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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Dom Juan

"Experimentei uma sensação extremamente agradável de paz e satisfação; o mundo naquele momento parecia estar à vontade. A tranquilidade era divina e, ao mesmo tempo, enervante. Eu não estava acostumado com aquele tipo de silêncio. Tentei falar, mas ele me ordenou que me calasse. Depois de algum tempo, a tranquilidade do lugar afetou meu estado de espírito. Comecei a pensar em minha vida e minha história pessoal e tive uma sensação conhecida de tristeza e remorso. Falei que eu não mereceia estar ali, que o mundo dele era forte e justo e eu era fraco e que meu espírito tinha sido desviado pelas circunstâncias de minha vida.

Ele riu e ameaçou cobrir minha cabeça com terra, se eu continuasse a falar aquelas coisas. Disse que eu era um homem. E, como todo homem, eu merecia tudo o que fosse destinado ao homem – alegria, dor, tristeza e luta – e que a natureza dos atos da pessoa não tinha importância, enquanto ela agisse como guerreiro.

Baixando a voz até quase um sussurro, ele disse que, se realmente achava que meu espírito estava desviado, eu simplesmente teria que endireitá-lo, purgá-lo, fazê-lo perfeito, pois não havia nenhum outro trabalho em todas as nossas vidas que valesse mais a pena. Não endireitar o espírito era procurar a morte, e isso era o mesmo que não procurar nada, desde que a morte nos alcançará, não importa o que acontecer."

(Viagem a Ixtlan, Carlos Castaneda)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Sobre planos de manejo, Caipora e outros mistérios

Esta semana participei da qualificação da Renata Teixeira, aqui do Mestrado em Ecologia e Manejo da UFAC. Gostei muito do projeto dela, e de participar da discussão com os outros professores presentes. A Renata quer tratar de uma questão das mais relevantes no contexto atual: qual o papel do manejo madeireiro nas decisões que os seringueiros que dele participam passam a fazer sobre o uso de suas propriedades (colocações)? Lendo o projeto que foi examinado, me chamou atenção o termo “plano de manejo”. Na verdade, não é de hoje que já tinha tido minha atenção desperta: conversando com os seringueiros manejadores lá do São Luis do Remanso já pensara coisas parecidas com o que está logo aí abaixo.

O mote é o seguinte: que novidade é esta do “plano de manejo”? Da onde vem isso? O que ele introduz? Até que ponto ele é mesmo uma novidade? Ou o que nele é novo? Não sei falar de tudo o que pergunto – afinal, são perguntas – mas tenho algumas idéias, em especial sobre o “manejo seringueiro”.

É de domínio público e comprovado que o manejo seringueiro da borracha e da castanha ao longo desses mais de cem anos demonstrou ser extremamente seguro para a floresta – e isto não é obra de cientistas, e sim de moradores da floresta, indígenas incluídos. O manejo da fauna, pesca, madeiras, palhas etc, para fins de subsistência e dentro do sistema de colocações também é altamente eficiente. Nesse contexto de manejo florestal seringueiro, qual o elemento novo? Madeira para comércio, carne de caça para venda, copaíba para venda e por aí vai – ou seja, novos produtos, novas escalas, novas tecnologias, novas finalidades para produtos já conhecidos. E aí vem o nome: “plano de manejo”. Para quem não conhece e é novo na história, parece que as populações florestais agora finalmente estão acessando métodos de planejamento do uso da floresta.

Tem uma questão de fundo bem interessante nisso tudo sobre conhecimentos tradicionais e técnico-científicos. Quando um autor como Wyatt-Smith afirma que manejo florestal é “explorar a floresta de um modo a prover rendimento sustentado dos produtos florestais, sem destruir ou alterar radicalmente a composição e estrutura da floresta como um todo” (apud Teixeira de Oliveira), fico me perguntando em que esta definição seria incompatível com o manejo tradicional seringueiro... Lembrei-me da fala da professora Manuela Carneiro da Cunha sobre o equívoco que é achar que a ciência hegemônica, na sua interação com os conhecimentos tradicionais, vai legitimá-los.

Quais as interfaces entre o manejo seringueiro e o novo manejo? As novas técnicas de manejo são capazes, por exemplo, de assegurar a colocação como um sistema? Ou, ainda, garantir a sobrevivência de um manejo tradicional compatível com o novo? Ou seja, o novo ajuda a sobrevivência do tradicional? Consideremos ainda que para o seringueiro o manejo da floresta nunca foi uma questão puramente técnica. Parece que os seringueiros, produzindo borracha, mantinham acordos tácitos com a Mãe da Seringueira, e isto não é crendice, ingenuidade ou coisa que o valha. Isto é visão de mundo, isto é um mundo extremamente real, para quem o vive. É possível manejar (técnico-cientificamente) fauna, por exemplo, considerando o papel do Caipora na proteção das caças? No caso da madeira, que universo simbólico a cerca?

