segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nasceu!

Depois de uma notícia triste que ficou aqui no blog por um bom tempo ("Luto"), a vida se manifesta novamente, aliás, sempre.

Passados 20 anos de sua criação, e dez anos da promulgação do SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), no último dia 29 de abril foi criado o Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista do Alto Juruá, a primeira do Brasil e do mundo. A notícia merece aplausos. Não que, a meu ver, a estrutura de Conselhos Deliberativos, instituída pelo SNUC, seja adequada, tenho sérias dúvidas com relação a isso. Mas os louvores devem-se mais a forma como a coisa foi sendo articulada e feita ao longo do último ano, quando começaram os trabalhos de elaboração do Plano de Manejo da Reserva, agora na reta final.

A Reserva e sua Associação, para ser bem direta, entrou o século XXI "ladeira abaixo". Maior baixo astral, maior desmobilização, política partidária pelo meio, corrupção, presidente preso, a moral lá embaixo. Na Reserva, aquele clima de "tragédia dos comuns", desamparo e revolta. Dava aquela sensação de crise total. Mas, lição meio difícil, a crise pode ser produtiva, ela pode ser geradora de soluções inusitadas e criativas. Sempre há os resistentes, os esperançosos, os inventivos. E alternativas começaram a aparecer: comunidades resistindo a invasão de seus territórios, moradores partindo para o plantio de sistemas agroflorestais e recusando o gado, grupos resgatando sua ascendência étnica e querendo seu próprio território.

Enfim, no meio disso tudo sai o edital do Plano de Manejo. O Augusto Postigo, praticamente um doutor pela UNICAMP (defende agora dia 26), candidatou-se. O candidato ideal: mais de uma década de pesquisa na área, envolvimento com as comunidades, conhecimento de causa e compromisso, além de ser parte de uma equipe maior coordenada pelo nosso professor e orientador Mauro Almeida. Mas não é que a candidatura do Augusto não chegou às mãos do ICMBio! Mais uma peça que nos pregou "o sistema". Augusto insiste, sofre, mas consegue provar que tinha enviado a candidatura no prazo e faz valer o seu direito de concorrer. Não ficou (inexplicavelmente) em primeiro lugar, mas a Justiça de Deus não falta e o(a) ganhador(a) desistiu.

Roxo e Roberto, convocados por Augusto para "botar a mão na massa"!

Augusto foi convocado e, junto com Roberto Rezende (também UNICAMP e quase-mestre) e o Roxo (Antonio Barbosa de Melo, seringueiro-pesquisador merecedor de honoris causa) - ambos na foto acima -, montaram uma proposta arrojada, de ampla consulta as comunidades da Reserva. Levaram a sério a idéia de que o Plano deve ser "participativo". O povo do ICMBio xiou, tudo parecia meio heterodoxo demais, o processo, os itens orçamentários, mas, com muito malabarismos para liberação dos recursos e cumprimento da burocracia, atrasos de cronograma, o planejamento dos nossos valentes guerreiros foi aprovado. Tudo começou então em meados do ano passado, e até o momento, em duas etapas, cerca de 160 reuniões comunitárias foram realizadas em toda a Reserva, sendo seus principais facilitadores os monitores socioambientais da Reserva: moradores que vem trabalhando em pesquisa colaborativa com pesquisadores acadêmicos há vários anos, alguns deles há quase duas décadas.

Na reunião de criação do Conselho Deliberativo, Augusto fez uma exposição sobre o Plano de Manejo aos conselheiros empossados.

Neste meio tempo (abril do ano passado) a Associação da Reserva, também por uma criativa iniciativa local, realizou eleições e elegeu nova diretoria. Foi uma eleição cheia de polêmicas, como pude inclusive tratar aqui neste blog naquela ocasião. Mas a nova diretoria foi empossada, e chamada a participar do processo do Plano de Manejo. E agora, já neste ano, por outro lado, depois de anos e anos de dificuldades de gestão, foi empossado como gestor da Reserva pelo ICMBio um nome novo (no orgão e na região, mas não na experiência com o assunto), o Urbano Silva Jr. Ah, nada como sangue novo no pedaço, e sangue bom!

Taí o Urbano facilitando a 1a. reunião do Conselho Deliberativo!

