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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tribos urbanas

Chove no Rio desde ontem. Aquela chuvinha fina e que não pára. Tempo ideal para ficar em casa, lendo, dormindo, estudando, ouvindo música, escrevendo, enfim, aquela atividade concentrada gostosa. Pois é, mas tive que ir ao centro do Rio resolver umas coisas. Passei pelo centro e depois pelo Largo do Machado e Catete, dois bairros intermediários entre o centro a zona sul carioca. Não tive coragem de fotografar, mas vi coisas, atravessei fronteiras.

O centro do Rio está muito degradado. E já foi tão agradável! Hoje é um festival de camelôs e camelódromos, por todo canto. Muita gente andando, muita. Naquele aperto da chuva, guarda-chuva em punho, uma primeira cena chamou minha atenção: um homem, um mendigo, cujos pés eram negros, e que olhei para conferir se era um sapato, mas não, eram os pés mesmo, ele estava descalso. As calças compridas cobriam parte dos pés, arrastavam no chão, mas deu para ver os dedos e as negras unhas, que eram como patas. Foi forte, pois não vi um pé, e sim outra coisa.

Depois, no Largo do Machado, vi pessoas pedindo dinheiro na rua. Uns andando, outros no chão. Vi um negro, um senhor, que abordou outro senhor, branco, bem limpo e vestido, que só conseguiu reagir fingindo que não havia ninguém falando com ele. Duro de ver. Prometi a mim mesma que não procederia da mesma forma (mas já devo ter feito isso algum dia). Depois, em frente a uma drogaria mega que tem aqui (tal de "vovó Pacheco"), um rapaz comendo um sanduíche sujo com uma mão bem suja, unhas sujas, e um outro dormindo, todo encolhido e maltrapilho, descalso. Logo à frente, quando atravessei a rua, um homem, mendigo, comendo um pedaço de pão e usando uma lata de lixo como "mesa". Surreal, e nojento.

Que tribo é esta, fiquei me perguntando. Como definir estes seres, estas pessoas, que tipo de gente é esta? Veio primeiro uma idéia de "animalidade", vivendo como animais, como se diz. Mas não, nem animal vive daquele jeito, ao menos que esteja muito mal-tratado. Estas pessoas estão mal-tratadas. Uma degradação, uma degeneração de padrões de civilização? Outro tipo de gente, outros trajes, estratégias de sobrevivência, hábitos, códigos - uma sociedade das ruas. Sei lá que nome dar a essas tribos e territórios. Mas fiquei entre assustada e perturbada com o que vi. Pensando agora: será que esse povo acredita em Deus? O que pensam sobre isso? A que falanges pertencem? Em volta de alguns, digo mesmo, havia seres não visíveis.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ainda na mesma história

Em Paris faz frio. Hoje amanheceu fazendo 15 graus, em pleno verão. Sinceramente, fui pega de calças curtas. Uma das compras que fiz aqui e não esperava foram um sapato fechado e um casaco. Ontem, já na fase despedidas, pude fazer um passeio à pé, à noite, no Sena, vendo a Notre Dame. Nossa, que lindo! E frio. Choveu. O jeito foi correr para um café e ficar lá esquentando o corpo com um chocolate quente. De lá até o metro, mais frio. Cadê o sol, meu Deus?


Continuei pensando sobre as reflexões da postagem passada. Sabe, a vida aqui é muito confortável. Tem uma série de confortos materiais. Bom, claro que tudo isso custa, que há pessoas que acessam menos esses confortos. Você entra num supermercado, a seção de congelados é grande, de todo tipo; comidas prontas também, que é só chegar em casa, esquentar e comer; saladas prontas, ou mesmo já lavadas (as folhas). Queijos de todo tipo, formato e embalagens. Milhares de biscoitos, chocolates, yogurtes, produtos de limpeza e por aí vai. Talvez não muito diferente de um supermercado de um grande centro brasileiro. Na rua, as lojas tem uma sofisticação. São bonitas, bem ajeitadas. Os cafés, estes têm de todo tipo. As coisas funcionam, tem uma eficiência. O transporte público aqui em Paris é invejável; aqui não é preciso ter carro, uma maravilha. O que estou querendo pensar é que há um padrão de conforto material, acessível mediante desembolso financeiro, e que isso seria um valor da vida urbana européia. E que não se abre mão disso de uma hora para outra.


Muito do que se consome gera lixo; muito do que se consome está ligada a processos agroindustriais (e de sofrimento animal). Aqui é mais difícil uma coisa como a feira de orgânicos de Rio Branco, onde você vai e encontra o produtor, por exemplo. Percebi aqui como minha vida é diferente. Como meu consumo é diferente, como o que preciso para ser feliz é diferente. O que cada um acha que precisa para ser feliz? No Brasil, com seus PACs & Cia., seus políticos e elites, e seu povo que vê muita televisão, talvez esteja embutido um complexo de inferioridade do querer ser igual a Paris (ao Primeiro Mundo). A floresta, o pantanal, a caatinga e outros mais vão ter que se adaptar, se incluir (plano de inclusão ambiental!) e não nós, humanos brancos e civilizados, a eles - isso é o que parece. Realmente, se é assim, somos mesmo Terceiro Mundo, atrasadinhos e tapadinhos.

domingo, 22 de junho de 2008

Pra onde caminha a humanidade?


Esta semana que passou fui ver um filme incrível - incrível e terrível. Chama-se "O Pesadelo de Darwin", e realmente cheguei a pensar em acordar daquele sonho terrível abandonando a sala de projeção. O filme, ou melhor, o documentário, de 2004, é do diretor Haubert Sauper, um austríaco que já rodou muito estudando, dando aulas e, claro, filmando. "O Pesadelo de Darwin" foi premiadíssimo em vários festivais, concorreu a Oscar de melhor documentário e por aí vai.

