domingo, 10 de julho de 2011

Uma comunidade tradicional

Como muitas outras existentes na Amazônia, perto de nós aqui no Acre, mais precisamente na capital, existe uma comunidade nativa que pode ser dita tradicional vivendo em uma área que foi, nos tempos áureos da borracha, um seringal. Está ali há mais de 50 anos estabelecida, muitas de suas famílias já em quarta geração. Suas relações de parentesco mais parecem redes emaranhadas por laços de filiação, matrimônio e compadrio, mesmo levando em conta que nos últimos 20 anos novos moradores, vindos de outros cantos, tenham a ela se juntado. Levam uma vida honesta, a maior parte dos moradores trabalhadores artesanais, ou seja, vivendo de ofícios manuais diversos, como a construção de casas (pedreiros, eletricistas, mestres de obra, carpinteiros), consertos diversos, agricultura, serviços domésticos. Muitos também aposentados, e outros tantos, os mais jovens, estudantes.

Vieram para ali para estar perto do seu líder, um agricultor, homem negro e muito respeitável, maranhense de nascimento que migrou para o Acre no início do século XX. Mestre Irineu, ou simplesmente "padrinho", como o chamam até hoje, mesmo depois de sua passagem para a vida espiritual em 1971, implantou, a partir dos anos 30, uma santa doutrina espírita-cristã que faz uso de uma bebida milenar e sagrada, conhecida na Amazônia latinoamericana por ayahuasca. Sob orientação espiritual da Rainha da Floresta, padroeira da doutrina recebida, a ayahuasca tornou-se Daime, e rituais que acompanham sua ingestão foram por Mestre Irineu recebidos, com seus procedimentos, suas fardas, músicas, cânticos e bailados. Dias certos para as sessões foram firmados, como as Concentrações quinzenais, os Hinários oficiais, os aniversários, as missas e também enterros dos irmãos e irmãs da doutrina, dispondo a comunidade de um cemitério próprio.

Em 1971 Mestre Irineu partiu do mundo Terra. Seu túmulo foi erguido na forma de uma capela do outro lado da rua, em frente ao local de sua residência, onde hoje estão sua viúva, a madrinha Peregrina, e seguidores da doutrina. Na verdade, em todo o entorno da igreja - conhecida também como "sede", mas cujo nome oficial é Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo - , do túmulo - hoje uma capela reformada em 2010 - e adjacências, que incluem mais quatro centros originários, embora autônomos, da "sede", estão espalhadas famílias de seguidores da doutrina do Santo Daime. Os rituais continuam a ocorrer tal como determina o calendário tradicional, e a irmandade aos poucos cresce com a adesão de novos chegantes, vindos de outras igrejas, outros estados e até outros países.

Uma estrada asfaltada, que já foi um varadouro, depois um ramal, liga a comunidade ao centro da cidade e demais bairros. É ali também que está o ponto final do ônibus Irineu Serra, nome do bairro - vila Irineu Serra. Há poucos anos, a comunidade e o maciço florestal que ainda se encontra ali, tudo isso herança deixada pelo saudoso padrinho, foram transformadas na Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, homenageando o Mestre e buscando garantir a proteção do local frente a expansão urbana da capital acreana. Embora efetivamente de gestão ainda bastante precária, a APA tem sido um instrumento para impedir, por exemplo, que um expressivo conjunto de casas populares fosse dentro da área construído, o que com certeza traria impactos tanto sociais quanto ambientais.

Mas a comunidade, em especial nos meses de verão, vem sentido os efeitos da cidade e do crescimento econômico. Caminhões de tora passam por lá em horas diversas do dia, e quando o fazem de madrugada costumam andar em alta velocidade. Carros de moradores de fora transitam também em alta velocidade a caminho do aeroporto, já que onde o asfalto termina (em frente as casas dos últimos moradores da comunidade) tem seguimento um ramal de terra que liga a vila ao bairro Custódio Freire e a BR 364. Há ainda visitas indesejáveis, como presos em fuga da penal, ou mesmo cadáveres que já foram neste final de pista "desovados", causando temor e grande preocupação as famílias. Além disso, a APA tem sido sistematicamente objeto de despejo de lixo por particulares.

Os moradores da comunidade reclamam dessas intervenções externas, inadequadas e violentas, em seu território de uso e ocupação tradicional, hoje formalmente recoberto pela figura jurídica de uma unidade de conservação (a APA). Também se queixam do estado vergonhoso em que a escola local se encontra, bem como a falta de calçadas e quebra-molas para que os moradores e os alunos andem com segurança na vila, já que de fato, no dia a dia, a vida local implica num trânsito constante de um lado a outro da estrada. A iluminação insuficiente é outra queixa dos moradores, que deixa alguns locais do bairro em uma escuridão que pode ser perigosa já que, como se disse, o bairro é frequentado por pessoas outras que não apenas os moradores e veículos ali transitam em velocidade e/ou em direção a outros destinos.

Poranto, como muitas outras comunidades tradicionais, a da vila Irineu Serra tem claramente um modo de vida e de relação com o ambiente singulares. E como tantas outras também, enfrenta desafios decorrentes da expansão da zona urbana em sua direção. E hoje, um portentoso desafio aponta no horizonte: a implantação de uma rodovia de quatro pistas, parte do anel viário projetado para a cidade de Rio Branco.