Esta conjunção astral favorável resultou num Conselho Deliberativo eleito, os representantes comunitários indicados pelos moradores entre aqueles que já estavam colaborando com o Plano de Manejo nas reuniões e assembléias, e não estavam já em cargos eletivos (das Associações que já existem). Então deu um formato interessante. Gente nova e gente antiga, veteranos, com e sem experiência nesses afazeres institucionais.

"Foto oficial" do Conselho Deliberativo da Reserva!

Bom, o Conselho tem 23 membros, sendo 12 comunitários e 11 representantes de instituições relevantes no município em que a Reserva incide (Prefeitura, PF, Asareaj, Sema, Conselho Municipal, de Meio Ambiente, Exército, Ufac, STR, Seaprof, Yorenka Antame, ICMBio), cabendo a este último a coordenação. De acordo com o Regimento Interno aprovado, decidiu-se que o ICMBio não votará necessariamente nas deliberações, a não ser em casos de empate, o famoso "voto de Minerva". A reunião foi realizada na Câmara dos Vereadores, durou todo o dia, começando as 8:30 e fechando as 17 horas, com intervalo para almoço. Dou estes detalhes porque merece elogio a capacidade que o Urbano demonstrou em começar e encerrar os trabalhos no horário previsto, cumprindo toda a pauta e sem atropelar ninguém. Foi uma reunião produtiva, cheia de conteúdo, a altura do momento e da Reserva.

Vamos ver agora como vai ser este funcionamento e gestão compartilhada, num fórum que junta tanta gente diferente e que parece inverter um pouco a idéia inicial de criação da Reserva: a autonomia das populações na gestão do seu território. Mas vamos dar uma chance à experiência - ela deve ser soberana as nossas espectativas e especulações.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Luto

Gente, este é o Glauco Vilas Boas. O Glauco morreu esta madrugada, foi assassinado junto com seu filho, Raoni, de apenas 25 anos. Até o momento não está claro como tudo aconteceu, se foi assalto, se foi uma pessoa fora de si. Mas isso não importa muito agora, pois o Glauco se foi.

Todo mundo conhece o Glauco, todo mundo que conhece e admira o trabalho de cartunista dele, que já se divertiu lendo as aventuras do Geraldão, aquele drogadito muito louco e atrapalhado, e Dona Marta, taradíssima, um perigo na repartição! E tantos outros. Sempre lia ele na Folha de São Paulo, onde trabalhou por mais de 30 anos.

E também conheci o Glauco. Lá no Céu de Maria, igreja do Santo Daime localizada no Pico do Jaraguá, na Grande São Paulo. No Céu de Maria o Glauco era o comandante do trabalho, sempre tocando sua sanfona. Pois é, o cara era o maior sanfoneiro! Uma pessoa gentil, atenta ao ritual, zelando a casa da qual era o responsável.

Não dá pra acreditar: um cara rezador, temente a Deus, que não fazia mal a ninguém, e uma morte tão estúpida! A gente fica sem saber o que pensar. Entender, é melhor nem tentar. A gente não sabe o seguimento de cada um de nós. A gente sabe muito pouca coisa.

Que Deus, a Rainha da Floresta, Jesus Cristo, Ns. Sra. Aparecida, Mestre Irineu, Padrinho Sebastião Mota de Melo, Yemanjá e todos os seres divinos acolham este irmão que ora se apresenta.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Últimas cariocas

Neste dia a zona norte e oeste tomou conta da Sul. Era terça-feira de Carnaval e a praia de Ipanema, ali no Posto 8, Arpoador, encheu de um jeito que não via há muito tempo. Aquela coisa de procurar onde pisar, ou pisar mesmo em cima da toalha e canga alheias, dos guarda-sóis ficarem todos amontoados e você ter que andar abaixado ao trasitar entre eles. Neste dia, encontrei até adulto perdido, procurando onde fora mesmo que colocara suas coisas na areia, onde estava sua família?

O mar estava gelado, o sol esturricante! Todo esse mundo de gente na água, as ondas quebravam e ouvia-se aquela gritaria alegre de adultos e crianças. A praia estava engraçada, pessoas topando umas nas outras, amontoadas, rindo umas para as outras. Bom, não sei o que aconteceu depois das 11 hs, quando a lotação parecia esgotada e resolvemos ir embora. No caminho, no metrô, bandos animados de banhistas desembarcavam rumo às areias de Ipanema.