Tudo se passa na Tanzânia, numa aldeia, Mawanza, as margens do lago Vitória. Este, eu não sabia, é o segundo maior lago do mundo e acredita-se que ali foi o berço onde veio à luz a humanidade, ou seja, todos nós. Ali está também a nascente do Nilo. Pois bem, neste local repleto de densas referências, nos anos 60 do século XX, por razões que não ficam muito claras, foi introduzida uma espécie exótica no lago, a perca do Nilo. Este peixe, enorme, revelou-se um predador de marca maior, comeu todas as outras espécies e se reproduziu a valer no lago.


Além de um evidente desastre ecológico, tudo isso resultou num desastre humano, resultado da inserção de Mawanza na economia globalizada. A perca virou o carro-chefe da economia local, o que significou a instalação de indústrias de processamento de sua carne e transformação em filés para exportação para os países do Norte. Essas indústrias não pertencem a africanos, que são antes seus empregados. O transporte para os países compradores do Norte é feito em aviões russos que pousam e decolam sem parar, e que nos intervalos frequentam os bares locais. Suspeita-se que quando pousam trazem armas. Os moradores locais estão todos, de alguma forma, enredados nesta teia: os pescadores, muitos deles ex-agricultores do interior, pescam para vender para as indústrias; as prostitutas servem aos pilotos dessas aeronaves; as crianças moram nas ruas ou em condições muito difíceis; os doentes, nos acampamentos de pescadores, morrem de males como a AIDs. Todos, é o que parece, passam fome. O peixe é caro, então existe ainda uma subindústria dos restos dos peixes, cujas imagens são revoltantes - revoltam o espírito e o estômago. Só vendo.


Tem uma cena em que um pescador fala do tipo de "seleção natural" que estaria ocorrendo ali, na qual os mais fortes, que são os países do norte (que transportam e comem o peixe), subjugam os mais fracos, que são os próprios africanos, que extraem mas não usufruem de qualquer benefício significativo do seu trabalho. Antes parecem atrelar-se cada vez mais a dominação ali instalada. O vigia da indústria de filés ganha US$1 por noite, e sonha que uma guerra estoure, pois assim poderá ter um soldo e comida regulares. É um cara bem inteligente e com um intrigante sorriso quase permamente no rosto. Um rapaz, ex-menino de rua que conseguiu escapar do destino a ele reservado, vale-se da pintura para exorcizar a dura realidade e retratar o que acontece a sua volta. Crianças brigam por comida, se degladiam em torno de uma panela de arroz, e no final há aquelas chorando... Enfim, um pesadelo.

Mas o filme não é apelativo. Não, não se trata de sensacionalismo ou algo do gênero. Inclusive não há uma narrativa que vá conduzindo. Simplesmente as imagens e os personagens vão falando e o espectador vai montando o quadro todo. Há personagens humanas de muita força e sensibilidade. E há aquelas coisas que a gente fica até com vergonha, como uma reunião da IUCN ou do Banco Mundial (não que essas coisas sejam propriamente comparáveis) na qual aquela realidade tão crua passa ao largo da discussão toda.

Fiquei pensando na civilização humana, no que estamos construindo e legando. Aí sim fiquei com vergonha, e pensando no valor da vida, no valor de se viver neste mundo. É, foi meio forte a coisa. Recomendo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Essa é boa!

Não acreditei quando li as ameaças do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, de que as medidas antidesmatamento que o governo está para baixar – como a que bloqueia o crédito de produtores atuando na ilegalidade – podem comprometer o abastecimento e vir a aumentar o preço da carne bovina, largamente consumida pela população brasileira. "Com toda a certeza, isso vai pesar na crise da falta de alimentos e na elevação do preço", disse o governador, em audiência pública na Câmara dos Deputados. É muita audácia! Aliás, essa turma do agrobusiness estão me saindo é uns terroristas muito competentes no ramo, que pelo visto está fazendo escola: primeiro foi o Quartiero, lá em Roraima, com bombas caseiras e tudo, atentando contra a legalidade de forma violenta e ostensiva – e logrando paralisar o processo da TI Raposa Serra do Sol que já se encontrava nos seus finalmentes, com todas as etapas legais cumpridas. E agora o Maggi, com seus torpedos que trazem a mensagem: para o povo comer, a lei não pode valer; ou a floresta ou a fome; ou a floresta ou a carestia; “bois piratas” na panela do povo!

Bois piratas... agora a culpa é dos pobres, que de toda forma vão morrer, culpados ou inocentes. E olha que segundo o mesmo Maggi são 10 milhões só em Mato Grosso. De acordo com o Ministério da Agricultura, neste estado 56% das cabeças de gado estão pastando em áreas que estão dentro do bioma Amazônia. E vocês acreditam que o Maggi, também em Brasília, se juntou ao seu colega Ivo Cassol, de Rondônia, e ambos vieram com a conversa de que o desmatamento em seus estados está caindo. Bom, só se for porque quase não tem mais floresta! Informação pirata, como diz uma amiga. Como é que vai desmatar se não tem... Caindo ou não, estes dois estados, junto com o Pará, até onde eu sei, são campeões de taxas de desflorestamento na Amazônia. É aquela história do rei que está nu, só ele mesmo não vê, ou não quer ver, ou não está nem aí. Sei lá.

Mas eu acho mesmo que ao invés da gente ficar batendo palma para a atitude do Maggi de ficar de bem com o Carlos Minc, dizendo que a Polícia Militar no seu estado vai ajudar no combate aos crimes ambientais, a gente tem mesmo é que parar de comer carne. Sério, gente. Temos que parar de engordar o bolso deste negócio que está colocando a nossa floresta abaixo. É uma boa causa, para não falar nas questões de saúde. A criação de gado é altamente impactante, não só para a mata, mas para os recursos hídricos, na concentração fundiária e por aí vai. E para a saúde também, não é lá essas coisas.

