
segunda-feira, 21 de julho de 2008
O tempo em mim

terça-feira, 15 de julho de 2008
Convite

Será no próximo dia 17, quinta-feira, a vernissage das mandalas da Simone Bichara (que muita gente conhece por Kátia Simone), às 17 horas, na Galeria de Artes Juvenal Antunes, na FEM, ali no calçadão da Gameleira. As obras permanecerão em exposição até o dia 06 de agosto. Vale conferir, são lindas as mandalas!
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Los Porongas: a iniciação
Pois é, teve show deles
Outro detalhe: crianças, havia várias delas no show com seus pais, duas delas inclusive num canto do palco. A mãe dançava animada na turma do gargarejo, e as duas crianças no palco, na mesma animação. Parecia festa de seringal, que dá de tudo: homens, mulheres, velhos, crianças, todos dançando.
Em setembro eles estão de volta para o lançamento do DVD e novo show. Demais os Los Porongas, virei fã! Sugestão: visite o blog deles, tem informações, vídeos, canções e otras cositas más. É, parece que me iniciei mesmo...
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Amanhecer a Latour

Quero falar mesmo é do amanhecer. Aquela hora em que o céu clareia e um novo dia começa para quem acorda cedo (e para quem acorda tarde também, pois quando acorda sabe que o dia já vai longe). Acordar, abrir os olhos, se espreguiçar e sentir-se acompanhado pela presença calorosa do sol – é um aconchego.
(Vou resistir a tentação de esbravejar e dizer que agora acorda-se, espreguiça-se, mas sair da cama já não é tão fácil: não encontramos o sol no céu, e sim a noite nas suas últimas despedidas. E que já não dá para cantarolar aquele hino do Mestre que diz “seis horas da manhã, eu devo cantar, para receber a meu Pai Divinal”. Vou pular esta parte e voltar para o aconchego, ou melhor, para o astro nosso rei. Em tempo: sempre é possível, às sete horas do horário “oficial”, lembrar que na verdade são seis e cantar o hino; e ainda lembrar que lá no Alto Santo, o fuso permanece solar.)
Hoje estive conversando com uma amiga que dizia que o sol não nasce, nós é que vamos em direção a ele, já que ele está no seu lugar, reinando, e a Terra que vai girando e a ele nos mostrando. Tem hora que mostra um lado do planeta, tem hora que mostra o outro; assim tem-se o dia e a noite. Tá certo, o sol não nasce. Mas é também um modo de dizer, de ler a natureza, de dar sentido cultural-espiritual-estético a um evento natural. O assunto é interessante, vamos a ele.
É uma prova de que, ao contrário do que costumamos achar, a sociedade e a natureza não são coisas tão estanques assim; elas vem juntas num só pacote. Não há um sol externo, transcendente, acima de todos, com uma verdade própria e independente de nós – embora assim também ele exista; quanto à sociedade, não somos nós que a produzimos independentemente de tudo, numa imanência – embora também seja assim. Afinal, o que é e o que não é? O que é o quê? Justamente aí é que mora o perigo: nas coisas que “definitivamente” são e não são.
Assim é o pensamento ocidental: separa as coisas, especializa, as purifica, você para cá (por exemplo, os fatos da ciência) e você para lá (respectivamente, os fatos da política). Mas basta ler um jornal com Bruno Latour, ou mesmo prestar atenção nas conversas do dia à dia, para constatar a abundância não de “purezas”, mas de híbridos, de misturas. Você começa a ler uma matéria sobre o milho trangênico (um feito científico), e logo passa para os interesses (econômicos) da Monsanto, para o papel (político) da CNTBio e do MMA, para as políticas protecionistas dos países do Norte, para a fome nos países do Sul (estamos em plena geopolítica!), e para o direito do consumidor de saber o que ele está comprando nas prateleiras do supermercado. Misturou tudo. Relações foram estabelecidas, muitos agentes entraram na história, cada um fazendo links – e ao final há uma rede tecida e sempre pronta a ter pontos desmanchados e outros acrescentados. Separar “alhos dos bugalhos”, digamos, é um artificialismo sujeito a mil contradições.
Tentemos agora voltar ao amanhecer.
Quando falamos do sol, ou pensamos nele, o fazemos de determinada forma, estabelecemos relações várias. Por exemplo: sol-nascimento-luz-despertar-trabalho. Assim, o sol não é apenas um astro do cosmos, uma estrela, embora o seja, claro, mas sua natureza é híbrida, ou melhor, sua natureza é cultural e sua cultura é natural. Naturezas-culturas, são o que existem neste mundo, e não culturas, afirma Latour, pensador ousado. Pressinto (a ficha ainda não caiu) que nos seus escritos há uma alternativa a toda esta sensação de que nós, ocidentais, somos um desastre; há uma saída que não é apenas uma mea culpa. É... mas do que falávamos? Ah, sim, do sol!
