Bezerra,
cientista nativo que trabalha com extração de óleos para fabricação de sabão e
sabonete, expuseram suas atividades, pesquisas e métodos.
Falas lideradas por pesquisadores acadêmicos (Mariana Ciavatta Pantoja, sobre a associação entre conhecimentos tradicionais e a floresta; Alfredo Wagner, sobre a dimensão política dos conhecimentos tradicionais; e Mauro Almeida, sobre a ideia de rede) ocorreram nos diferentes dias do Encontro e visaram provocar reações e participação dos presentes.
Se houve momentos em que se sentia a dificuldade pela qual uma tal conversa de saberes pode trafegar, houve outros em que as falas de sucederam, ou mesmo tomaram a palavra do “palestrante”, conduzindo o fio da conversa para um debate epistemológico. Na fala de Alfredo Wagner, por exemplo, a ideia academicamente tão falada de que conhecimentos tradicionais são um “campo de disputas” passou por diferentes entendimentos. A noção de que a tradicionalidade é uma “invenção” também enfrentou questionamentos.
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Jucelino Rodrigues, o Peba, do Grupo Vida e Esperança, antigo monitor socioambiental e defensor da Reserva Extrativista como uma alternativa de vida. (Foto: Enaiê Apel) |
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Aluna da UFAC e o professor Antonio Caxixa. (Foto: Enaiê Apel) |
Um espaço foi também reservado para que Alfredo Wagner, coordenador do PNCSA, expusesse para os presentes o projeto financiado pelo Fundo Amazônia que viabilizou não só o Encontro, como viabilizará alguns de seus desdobramentos ao longo deste ano e 2014. Dados sobre o orçamento total do projeto, itens financiados e valores, o custo do Encontro, entre outros, foram repassados aos presentes.