– Ah, mas é tão bom, me dizem os meus alunos na Ufac, uma picanha, hum... Acho isso uma fraqueza.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Pérolas e abóboras

Segundo jornais do sul do país, Lula ontem soltou uma nova pérola. Primeiro disse que a preocupação com a preservação da floresta não pode impedir o desenvolvimento da região Norte. Caso isso não ocorra - o desenvolvimento - corremos o risco de sermos, moradores da região, "segregados" . E arrematou: "Moram lá quase 25 milhões de habitantes, que querem ter acesso aos bens que nós temos aqui no Rio, em São Paulo". Pulei na cadeira: péra lá, seu presidente, eu não!!!!

Querer toda a tralha desfrutada pelos cariocas e paulistas aqui? Hum... Mas a que "bens" estaria Lula se referindo? Carros (disso ele entende)? Eletrodomésticos? Já temos, obrigado. Asfalto, estradas? Bom, aí já tem uma turma que quer (não é a minha turma). Que mais? Eletrificação pra ver TV? Só se não for de hidroelétrica que mata bagre e alaga terras de populações tradicionais, e se não for pra ver TV! Saneamento? Ah, isso é importante. Enfim, a que estaria se referindo o nosso presidente quando fala em "desenvolvimento"? Urbanização? Indústrias? Agrobusiness? Tendo a achar que a cabeça dele vai mais por aí. Se não fosse, ele teria segurado a Marina lá, teria sido mais educado e dado pancada é nos outros, e não nela.

Esta conversa de desenvolvimento vai longe. Desenvolvimento econômico - isto é uma obsessão. Mesmo quando o pessoal faz projeto pra manter a floresta em pé, tá lá: manejo e comercialização e produtos florestais, acesso ao mercado, cadeia produtiva... O projeto nem começou, as populações locais nem sabem direito do que se trata, mas as metas já estão estabelecidas. Olha, não é mole não, e raramente dá certo. Injustiça o que estou dizendo? Talvez, talvez.

Desenvolvimento é o povo feliz. Meios econômicos são justamente isso, meios, e não fins. A finalidade é a felicidade. É aquele menino tão inteligente poder ter a chance de virar cientista; e aquele outro que não suporta ir pra escola, poder ficar na mata ou na roça e se sustentar dignamente. Não é todo mundo rezar na mesma cartilha. Cada um é de um jeito. Fico desolada quando vou no seringal e vejo o povo estudando naquelas escolas, aprendendo Deus sabe o quê e querendo arrumar um emprego. A felicidade é um salário. Escravização voluntária. Será que o Lula quer isso? Todo nós, escravos voluntários do sistemão?!

Tô fora! Tô tentando ao menos...

Pensando bem, não dá pra falar em pérola. Pérolas se criam a partir de grãos de areia, são gestadas no interior de conchas, no mar. Pérolas são formas redondas perfeitas. São lindas. Ah, elas não merecem estar metidas nesses emboglios discursivos. O que o Lula falou foi mesmo um abobral, que me perdoem as abóboras.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Madeirocídio 2


A matança continua. Na semana que passou, no Pará, começaram a aparecer indícios sobre a origem da madeira ilegal que as empresas madeireiras movimentam – e enterram. Novas toras de madeira foram encontradas em Tailândia da Floresta da Amazônia, desta vez enterradas sob um milharal. Novos “corpos” encontrados, num contínuo de acontecimentos que faz com toda situação beire ao bizarro. A quantidade de madeira ilegal apreendida já beira aos 20 mil metros cúbicos. Nem sei como contabilizar isso...

Gente, o negócio fede mesmo... que cheiro será este? De enxofre, diria um amigo que anda fazendo análises políticas repletas de referências bíblicas. De enxofre ou não, o “pixé”, como se diz por aqui sobre o mau cheiro, é forte.

O leitor que me desculpe, mas não consigo não ter nojo de tudo que tenho lido e ouvido. E não consigo me comover com a crise no mercado de trabalho que se abateu sobre Tailândia – era o dinheiro da matança de árvores que sustentava a cidade. Desculpem-me os “tailandenses da floresta da amazônia”: não esperem, por hora, qualquer solidariedade de minha parte. Estou mordida, fera ferida.
E o negócio é ardiloso, repleto de má intenções, acusações e de jogos de palavras – a que uma certa imprensa se arvora em reproduzir. E o correio da má notícia corre solto – e eu devo tomar cuidado para não participar dele.

O que se anda dizendo é que, assim como existem “sem terra”, existiriam os “sem tora”. As informações são meio confusas, mas a idéia é que grupos de posseiros, financiados por madeireiras e munidos de moto-serras, “invadem” áreas de floresta primária e passam a derrubar as árvores a serviço das madeireiras. Não entendi se ficam ou não depois na área, mas talvez sim – só que “sem tora”. São pagos para isso, ou pelas toras. O que quer dizer tudo isso?

Além de confusa, incomodei-me com esta associação inevitável entre “sem tora” e “sem terra”, estes do MST e que costumam sair na imprensa quando ocupam uma fazenda e reivindicam sua desapropriação para fins de reforma agrária. A notíca acima, divulgada num importante jornal paulista (FSP), insinuaria a cooptação de grupos de agricultores (posseiros) por empresas que trabalham na ilegalidade. Mas “sem tora”? Que agricultor se reúne para ocupar uma área visando as toras de madeira? Não consigo acreditar que em posseiros demandando “toras”, e sim terra.

Esta notícia dos “sem tora” veio em meio a uma outra, no mesmo jornal, acusando o Incra de ter criado uma série (mais de 100) assentamentos irregulares no Pará, sem licença ambiental, e suspeitos de esconderem por trás de si interesses madeireiros. Ou seja, cria-se assentamentos não por pressão dos agricultores sem terra (ou posseiros), mas das madeireiras sem tora. É isso: quem é “sem tora” são as madeireiras. Se alguma associação pode ser feita, é a da presença de um Movimento das Madeireiras Sem Tora, mas que, ao contrário do MST, não se declara enquanto tal e age corrompendo agentes do Estado. Como os posseiros entram aí? Certamente, acredito, manipulados, por ambos os lados, Estado e empresas. Ai, este balseiro parece ser dos grandes, cheio de pau pra gente se enganchar!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Madeirocídio?