Enquanto isso, na serra de Teresópolis, ainda no estado do Rio, o clima era ameno e as alfaces prosperavam. No Sítio Olho D'Água, de propriedade de meus pais, numa parceria com Abel e Lilinha, casal de agricultores tradicionais, passamos quatro dias agradabilíssimos. O sítio está localizado numa região de horticultura, mas que sofreu muita degradação nos últimos 10 anos. Meus pais, junto com Abel e Lilinha, optaram por manter a mata do sítio e assim preservar as nascentes e olhos d'água que tem ali, e são muitas! Hoje, diz Lilinha, o sítio é o único lugar na região com água saudável e abundante, mesmo na seca.

A mata que tem lá abriga os animais silvestres da região, que para lá acorrem como para um refúgio. Meus pais tentam transformar o sítio numa Reserva Privada do Patrimônio Natural (RPPN) e garantir assim a vida mais longa de toda vida natural que tem lá, inclusive alguns paus-brasil e araucárias plantados há 15 anos.

Mas, voltando ao Rio, no domingo de Carnaval, fomos passear na avenida Rio Branco e ver a fauna que pinta lá nesta época do ano. Grupos como o abaixo são a regra! Incrível como os homens adoram vestir-se de mulher no Carnaval. Havia incontáveis grupos masculinos fantasiados de bailarinas, bruxas, fadas, entre outras. O que será que ocorre? Uma inversão sugestiva, uma mistura de sexos atraente, uma oportunidade de soltar a franga - tudo isso e mais um pouco juntos?

Mas é como se diz: a paisagem mais bonita de Niterói é a vista do Rio... Lá do museu projetado por Oscar Niemeyer e com um bom acervo de obras de artistas brasileiros, pudemos constatar mais uma vez a veracidade deste dito carioca. O museu é lindo, em especial por fora. Parece uma nave espacial, um disco voador, aterisado ali naquela ponta da praia. E veja só o Niemeyer como é fera: o museu e o Pão de Açucar harmonizam suas linhas!

Cruzando de volta a Baía de Guanabara, agora em catamarãs, e não mais nas portentosas e lentas barcas, onde a gente podia ir ao ar livre aurindo a brisa e vendo o por do sol, fomos ver o show do grupo Gente Fina & Outras Coisas, de MPB, numa formação chiquérrima: só bons e veteranos músicos, como o Ronaldo do Bandolim, velho conhecido. O show foi lá na Modern Sound, uma das últimas lojas de verdade de CDs do Rio. Lá você acha TUDO que estiver procurando. E lá tem um espaço cultural. E na saída tem um espelho que nos proporcionou momentos de diversão em família.

Repare na boca do Estêvão (que está de camisa branca): a divisão do espelho dá a impressão de que a abertura da boca é maior, de que o maxilar vai lá em baixo. Deu pra ver? Rimos muito ali com esta brincadeira boba. Rir em família é muito bom, faz bem.

E aqui encerramos estes relatos cariocas, que já tá na hora de mudar de assunto, não é mesmo?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Manchete merecida

Deu na Folha e no Estadão... pena que não em manchete de primeira página!


Iceberg gigante se solta na Antártida!!!!!! (as exclamações são minhas)

Um iceberg quase duas vezes maior que a cidade de São Paulo e com água suficiente para abastecer um terço da humanidade por um ano se separou de uma geleira na Antártida após ser atingido por outro iceberg gigante, anunciaram cientistas. O iceberg de cerca de 2,5 mil km2, que se desprendeu da geleira Mertz, pode causar alterações nas correntes marítimas do planeta e no clima. O iceberg está entre as maiores massas de gelo que se desprenderam da Antártida nos últimos tempos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Férias da Luna!

Pois é, voltei de férias e nunca mais, quando estava no Rio, consegui voltar ao blog e escrever um pouco mais. A série "Dois cariocas no Rio" não passou do segundo capítulo... Mas, como nada se perde, a série vai virar outra coisa: capítulos autônomos, temáticos, inspirações, enfim, a partir das tantas fotos que tirei das outras tantas situações que vivemos nas nossas férias - Zé e eu.

Pra começar, o que ocorreu tão logo cheguei em casa. Descobri que não fora a única da casa a tirar férias no período: Luna, minha cachorra, também tivera as suas!