A madeira é comumente apresentada como um produto a mais a ser explorado no cardápio de possibildades que a floresta oferece, inserindo-se no tradicional sistema produtivo da colocação. Hum, não sei. A madeira não é um produto qualquer, sua inserção é um diferencial forte: tanto porque há polêmicas políticas e técnicas em torno do manejo madeireiro e sua sustentabilidade, quanto porque acredito que ela não é um produto extrativista da mesma forma que a borracha, por exemplo. A madeira tem um mercado consolidado e ávido. Tem preço, desde que se encontre o nicho e comprador certo, o produto seja beneficiado com qualidade, e também que se tenha tempo e algum capital para aguardar o retorno do investimento. Sua cadeia produtiva é longa e cara. Do momento que o produto sai da colocação do seringueiro até retornar em dinheiro, muita coisa se passa, muitas etapas são cumpridas, muito dinheiro é gasto. A não ser que se venda a madeira em tora: tirou, pagou.

Outro termo que parece caminhar junto com o de “manejo florestal” e faz parte de seu arcabouço: “produtores florestais”. O que é isso? O que esta idéia sugere? Uma nova perspectiva, um novo olhar sobre as populações florestais e também sobre a floresta. Tem a ver com rendimentos monetários e com o viver da floresta, sem derrubá-la. Tenho a impressão que junto com ela vem uma idéia de pequeno empresário florestal moderno: aquele que olha a floresta como um conjunto de recursos e a explora visando o máximo rendimento sem comprometê-la como fonte renovável. A floresta como um bom negócio. Mas, repito, e o Caipora?

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Parábola


Uma seguidora, muito sinceramente, disse ao seu Mestre, portador de imensa ciência e habilidades de cura:

- Mestre, eu queria conhecer o que o senhor conhece.

Ao que ele respondeu:

- Eu? Ah, eu só sei é comer arroz com feijão, bem cozido.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Pensamiento del Pueblo Waorani para el futuro

Antiguamente nuestros abuelos caminaban por todo nuestro territorio protegiéndolo en sus límites y enseñándonos los caminos, los ríos y los lugares donde están enterrados nuestros antepasados. El padre puma era el sabio espiritual, adivino y curador que tenía toda la magia que guiaba a nuestro pueblo y nos daba el poder para ser guerreros y vivir en bosque. El poder de los padre pumas defiende nuestro territorio.

Desde que llegaron los misioneros trataron de acabar con nuestras creencias, y nuestras tradiciones casi desaparecieron. Luego las empresas petroleras ingresaron a nuestras tierras contaminando y destruyendo la tierra. Cuando nos dimos cuenta, nuestras tierras estaban ocupadas y las familias dividas, entonces tratamos de recuperar nuestro territorio para volver a vivir como nos enseñaron nuestros abuelos.

Desde que nos dijeron que somos ecuatorianos hemos tratado de compartir los recursos con todos el Ecuador, pero no hemos sido beneficiados de esta explotación, no se han hecho políticas que nos respeten como nacionalidad indígena.

A mi me contaron que cuando nosotros morimos nos convertimos nuevamente en animales del bosque, en jaguares y anacondas. Y cuando entran las petroleras y las iglesias destruyen todo, acabando con nuestros espíritus y nuestros ancestros, cambiando nuestra cultura y tradiciones.

Actualmente existen siete empresas petroleras que contaminan y destruyen el bosque en el que vivimos. Además estas compañías dividen a las familias y causan enemistades entre hermanos, debido a las nuevas necesidades que se han creado. Las empresas no cumplen con los ofrecimientos que hacen, llevan militares a nuestras comunidades para vigilar los pozos y campamentos. Por las carreteras petroleras entran madereros ilegales que sacan madera de nuestro territorio.

Para nosotros es muy importante que se respete en su totalidad el territorio ancestral donde viven y sueñan los pueblos Tagaeri-Taromenane, que nadie ingrese a sus tierras ni roben sus recursos, que el Estado garantice que ellos puedan vivir en paz, con sus tradiciones, creencias y costumbres como siempre lo han echo. Que no les invadan las compañías petroleras, turistas, científicas, madereras, religiosos, Ong's de conservación, etc. Para nosotros nuestros hermanos son el último pueblo libre en la selva y pedimos al gobierno ecuatoriano que se solidarice con nuestro sentir y que respete a los pueblos Tagaeri-Taromenane.