Li uma notícia que me deixou com um gosto amargo na boca, e umas associações meio macabras na mente: genocídios, holocaustos...

A notícia, que li no “Manchetes Ambientais”, do ISA, diz que quinta-feira passada, dia 13 (este número é forte!), fiscais do Ibama, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) e da Polícia Ambiental do Pará descobriram numa serraria no Município de Tabatinga (Pará, e não Amazonas) 300 toras de madeira nobre extraídas, claro (!), ilegalmente. Mas o que causou-me mais espanto foi que estas mesmas toras, que um dia já foram árvores, estavam enterradas! Não é sinistro? Ocultação de “cadáveres”, foi a frase que me veio...

Como se não bastasse, no mesmo dia 13, num milharal próximo a Tailândia da Floresta da Amazônia (quem se lembra?), fiscais dos mesmos órgãos acima citados, num sobrevôo, localizaram entre 300 e 500 toras abandonadas, diz o jornal. “Desovadas”, foi a associação que fiz.

Toras enterradas e abandonadas – em ambos os casos, escondidas dos olhos públicos. Este capitalismo é selvagem mesmo: ao arrepio da lei mata as árvores, as transforma em toras e as trata como entes de segunda (quiçá terceira ou quarta) categoria. Achei tão desrespeitoso, fiquei profundamente indignada. Isso não está certo. Não pode estar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Carta Aberta dos Povos Xinguanos à Nação Brasileira

Nós, líderes máximos dos povos da civilização xinguana, reunidos na aldeia kuikuro de Ipatse, em 21 de julho de 2007, queremos compartilhar com a nação brasileira a grave situação vivida no Parque Indígena do Xingu (PIX). Nossa civilização milenar vem resistindo há quinhentos anos a guerras de conquista, escravização, epidemias e roubo de terras. Nos últimos anos, a irresponsabilidade social e ambiental na região das cabeceiras dos formadores do rio Xingu coloca em risco a nossa saúde e a continuidade de nossa cultura. O desmatamento acelerado e irracional, a expansão agrícola, o uso desmesurado de agrotóxicos e, agora, a construção de barragens vêm destruindo a própria base de nossa subsistência. A poluição das águas e a contaminação do pescado são uma ameaça para o nosso futuro, não apenas por serem eles condição de nossa reprodução física, mas também de nossa vida cultural. Vivemos milenarmente nesta bacia de forma sustentável e em dependência direta dos recursos aquáticos.

Como representantes legítimos dos povos xinguanos solicitamos o apoio de toda a nação brasileira e da comunidade internacional para resistirmos a mais uma ameaça que nos cerca. Já perdemos boa parte de nossas terras com avanço da fronteira econômica e, agora, a destruição irracional ingressa na terra que nos resta. Exigimos um plano global de gestão da bacia do rio Xingu, não apenas no interior do PIX, mas que abarque toda a região dos formadores. A destruição iminente da bacia atinge a todos nós, índios e não-índios, e em particular às gerações futuras. Não podemos esperar mais 10 anos. O dano ambiental será irreversível. Queremos ações já para preservar um patrimônio que não é só nosso, mas da nação e de toda humanidade.

Em particular, exigimos:

- a imediata paralisação de todas as obras de barragens na região dos formadores;
- uma moratória sobre as licenças para instalação de novas PCHs;
- um estudo detalhado sobre a condição da água e do pescado;
- um plano de reflorestamento das margens dos rios e de seus afluentes;
- a recuperação da posse de áreas tradicionais excluídas da área do PIX;
- o reconhecimento e preservação de nossos locais sagrados, Sagihengu e Kamukwaká, que se encontram fora dos limites do PIX.

Afukaká Kuikuro
Kuiusi Kinsêdje
Tahukumã Kalapalo
Kugikagé Kalapalo
Jumuí Mehinaku
Aritana Yawalapiti
Jamatuá Matipu
Tirifé Nahukwá
Itsautako Waurá

[Esta carta foi divulgada em julho de 2007, e ela deve ser relida à luz dos últimos acontecimentos no PIX, ou seja, a retenção pelos índios de pesquisadores da empresa Paranatinga Energia S.A. e funcionários da Funai em protesto aos impactos ambientais causados pela construção de uma central hidrelétrica no rio Culuene, pela derrubada de árvores e uso descontrolado de agrotóxicos nas cabeceiras deste mesmo rio. O rio Culuene é um dos principais formadores do rio Xingu, mas suas cabeceiras, como as dos demais formadores dos principais rios que banham o PIX, estão localizadas fora dele (do PIX) e têm sido duramente castigadas por desmatamentos e contaminações. Para saber mais, clique aqui.]

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tailândia é aqui

Tailândia da Floresta da Amazônia. Por que será este nome? Não consegui saber, mas de todo jeito é o município paraense que centralizou a primeira investida da operação “Guardiões da Floresta”, promovida pelo Ibama com apoio da Polícia Militar para reprimir o desmatamento e comércio de madeira ilegal. E foi mesmo um investida ao campo inimigo.

Tailândia da Floresta da Amazônia fica na rodovia PA 150, há uns 200 quilômetro da capital do estado, Belém. Tem cerca de 50 mil moradores. Ao que tudo indica, é a madeira – ilegal – o seu principal produto econômico, e as madeireiras o principal empregador. Quando a operação foi deflagrada, nesta última semana, logo de cara mais de 15 mil metros cúbicos de madeira ILEGAL foram apreendidos. Só uma madeireira, a Taiplac (Tailândia Lâmina e Placa Ltda) tinha no seu pátio 5,2 mil metros cúbicos cortados ilegalmente.