Ao falar do sol, chamo em meu auxílio uma rede de fatos outros, a ele conectados, por mim ou por outros, e se tenho consciência disso toda a ilusão de pureza se desfaz. Posso falar que o sol nasce, ou que eu vou na direção em que ele está – são opções que não tem a ver apenas com o fato natural do sol, mas com conhecimentos e sentimentos vários. Antes de Copérnico e Galileu, era a Terra que ficava parada. Hoje sei que não é assim, mas, interessante, quando falo que o sol nasce parece que é a antiga concepção de que o sol se mexe e nós não que está operando; talvez uma concepção antropocentrada demais, pensando bem. Quando falo que eu vou em direção ao sol, talvez esteja sendo mais fiel ao movimento físico que de fato tem lugar, mas faço esta opção não apenas por causa deste conhecimento. Nesta decisão há uma concepção de vida envolvida, que por sua vez pertence a uma rede ampla de sentimentos, crenças e outros tantos conhecimentos.
Meu ser anseia por acordar com o sol (como se ele acordasse...).
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Manejo florestal: bom pra pensar
Chega o verão e assiste-se caminhões com toras passando para lá e para cá.
Nos pátios das madeireiras e serrarias do Pólo Moveleiro, aqui
E fica a pergunta: da onde vem toda esta madeira? É legal? Como é extraída? Isso tem sustentabilidade?
O nosso secretário de Florestas, o Rezende (Carlos Ovídio Duarte Rocha), numa entrevista que vale a leitura (clique aqui) afirma que entre 5% e 6% da madeira extraída no estado é ilegal. O repórter até se espanta, já que no Pará, por exemplo, este número parece que beira os 80%. Também fiquei espantada. Nossa, que eficiência de fiscalização! Quando a gente vê a situação do Ibama no estado, sei lá, fica meio desconfiada desses números. Como eles são produzidos? Quais são as fontes que os [aos números] abastecem? O Rezende diz que um dos motivos para esta redução da ilegalidade seria a política governamental de implementação de planos de manejo florestais: quer explorar a floresta? Tem que ter plano de manejo!
Bom, entendo que manejo é algo que sempre existiu nessas florestas e realizado por quem mora nela há tanto tempo: as populações nativas.
Mas o que é novo, então? O produto (madeira), o mercado (ávido!), sua cadeia produtiva (um capítulo a parte, já que extensa e cara), as questões legais (entre elas o plano de manejo), as políticas do governo (que agora incluem algo como as Parceiras Público-Privado-Comunidade, como fala do Rezende) – e o fato de que se espera que tudo isso mantenha a floresta em pé!
Bom, cada um dos fatores citados acima mereceria comentários. Farei alguns poucos. Pergunto-me como o manejo madeireiro interage com o sistema de manejo tradicional: o fortalece? Ou seus ganhos monetários tendem a descaracterizar o sistema? Claro que teríamos que considerar outros fatores aqui nesta interação, tais como o crescimento do número de rebanhos de gado entre as populações florestais, o aumento da importância dos ganhos monetários (notadamente salários) na floresta e ainda as mudanças na forma de ocupação do espaço, que parece tender a um processo de “vilarização” ou a uma maior concentração das residências em função da oferta de equipamentos públicos (escolas, por exemplo). Talvez o manejo madeireiro esteja se realizando num contexto bem diferente do tradicional sistema de colocações. Então, que realidade florestal estará se desenhando?
terça-feira, 8 de julho de 2008
Ainda a florestania
Uma vez, após uma longa caminhada pela mata e pelo rio, arrastando canoa pois era verão, Toinho Alves e seus companheiros chegaram a uma colocação de centro. Logo se arrumaram para dormir, estavam todos muito cansados. Com certeza comeram algo antes de deitarem em suas redes. Naquele estágio antes do sono chegar, quando o pensamento vai embaralhando e fica-se entre acordado e adormecido, Toinho percebeu que seu raio de percepção do entorno ampliara-se sensivelmente: escutava os sons da mata, dos animais num raio de aproximadamente 50 metros e, ao ouví-los, podia visualizá-los, ou imaginá-los. Realizou que sua mente não era só aquilo que costumeiramente se define como pensamentos, e que parecem residir dentro da cabeça da gente, no cérebro, e sim que sua mente correspondia aquilo do qual tinha percepção sensível. Num instante, que durou segundos, as linhas demarcatórias entre mente e matéria se diluíram. A consciência e o corpo eram um só.