Por doze dias ela descansou e se divertiu num hotel-fazenda para cachorros chamado "Quatro Patas", gerenciado pelo casal de veterinários Fabiana Esteves e João, seu marido (ver aqui). Mas, como assim? Luna de férias? Cachorro tira férias? Só se for do dono, né?

Explico: logo que viajei a danadinha entrou no cio. Já escaldada pela cria passada de nove filhotes que me deu um trabalho doido, resolvi impedir o enlace entre ela e Alecrim, seu parceiro. Sabia da existência do hotel da Fabiana e do João, mas não sabia exatamente como funcionava. Do Rio, liguei para ela e, pronto, Luna foi parar lá.

Quando cheguei de volta em casa, Luna já tinha voltado, e junto trouxe suas próprias fotos: um CD gentilmente preparado pelos donos do hotel com um powerpoint intitulado "As férias da Luna"!

Ela parece feliz, não é? Esta Luna!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Dois Cariocas no Rio (II)

Falem o que quiser, podem falar, mas o verão do Rio é único. A praia de Ipanema ontem estava irretocável. O céu azul, sem nenhuma nuvem (esta um artigo raro nesses dias calorentos que correm), o mar azul-esverdeado-transparente, água friazinha, sol esturricante, brisa gostosa, ah, bom demais. Claro que tudo isso assessorado por uma barraca de sol (que se aluga na praia por R$ 5), e cadeiras de praia pra aumentar o conforto (R$ 4 cada). Aí fica assim: vai na água, refresca, nada, mergulha, fura onda, volta pra areia, seca um pouquinho no sol e se refugia na sombra, sentado na cadeira olhando o mar e os passantes, e pensando: ê, vida boa, natureza divina!

Realmente, o Rio, no verão, com suas pedras, montanhas, mata e mar é estonteante. E sempre tem a turma que trabalha na praia pra tornar tudo melhor ainda. Nos últimos anos apareceram os "barraqueiros", que tem barracas maiores logo que você desembarca na areia, onde se alugam cadeiras, guarda-sóis e pode-se comprar cerveja, água mineral, água de coco, e ainda tomar um banho de água doce num chuveiro que canaliza água da rua (do sistema público) não sei muito como. Para quem gosta de tirar o sal, é uma boa. Eu não, sempre gostei de ficar salgada até o último momento.

Mas tem também a veterana turma que pega no pesado mesmo, que trabalha na areia, andando de lá pra cá vendendo tudo que você possa imaginar: os tradicionais mate e biscoito Globo (que eu vejo desde o tempo em que era menina), sorvetes, salgadinhos, cangas e saídas de praia, e até panos indianos...

Chegamos cedo na praia, e saímos na hora do almoço, quando o sol estava pegando mesmo. O Rio está quente, galera, Rio 40 graus total!!!

E aqui me despeço, com esta postagem meio safadinha com gosto de "estou de férias"...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Enem, Sisu, Ufac: uma pergunta

O Enem é o Exame Nacional do Ensino Médio, que avalia a qualidade do ensino médio no país e que está sendo cada vez mais utilizado pelas universidades na seleção de seus alunos, a modo de um vestibular. Muitas universidades já utilizam o Enem para avaliar, total ou parcialmente, os candidatos aos cursos superiores que oferecem. Há, parece, uma tendência de substituição gradativa do vestibular pelo Enem. O último Enem ocorreu em dezembro de 2009, em todo Brasil. Acre, portanto, incluído.

O Sisu é o Sistema de Seleção Unificada, um "sistema informatizado, gerenciado pelo Ministério da Educação, por meio do qual as instituições públicas de educação superior participantes selecionarão novos estudantes exclusivamente pela nota obtida no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem)" (ver: www.sisu.mec.gov.br).

A Ufac, bom, é a Universidade Federal do Acre, que integra a rede de Instituições do Ensino Superior do nosso país e oferece diversos cursos.

Pergunta: por que a Ufac não está cadastrada entre as instituições universitárias que estão oferecendo vagas para os alunos que fizeram a prova do Enem em 2009? Ou seja, quem prestou o Enem no Acre pensando na possibilidade de estudar no estado, não tem esta opção, nem na Ufac nem em nenhuma outra instituição de nível superior.

Por que o Acre ficou fora desta?