Mas o que são 15 mil metros cúbicos? Imagine 1 caminhão carregado de toras de madeira. Imaginou? Agora multiplique por 500 e você tem o que seriam esses 15 mil metros cúbicos. Sei lá, se em cada caminhão a gente colocar umas 6 toras (árvores abatidas), seriam umas três mil árvores de uma só vez! Além dessa apreensão absurdamente grande de madeira, no primeiro dia foram ainda destruídos 130 fornos clandestinos de carvão vegetal e mais de R$ 2 milhões em multas foram aplicadas.

Ou seja, o inimigo foi provocado. E reagiu. Rugiu.

No dia 19, ao que tudo indica com apoio e incentivo dos empresários madeireiros, moradores de Tailândia impediram que os 15 mil metros cúbicos de pura ilegalidade fossem retirados do Município. Queimaram pneus, ameaçaram os fiscais que comandavam a operação, ocuparam as vias de acesso as serrarias, uma loucura, quase uma guerra. Uma guerra pela floresta, fiquei pensando. O clima esquentou mesmo na Tailândia.

Não sei se os fiscais e agentes governamentais estão neste pique de guerrear pela floresta. No limite, estão cumprindo a lei. Já é alguma (grande) coisa. Mas imaginem: isso tudo num município só, lá do Pará. Mas o desmatamento conhece outros pontos críticos, como a Terra do Meio, no mesmo Pará, o estado do Mato Grosso com seus poderosos empresários do agrobusiness e outros investimentos, acredito mesmo que no setor madeireiro e pecuário – essas três coisas costumam andar juntas (como umas “irmãs Cajazeiras”, pra quem se lembra). E temos ainda Rondônia...

Vamos lembrar que estamos às vésperas de uma outra operação, a Arco de Fogo, esta voltada para combater o desmatamento na Amazônia como um todo. Os números do INPE e de outros institutos conceituados, como o IMAZON, são inegáveis: a floresta tá indo pro pau, como se diz. Tá sendo derrubada. Esta operação, que a Ministra Marina, e aqui vou defender, está lutando pra acontecer, apesar da não-posição do nosso presidente (valha-me Deus!) e de todos os percalços, como a falta de grana...Falta de grana, quem acredita? Pra defender a floresta, que o mundo todo diz que é a coisa mais importante!? Seria ridículo, se não fosse tão grave.

Se vamos mesmo combater a atividade madeireira ilegal, preparem-se para a guerra. Tailândia da Floresta da Amazônia, que daqui há pouco seria “Tailândia Desflorestada da Amazônia”, é só um exemplo, um piloto, digamos. Os moradores lá dizem, segundo a imprensa, que vão ficar sem emprego caso a atividade seja interrompida; o prefeito e políticos, que o município vai entrar em colapso. É, meu irmão, o negócio é sério. Desculpa aí, mas vamos mudar de vida. Quem quer mudar de vida?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Molho-Trisca


Cheguei há pouco da casa do Txai Terri, de um almoço preparado pelo Meirelles – “comida de índio”, como ele mesmo disse. O Meirelles é sertanista, José Carlos Meirelles (sem camisa na foto), já publiquei coisas dele aqui no blog, é um admirável escritor. Ele entende mesmo de “comida de índio”.

Sua carreira de sertanista já vem de longuíssima data. Começou lá no Maranhão, no tempo em que havia mais floresta por lá, em que havia grupos indígenas isolados – e eles assistiu ao fim de tudo isso: de muita mata e do isolamento voluntário desses grupos, resultando em geral num desastre para os próprios. Meirelles teme que o mesmo possa estar se repetindo no Acre, nas fronteiras Brasil-Peru, onde vive há cerca de 20 anos lutando para que índios isolados possam permanecer como tais.

O problema agora é que, mesmo com três Terras Indígenas criadas no Brasil para guarnecer territórios de perambulação de grupos em isolamento voluntário, no Peru parece que a desordem está grande, e madeireiras e traficantes de coca estão assolando a fronteira internacional. O resultado é que grupos indígenas isolados de lá estão migrando para cá, e começam a aparecer em aldeias de índios brasileiros já contatados, ou mesmo em localidades onde moram brancos. Há susto, medo e risco de violência. Por outro lado, começaram a aparecer também “índios” meio suspeitos, que ninguém sabe direito se o são mesmo ou com que intenção, e a mando de quem, entram no Brasil. Hoje em dia, no Alto Envira, desabafou Meirelles, ninguém sabe quem é quem...

Foi em decorrência desta situação de insegurança e suspeita generalizada que Meirelles, em seis de junho de 2004, tomou uma flechada quando estava pescando. Foi um baita susto, mas o cabra é macho mesmo e não correu. Ano passado, Meirelles se inscreveu ele mesmo e foi selecionado, em primeiro lugar, para o Prêmio Chico Mendes, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente. No final desta semana, Meirelles está indo para o alto rio Amônea, para participar de um encontro que pretende justamente discutir a fronteira Brasil-Peru e a ameaça que tem representado para os grupos nativos e os recursos florestais.

Hoje, então, à pedido do Txai Terri, o Meirelles fez um almoço para os amigos e amigas. Muita gente teve a felicidade e o privilégio de passar por lá. Consegui chegar por volta das 13:30 com a Ana Paula (à direita na foto), bem na hora em que um tambaqui e uma tilápia assados saíam da churrasqueira improvisada com tijolos e carvão. Rapidamente fomos servidas, Ana e eu. Em seguida chegou o Taska Yawaánawá, e depois o Toinho e a Selma (na foto, à esquerda). Meirelles nos explicou que o peixe fora assado sem qualquer tempero, e que já no prato o segredo era regá-lo moderadamente com o “molho-Trisca”. Hum, o que é isso?