"Tudo é um", já dizia Heráclito, lembrou-nos Toinho, na conversa que tivemos na noite passada na UFAC. O convidei para um encontro com a minha turma de Sociedade e Meio Ambiente (5o. período de Ciências Sociais). Neste curso estamos fazendo uma incursão - todos nós, professora e alunos - no tema das relações entre cultura e natureza, entre humanidade e animalidade, tentando borrar um pouco estas fronteiras tão paradigmáticas do pensamento ocidental. Temos nos valido basicamente de literatura antropológica, e já passamos por "clássicos" como Marcel Mauss e Evans-Pritchard, por outros mais contemporâneos como Philippe Descola, Tim Ingold e Eduardo Viveiros de Castro, e estamos agora na última parte do curso, aprofundando o estudo de propostas ou visões que apontem para outras cosmovisões. Pois bem, achei que o Toinho e a idéia de "florestania" poderiam colaborar com nossos estudos.
A florestania, diz Toinho, mais do que uma idéia, deve ser um sentimento; está no plano mental-corporal; é algo que se sabe porque se sente. Sim, mas é o quê este sentimento? Entendi que tem a ver com o que somos.
Toinho diz que estamos hoje pressionados por basicamente duas ocorrências simultâneas que a seu ver são apenas uma: uma revolução natural (que vem na esteira das mudanças climáticas e aquecimento global) e um tsunami social (irrupções sociais, guerras, selvageria urbana, crises de valores). Esta separação analítica que fazemos entre eventos naturais e sociais é, num certo sentido, falsa. Podemos, por exemplo, lembrou-nos o palestrante, vislumbrar suas raízes na mitologia ocidental do livro do Gênesis, um mito fundador. Lá estavam Adão e Eva e todos os seres viventes, convivendo em harmonia, sem diferenças, sem conflitos. Havia apenas uma interdição: o fruto a árvore do conhecimento. Por que interditada?
Bom, o que aconteceu lá no Paraíso mostrou que provar desta fruta foi instaurar a dualidade no mundo: bem e mal, cultura e natureza, homem e animal, vestido e nú, superior e inferior. E, observe-se, o nosso antropocentrismo e etnocentrismo permite relacionar estas oposições de forma respectiva: bem/cultura/homem/vestido/superior versus mal/natureza/animal/nú/inferior, e por aí vai. Na história dos descobrimentos, por exemplo, o homem "civilizado" europeu considerava-se superior aos "selvagens" do Novo Mundo, enxergados como "seres naturais", ou seja, sem cultura ou mesmo condição de humanidade (têm alma?, era uma pergunta da época). Era preciso civilizar estas pessoas, tirá-las da natureza e introduzí-las na cultura (roupas, religião etc). Todos sabemos os resultados catastróficos desse projeto civilizador...
Para tentar fugir deste modelo de pensamento, Toinho propôs a imagem de icebergs: todos nós somos um, cuja ponta visível é o que achamos que somos, como nos apresentamos no mundo, nossa racionalidade e emoções mais conscientes. A medida que vamos descendo, dimensões insondáveis do nosso ser podem ir se revelando, inconscientes, ancestrais, pré-históricas, e muito dificilmente teremos acesso a todo este universo. Mas isso tudo está lá, nos constituindo. Somos muito mais do que sequer imaginamos, e este "muito mais" inclui o que costumamos colocar em planos separados de nós mesmos. Ou seja, somos não só humanos (natural e culturalmente falando), mas também animais, vegetais, minerais, universais, cósmicos. A florestania, neste sentido, seria como uma rede cujos pontos estão linkados e novas conexões podem sempre ser estabelecidas. Tudo é um.
A florestania, disse Toinho, é um sentimento de mundo, a formação da nossa alma. A florestania está associada à floresta, que é o meio em que vivemos aqui no Acre (ou na Amazônia) e que nos constitui, quer queiramos ou não (para aqueles que acham a "selva" um símbolo de "atraso"), quer saibamos ou não. Esta floresta não é só, claro, árvores, animais, rios etc (embora o seja também), comporta também as populações humanas e suas histórias de constituição, contato, confronto. A florestania é uma singularidade multidimensional.