Tengo muchas historias e ideas que contarles pero este espacio es muy pequeño para la larga historia de mi pueblo. Pero nosotros seguiremos viviendo en el bosque y no nos dejaremos callar. Mis abuelos eran fuertes guerreros que no dejaron entrar a los extraños , pero ahora yo soy amigo de otros pueblos y quiero que luchemos juntos para proteger mi territorio y el de mis hermanos Tagaeiri – Taromenane que viven en libertad y sin contacto con esta civilización.

Atentamente, Moi Enomenga

Para saber mais e ler a carta acima na íntegra, acesse http://www.amazoniaporlavida.org/

sábado, 27 de outubro de 2007

Uma outra ciência

Nesta semana, Mauro e Manuela estiveram no Acre, aqui em Rio Branco. Trata-se do casal de antropólogos Mauro Almeida e Manuela Carneiro da Cunha, que há mais de vinte anos realizam pesquisas no Acre e apoiam as lutas de suas populações por seus direitos territoriais, sociais, intelectuais, enfim, direitos a uma vida digna. Mauro, aliás, é acreano. Entre os anos de 1982 e 1983 viveu nos seringais do alto rio Tejo, cortou seringa, acompanhou o dia a dia dos seringueiros e dez anos depois defendeu sua tese de doutorado em Cambridge, infelizmente ainda não integralmente traduzida e publicada. Juntos, ele e Manuela organizaram a mais completa publicação existente até o momento sobre os conhecimentos e as técnicas desenvolvidas pelas populações locais do Alto Juruá, a “Enciclopédia da Floresta” (Cia. das Letras, SP, 2002). A Enciclopédia é resultado de um projeto que promoveu uma extensa e intensa parceria entre cientistas acadêmicos e moradores da floresta na região do Alto Juruá. Tive o privilégio de participar desta empreitada.

Na segunda-feira, dia 22, Manuela proferiu uma conferência num importante encontro promovido pela Embrapa sobre “etnociência”. Em sua fala, ela nos ensinou o que seria uma “ciência tradicional” e como nós, cientistas e representantes que somos da “ciência hegemônica”, deveríamos nos relacionar com a primeira: não a considerando um acervo pronto a que acessamos, e tampouco um conhecimento cujo valor de verdade será conferido por nossa ciência. A ciência tradicional é antes uma forma de produzir conhecimento, uma forma contínua e que pressupõe trocas de materiais e idéias entre os “cientistas tradicionais”. Ela depende ainda de condições (sociais, ambientais, legais) para que possa existir, tais como florestas e seu material genético preservados. É nesta perspectiva que questões como a dos direitos intelectuais deveriam ser tratadas, ou seja, ao invés de reproduzir um sistema de privatização para o conhecimento tradicional, como são as patentes, um outro regime deveria ser capaz de dar conta do dinamismo de sua forma de ser. Foi justamente pela inexistência de garantias dessa ordem que todo o material da “Enciclopédia da Floresta” (o botânico em especial) que poderia resultar em algum uso econômico até hoje não foi publicado.

Toda essa fascinante conversa teve continuidade nos dias que se seguiram. A foto acima ocorreu num descontraído bate-papo com Manuela e Mauro na Biblioteca da Floresta, um espaço cultural e do saber criado pelo governo do estado. No dia 24, Mauro proferiu sua palestra no encontro da Embrapa. Sua fala tocou num problema concreto: o que é um projeto de pesquisa ético quando se pretende acessar conhecimentos tradicionais associados a recursos genéticos? Ou, como garantir que princípios éticos possam se fazer presentes numa relação de pesquisa entre desiguais (academia e moradores da floresta)? A legislação atual ainda não é definitiva (é uma Medida Provisória), suas regras estão em pleno debate, mas de todo jeito não deixa de ser uma oportunidade, defendeu Mauro, de assumir que existem sim aspectos ético-morais em atividades científicas que envolvam colaboração de populações tradicionais. Nossa ciência hegemônica naturalmente resiste. Seus hábitos são muito arraigados, sua postura em geral inadequada, sua pretensão de verdade arrogante. E o fato é que é preciso tempo nas explicações e negociações com populações locais para que possam conscientemente assentir e colaborar com a pesquisa.

Boas reflexões nos trouxeram esses bons amigos. Que seu retorno seja breve!