Esta pergunta deu início a uma longa conversa culinária, e Meirelles deu-nos várias dicas de como preparar peixes. O negócio é o seguinte: o sal desidrata o peixe, e por isso não se deve salgá-lo quando o objetivo é assá-lo em churrasqueiras, ou seja, para que ele não desidrate e fique “duro”, ou “seco”. Simplesmente, depois de limpo, coloca-se o peixe para assar e pronto. Enquanto ele assa, prepara-se o molho-Trisca: água, sal, limão, azeite, temperos verdes (cheiro verde, salsa, manjericão, o que mais quiser), que será depois derramado (moderamente, com uma colher) sobre um peixe hidratado e macio. Uma delícia! Mas atenção: no caso de peixe cozido, o procedimento é outro: o negócio é salgar o peixe, e na hora de cozinhar, com a água já fervendo, colocar as postas, mas sem derramar aquela água salgada que o peixe acaba soltando. Depois de uns 10 minutos, o peixe deve estar pronto e durinho, sem desmanchar. Ah, ainda teve uma outra receita para assar peixe em forno caseiro, mas esta fica pra outra ocasião...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Ameaça na fronteira Brasil-Peru

O povo Ashaninka do Peru e do Brasil estará reunido entre os dias 24 a 28 de fevereiro na aldeia Sawawo, localizada no departamento de Ucayali (Peru), na fronteira com o estado do Acre, para um evento chamado de Encontro na Fronteira Brasil-Peru Comunidades Indígenas: Terra, Limites Fronteiriços, Convênios e Projetos.

O objetivo é discutir o impasse criado pela exploração madeireira na fronteira entre os dois países, os seus impactos socioambientais nas terras e comunidades indígenas e nos territórios dos índios isolados, como também discutir soluções de desenvolvimento não madeireiro.

Este encontro é organizado pela Apiwtxa com o apoio da CPI/Acre - Comissão Pró-Índio do Acre, do CTI - Centro de Trabalho Indigenista e da RCA - Rede de Cooperação Alternativa. Estarão presentes também organizações indígenas e indigenistas de ambos os países e contará com a participação do Governo Brasileiro, através da Coordenação Geral de Índios Isolados da Funai – Fundação Nacional do Índio.

A política ambiental do Governo Peruano é o que está motivando a realização do encontro. Essa política, através das concessões florestais, tem ameaçado a integridade do território de índios isolados, que fugindo dos desmatamentos, têm se deslocado em direção às Terras Indígenas do estado do Acre situadas na região de fronteira. A presença cada vez mais freqüente de grupos isolados nestas TIs é vista com apreensão pelos povos indígenas do lado brasileiro, cujos territórios delimitam a fronteira Brasil-Peru.

A invasão de madeireiros peruanos se intensificou a partir de 2000, com o regime de concessão florestal peruano e a promulgação da Lei Florestal no país. Desde essa época foram abertos dois concursos de concessão de lotes, permitindo aos madeireiros instalar empresas na região. O governo peruano, no entanto, não tem se mostrado capaz de fiscalizar a atividade madeireira dentro das concessões florestais: o Instituto Nacional de Recursos Naturales – INRENA (organismo do governo equivalente ao IBAMA no Brasil) não dispõe de estrutura adequada para realizar tal atividade; além disso, é notada a influência política dos madeireiros na região, seja em âmbito local ou departamental. O resultado são quilômetros de floresta devastada e a extração ilegal de madeiras nobres. Como no lado peruano algumas espécies de maior valor econômico já foram exploradas à exaustão, os madeireiros passaram a invadir a floresta do lado brasileiro.

Preocupados com esta situação, as lideranças indígenas e organizações da sociedade civil, brasileiras e peruanas, continuam se reunindo para discutir esses problemas, buscar soluções e exigir medidas governamentais para por fim nas ações criminosas que estão destruindo os povos que habitam a região da fronteira Brasil – Peru.

Para mais informações, consulte o blog da Apiwtxa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Final de dia

Sinto-me partida por dentro
E não sei como juntar os cacos da minha consciência
Quase muito pouca coisa faz sentido
E o refúgio do coração está desarrumado

Em meio a uma busca de sentido
- de um sentido meu -
tateio, tateio... todas as pistas me parecem enganadoras
Ah, que penso eu? Que sinto eu?

O sol, dourado, das 17 hs, é a única certeza.

(Salomé de los Rios)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Sobre tragédias e dependências

O Vale do Juruá está assolado por cheias: as conhecidas "alagações". Dá no rádio, na televisão, na internet. Há mais de 20 anos não se via algo nessas proporções. E como avisa um amigo, professor da Ufac, no momento em Marechal Thaumaturgo, o que mais impressiona é a velocidade com que as águas subiram. Marechal Thaumaturgo encontra-se hoje impressionantemente debaixo de muita água. Locais altos (e olha que o centro do município é num barranco medonho de alto!), estão quase atingidos pelas águas. Na foto acima, ao fundo vemos ainda a pista do aeroporto, estamos mesmo na foz do rio Amônea,e a placa que ainda aparece fica(va) no alto de um barranco. Casas estão submersas até quase seus telhados, muitas perdas para os moradores.

Este era o quadro que ontem ouvi num noticiário da Aldeia FM. Um membro da Defesa Civil, acho, ou da Prefeitura, já nem sei bem, falava das providências que se estava tomando para que as famílias fossem abrigadas, e mesmo alimentadas já que teriam perdido suas plantações e agora o poder público teria que garantir que tivessem o que comer.

Esta última parte me chamou atenção: o governo tem que alimentar essas pessoas, todas elas trabalhadoras, agricultores e criadores. Na hora não pude reprimir um pensamento: aprofunda-se a dependência dessas populações com relação ao Estado; perde-se em autonomia. Explico a linha de raciocício que me ocorreu:

Sempre houve alagações nos rios, sempre, desde que o rio é rio, e desde que as primeiras populações começaram a habitá-lo. Prefeitura, Defesa Civil, governo do estado & Cia. é que são coisas novas. Mas agora, imprescindíveis, ao que parece. O que mudou? Fico imaginando, e relembrando, pois lembro de uma alagação por volta de 1996 a que assisti no alto rio Juruá, que em tempos anteriores as casas eram de paxiúba e palha, e neste sentido mais, digamos, descartáveis, ou antes reconstruíveis. As criações - galinhas, patos e porcos, punha-se dentro de casa. Os roçados mais permanentes, sempre em terra firme, mais distantes das zonas alagáveis. O padrão de ocupação também era mais esparso, menos concentração de casas, de gente e menor impacto sobre o meio. As pessoas não tinham outra saída que não ajudar-se mutuamente.