Este termo foi cunhado num contexto de disputas políticas, quando o PT sonhava em governar o Acre, e discutia-se o modelo de desenvolvimento possível para o estado. Toinho contou-nos um pouco das resistências que o termo enfrentou dentro do partido, que relutava em empunhar a bandeira da conservação como uma das bases para o desenvolvimento do Acre. Acabou adotando-o, mas o fez descaracterizando-o ao associá-lo à noção de cidadania. Se a florestania é uma singularidade (pois que assentada no direito à diferença), a cidadania já fala em direitos universais, uniformes, iguais para todos. A cidadania enquadra a existência, digamos assim, e a florestania quer a liberdade da existência. A cidadania é para os humanos, a florestania visa também os não-humanos. A florestania pode chegar a divergir da cidadania quando esta impõe soluções prontas para situações ou realidades em movimento.
Pra finalizar, a florestania é um termo em movimento, como não poderia deixar de ser. Outros já escreveram sobre ele, e sugiro aqui a leitura de um belo e curto texto de Mauro Almeida (clique aqui). Pretendi apenas registrar e socializar a boa conversa que tivemos ontem à noite, e que pode interessar ao leitor ou leitora que passe por aqui. E ainda colaborar com o trabalho do Tissiano Silveira, meu orientando de monografia na UFAC, a quem dedico esta postagem.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Alegria pura!
O casamento, parte tradicional dos festejos juninos e também de um concurso de quadrilhas que tem todo ano, foi encenado pelos Apalquentados do Tangará, um grupo que por seis meses, no dito bairro do Tangará, ensaiou para a apresentação de hoje. O texto é de Cícero Farias e a direção, de Karla Martins. A coreografia, bom, não sei, mas merece aplausos também, assim como o figurino. Tratou-se - todo o conjunto: texto, dança, interpretação, vestuário - de uma sensível, poética e estética homenagem do Apalquentados aos grupos que fazem uso ritual da ayahuasca na cidade de Rio Branco.
Conversando com a Karla depois da apresentação, ela contou um pouco de como todo o processo aproximou as pessoas do grupo da realidade dos grupos ayahuasqueiros, que eles não conheciam, quer dizer, só de ouvir falar. No São João, ela contou, levou o grupo ao Alto Santo, para conhecer de perto; disse que todos gostaram muito, e que se admiraram com o bailado, o ambiente de respeito e a gentileza com que foram tratados. Foi uma descoberta para essas pessoas. Que esta iniciativa, tão bacana, possa sensibilizar positivamente também aqueles que assistiram a apresentação para o patrimônio cultural que só esta cidade tem.
Aprendi este ano, assistindo a um outro concurso de quadrilhas no Sesc, que toda apresentação comporta um enredo inicial, em torno de um casamento, e aí depois vem a festa, que é a apresentação coreográfica da dança da quadrilha. Surpreendi-me, não tanto com o fato da história de um casamento, e sim com a dança mesmo: é inacreditável o tanto que o povo, homens e mulheres, pulam e remexem-se para dançar a quadrilha, aquela que a gente dança quando menino e mais velho também, que tem "a grande roda", "olha a chuva", "a cobra!" - que coisa mais boa! Pois é, mas nunca tinha visto do jeito que tem aqui. Talvez tenha noutros cantos (no Nordeste?), mas eu desconhecia. Tem uma beleza de movimentos, mas, novamente a partir da experiência deste ano, saquei que as roupas, o tempo de apresentação e a criatividade da coreografia são fundamentais pra não ficar uma coisa enfadonha e quase monótona (mesmo com toda a pulação, sua repetição pode cansar).
Bom, mas estávamos no casamento do Jagubino e da Chacrona, uma união profetizada em mirações que os dois receberam. E aí tinha um padrinho e uma madrinha servindo "daime" para o povo da quadrilha (era igualzinho... o que será que era?), teve a Rainha da Floresta aparecendo em miração, fogos de artifício, bailado e maracá. Ah, gente, foi muito lindo. E aí a festa animada! Uma coreografia toda criativa, a turma da quadrilha esbanjando alegria, contagiava a gente! Criou-se um clima tão gostoso que quem é ayahuasqueiro fica logo achando que não podia ser diferente. E tudo com muito respeito e educação. Nas roupas dos homens, o sol, na das mulheres, uma pequena coroa, algumas fitas e lindas saias multicores. Um texto bem humorado o do Cícero, todo em cordel, daqueles que a gente fica seguindo as rimas e a história. Ao final da apresentação, que achei até curta (!), mandei uma mensagem para o celular da Karla: Já ganhou!!!
Só um porém: a bateria da minha máquina acabou logo no início da apresentação, e por isso não tenho fotos de todo o grupo dançando mesmo. Fiz três pequenos filminhos antes da máquina apagar, mas ainda não sei como se faz pra postar filmes. Vou aprender.