Hoje, como conta o Marcus Athaydes, este amigo que falei há pouco, o desmatamento avançou incrivelmente, descascando a terra que, rapidamente endurecida por secas e usos inadequados, acabou perdendo sua capacidade de absorção das águas que caem e que enchem rapidamente a calha dos rios. Os rios também estão em processo de assoreamento, o que quer dizer que estão mais rasos. As pessoas moram mais juntas e usam mais intensamente o território: agricultura e pecuária implicam em desmatamentos. O gado, que fazer quando vem a alagação? Já pensou que loucura um boi dentro de casa? E agora as casas são de madeira serrada, do Incra, e o prejuízo, meu Deus, é grande. O que diz o contrato do Incra sobre alagações que destroem as casas? Tem seguro? As áreas mais distantes, onde ficavam os roçados, talvez estejam mais acessíveis a água, não sei, provável. Um monte de gente morando junto, privadas e lixo, já imaginou o caos quando vem a alagação? Enfim, parece que o modo de vida de hoje é bem menos sustentável do ponto de vista da alagação, que, por sua vez, ganhou força por todas as mudanças que este próprio modo de vida causou - e assim entramos na bola de neve.

Claro que o poder público tem que fazer o seu papel! Mas poderia ter feito outros papéis para impedir que chegássemos neste ponto, não? Mas que coisa louca: até eu estou me sentindo dependente do Estado!

domingo, 25 de novembro de 2007

Carta indígena - fronteira Brasil-Peru

24 de novembro de 2007

Aos Senhores Representantes de Instituições Governamentais, Não Governamentais e Organizações Indígenas do Brasil e do Peru

Nós, Asheninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia (Comunidade Apiwtxa) e da Asociación de Comunidades Nativas de Ashanínkas-Ashenínkas de Masisea y Callería (ACONAMAC), vimos, por meio desta, informar e manifestar a nossa mais completa oposição à exploração madeireira que afeta diretamente todos os povos da fronteira Brasil-Peru, sobretudo as nossas comunidades que se localizam na região da linha de fronteira Brasil-Peru.

1 - No lado brasileiro da fronteira, nós estamos, desde 1999, junto à Justiça e a vários órgãos do governo brasileiro tentando impedir que nossa fronteira seja invadida brutalmente por empresas madeireiras autorizadas pelo Governo peruano para exploração comercial em área de concessões florestal e em terras indígenas peruanas. Nós temos uma política que é proteger a nossa biodiversidade para garantir a nossa tradição, utilizar os recursos naturais sem causar desequilíbrio ambiental, que deve ficar por conta do processo natural do Planeta. A nossa vida sempre foi assim, mas não sabemos mais até quando vamos suportar.

2 - No lado peruano, ainda hoje temos os mesmos problemas que aconteceram no Brasil há vários anos atrás, os povos indígenas submetido a regras dos madeireiros, sofrendo violências e sendo alvo de enganação. Hoje, muitas comunidades vêem suas lideranças tradicionais trocadas por novos representantes, que são preparados por empresas somente para usar seu povo como mão de obra barata e fácil de enganar, para tirar proveito. Como exemplo, temos duas terras indígenas no lado peruano, Sawawo e Nova Shawaya, próximas ao marco 40, que firmaram convênio com a empresa Forestal Venao para explorar em suas terras vários tipos de madeiras nobres e ganhar uma porcentagem. Legalmente, as comunidades estão contratando os serviços da empresa e assumindo as conseqüências negativas que acontecem no âmbito local, e nunca aparece a realidade em que eles vivem, ganham uma pequena parcela do lucro, ficando este para os representantes comunitários que gerenciam de acordo com suas políticas. Na realidade, estão vitimando pessoas e povos com a violação de seus direitos. A Forestal Venao não é a única empresa, existem outras, como RuBem, Cabrera e outras, em que o trabalho é muito mais complicado e mantem um povo tradicional em um sistema de escravidão. Queremos uma intervenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

3 - Também temos visto e presenciado vários problemas de alcoolismo. O alcoolismo vem causando a desestruturação sociocultural do nosso povo, e gera pessoas que passam a ser destruidoras de suas próprias tradições e dos recursos naturais. O pouco dinheiro que ganham serve apenas para se prejudicar cada vez mais e ser mais dependente da exploração. Esse é um ciclo vicioso fomentado e imposto pelas empresas.

4 - No lado peruano, vários povos, assim como os Asheninka, há décadas vêm sendo usados para as frentes de exploração dos recursos naturais, muitas das vezes deixando suas terras de origem e acompanhando as empresas, eliminando vários conhecimentos do povo com relação à natureza e a nossa forma própria de utilizar os recursos naturais. Nessa luta, muitos povos também estão sendo eliminados. É o caso dos índios "isolados", as populações de índios em isolamento voluntário, que estão sendo mortas, sem que ninguém peça por eles. Nós presenciamos um fato de conflito entre nosso povo no Alto Juruá, no ano de 2003, onde tivemos depoimentos de Asheninka comentando que o conflito foi causado pelas empresas madeireiras, que expulsou os isolados de suas terras, matando vários deles.

5 - Também temos informações que grupos de exército Asheninka foram criados na época do Sendero para proteger o povo e hoje também são usados pelas empresas madeireiras, através das comunidades conveniadas, para vigiar seus trabalhos.

6 - O trabalho da empresa Forestal Venao, com duas comunidades aqui vizinhas à nossa, ganhou a certificação do padrão FSC. Nos perguntamos hoje se essa certificação foi dada para certificar o extermínio de várias espécies, florestais e animais. Também nos perguntamos se o plano de manejo certificado foi para invadir áreas da linha de fronteira e prejudicar diretamente o país vizinho e seus recursos, se foi para desrespeitar a faixa de 2 km (dois quilômetros) do trato de respeito à fronteira. Precisamos ver isso com mais atenção e mais detalhe, pois nessa região vivem seres humanos que precisam ser respeitados nos seus direitos. Também as Nações Unidas precisam ter conhecimento desse fato, e fazer valer o direito de cada povo ter direito à sobrevivência, não só o direito do homem sobreviver, mas o direito à proteção dos recursos naturais de que depende para viver, os rios, a flora e a fauna, que podem garantir, por fim, a vida do Planeta por mais tempo.

7 - No plano de exploração da Forestal Venao tudo parece perfeito, mas, na prática, a sua forma de exploração só tem gerado o extermínio de milhares de espécies e a poluição das águas, algumas das quais correm para o território brasileiro. Mais recentemente, começaram a chegar as concessões minerais e petrolíferas, que para nós serão uns dos maiores problemas e que precisam ser discutidos. E não aceitamos que as empresas tenham tratamento de vítimas, como é comum nos debates, onde colocam as mesmas como importantes e produtivas para o desenvolvimento da economia e os povos indígenas como improdutivos e atrasados.8 - Solicitamos a pronta manifestação das instituições endereçadas, e as convocamos para uma reunião na fronteira o mais rápido possível.

Assinam esta Carta
Associação Ashaninka do Rio Amônia (APIWTXA) e Asociación de Comunidades Nativas de Ashanínkas-Ashenínkas de Masisea y Callería (ACONAMAC)

Carta endereçada a: AIDESEP - Asociación Interétnica de Desarrollo de la Selva Peruana, Assembléia Legislativa do Estado do Acre, Conselho Nacional dos Seringueiros, COIAB - Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, COICA - Coordinadora de las Organizaciones Indigenas de la Cuenca Amazonica, Colégio del Biólogos del Peru, Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional - CAINDR/Congresso Nacional do Brasil, Comissão de Direitos Humanos e Minorias – CDHM/Congresso Nacional do Brasil, CONAM, Consejo Nacional del Ambiente, Defensoria del Pueblo - Oficina Defensorial de Ucayali, Departamento da Polícia Federal, Governo do Estado do Acre, Exército Brasileiro, Ejército del Peru, FUNAI, IBAMA, INRENA - Instituto Nacional de Recursos Naturales/OSINFOR, Oficina de Supervisión de las Concesiones Forestales Maderables, Ministério da Defesa do Brasil, Ministerio de Defensa del Peru, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Justiça, Ministerio del Justicia del Peru, Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Ministerio de Relaciones Exteriores del Peru, OEA, OIT, ONU, OTCA – Organização do tratado de Cooperação Amazônica, Presidência da República Federativa do Brasil, Presidencia de la República del Perú, Procuradoria Geral da República, 6ª Câmara de Coordenação e Revisão Índios e Minorias, SEMA-Acre, Secretaria Estadual de Meio Ambiente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Grave notícia da fronteira

Forte o relato-denúncia do sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, que encontrei no blog do Altino Machado. O Meirelles chefia a Frente de Proteção Etno-Ambiental do Rio Envira (Acre), na fronteira do Brasil com o Peru, que tem como principal missão proteger territórios habitados por índios ainda não contactados.

Madeira, Ouro e Cocaína no Paralelo 10´

Tenho a impressão que escolheram o nosso pessoal da Frente Envira como alvo de tiro para iniciantes. Algum grupo de índios isolados -pouco provável- conseguiu roubar armas e munição e vem testando na gente a "novidade", ou, o que é pior, a mando de madeireiros, índios não vão mais nos dar folga.

Atiraram no nosso mateiro, o Jaboti. O chumbo, desta vez, acertou suas costas, ao contrário do tiro no Beré. Mas, felizmente, o cartucho devia estar molhado e o chumbo entrou só no couro grosso de Jaboti.

Acho que o nosso estoque de sorte está esgotando. No Beré, foi o tronco do paco-paco salvador. No Jaboti, o cartucho ruim, velho ou molhado. Uma hora o cartucho estará bom e a mira certa. É uma questão de treino dos atiradores.

E eu fico pensando na realidade do nosso serviço público. Não posso contratar meus mateiros. Tenho que pagá-los contra-recibo. O cara ganha a mixaria de R$ 500,00 por mês. Está longe da família, defedendo o território dos isolados. Esse mateiro dá resultado, pois defende o meio ambiente de fato. Esses homens mereciam um tratamento melhor do Estado.

Sabe o que a Funai fez com o cargo de mateiro? Extingiu de seus quadros. Afinal, pra que gente em campo? Pra defender o meio ambiente, os indios? Tem que ter, ao contrário, é um monte de assessores ganhando fortunas, cagando regras.

Um bando de técnicos em computação monitorando a desgraça via satélite, aviões e helicópteros, mas que só servem para constatar quando o estrago já foi feito. Para prevenção, para gente que leva tiro para defender a floresta, nada pode. E quando se pede um suprimento para pagar os mateiros a Funai fica frescando, dizendo que não pode, que isso e que aquilo.

Paciência tem limite e o couro dos mateiros não é de ferro.

Não seria melhor entregar ao Peru esta parte do território brasileiro esquecida pelo Estado brasileiro? Os madeireiros vão ficar felizes e explorarão toda a madeira que há, os traficantes plantarão grandes roçados de coca, algum garimpeiro poluirá de mercúrio as águas do Envira a procura de ouro.

O burocrata terá mesa e cadeira de mogno prá sentar sua bunda e olhar a telinha de seu notebook. Vai ter muita cocaína nos embalos das boates de Brasília com as peruas de silicone balançando seus anéis e braceletes de ouro. Tudo made in paralelo 10.