Foi este o tema de uma reunião ocorrida no sábado, dia 9, na Sede, com a presença de moradores da comunidade, do bairro como um todo e frequentadores e amigos dos centros que fazem uso do Daime. Contando com a presença de equipe do Deracre, foi exposto para os presentes o Projeto de Urbanização e Pavimentação da Estrada Custódio Freire/Irineu Serra, tendo sido afirmado diversas vezes que o mesmo dependeria da concordância da comunidade.

Estive presente na reunião. Não resta dúvidas que há que se reconhecer a boa vontade do governo, não só enviando seus técnicos mas formalmente concedendo poder de decisão à comunidade. Mas como é mesmo isso? Afinal, todo Projeto é parte de um planejamento de maior envergadura, já que diz respeito a toda a cidade de Rio Branco, e que o trecho que atinge diretamente a comunidade é uma parcela, e não todo o Projeto.

O que significaria uma oposição frontal da comunidade ao Projeto? Há realmente espaço para isso? Minha impressão é de que teremos que nos mover dentro de um contexto onde o Projeto é um elemento que dificilmente poderá ser descartado. O que não significa que não possa ser deslocado. E que não tenhamos que ter coragem para construir nossa proposta e afirmá-la onde for preciso.

Trata-se, por um lado, de pensar em alternativas, em especial ao traçado da rodovia. Sua passagem por dentro da comunidade é temerosa e indesejável. As consequências são graves, como alertou o dirigente da Barquinha, Francisco Hipólito, narrando o que ocorreu com a casa e comunidade que lidera a partir do momento em que se viram cercados pela expansão urbana. Hoje seus rituais enfrentam dramas como reclamações de vizinhos contra o som dos cânticos e os fogos de artifício, comprometendo a liberdade de manifestação daquela doutrina. Não pude evitar a comparação, por exemplo, com os índios Katukina em Cruzeiro do Sul, que foram "atropelados" pela BR364 com seus planos mirabolantes de mitigação e que não conseguiram evitar uma desestruturação local pela ameaça que está significando à práticas tradicionais, como as caçadas, além de presenças estranhas e não-convidadas nas aldeias. O que ocorrerá se os rituais de Concentração, que requerem silêncio, tiverem que ser realizados às margens de uma rodovia do anel viário? Mesmo com placas, quebra-molas etc etc, o trânsito de automotores será significativo. Não há plano de mitigação, ou compensação, que compense o silêncio, o ar puro e a tranquilidade, como foi lembrado na reunião.

Mas, como já disse, a comunidade enfrenta problemas que requerem soluções. Moradores mais diretamente atingidos pela violência e despejos de lixo podem estar vendo na proposta apresentada na reunião uma possibilidade de solução para o que os aflinge há já bastante tempo. Mas não me parece adequado pensarmos topicamente. A solução requer um pensamento mais estratégico. E mobilização comunitária. Sem nos reunirmos, ouvirmos a todos, nos pensarmos como um coletivo, talvez todo este momento venha a ser em vão.

Por outro lado, penso que temos base legal para nos amparar, afinal somos uma comunidade tradicional, culturalmente diferenciada, e grupos desta natureza estão contemplados legalmente, mesmo por tratados internacionais, como é o caso da Convenção 169, da OIT, e pela Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, estabelecida pelo governo brasileiro em 2007 (ver aqui para mais informações). O artigo 3o desta Política, por exemplo, define povos e comunidades tradicionais como "grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição". Parece com nós, não?

sábado, 2 de julho de 2011

Crime hediondo


Você sabe por que a floresta está esbranquiçada na foto acima? Uso de veneno. Ao que parece uma nova técnica de desmatamento. Além de desfolhar e secar as árvores, o veneno, que é lançado com uso de aviões, ainda contamina o solo, os lençóis freáticos, os animais e, claro, as pessoas.

"A floresta vira um grande paliteiro, facilitando o desmatamento. É o mesmo processo usado pelo Exército norte-americano para encontrar os vietnamitas na Guerra do Vietnã", disse o superintendente do Ibama no Amazonas, Mário Lúcio Reis.

Credo!

A área atingida, de cerca de 180 campos de futebol, pertence à União e está localizada ao sul do município de Canutama (AM), entre o Parque Nacional de Mapinguari e a terra indígena Jacareúba/Katawixi, que ainda não foi demarcada.

Nem sei mais o que dizer... Para ler mais, vejo o site do Greenpeace.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Viva São João!

Hoje é dia de São João
Viva o menino pastor
da palavra forte, pois que Verdadeira
Da pureza no coração
Profeta da vinda do Cristo, seu primo Jesus

Ontem, dentro do Solstício de Inverno,
varando a noite cantando e bailando O Cruzeiro,
festejamos São João no Alto Santo
Inesquecível festa,
noite de alegria na escola do Mestre e da Rainha

Aproveito o ensejo pra também homenagear o Marcelo,
amigo caro e raro,
que hoje aniversaria, mais um solstício de vida.

Viva o aniversariante!
Viva São João!
Viva o dono do hinário!
Viva a nossa madrinha!

domingo, 19 de junho de 2011

Visitas

Esta apareceu no mês de maio passado. Neste dia estávamos Enaiê, Thiago, Wilian e eu, almoçando e trabalhando nos projetos de iniciação científica dos três. Os cachorros deram o alerta: a preguiça, que sabia estar nas imediações já há algumas semanas, estava numa pequena árvore perto do canil. Depressa prendi os cachorros, que queriam mesmo era pegar a bichinha e dá-lhe uma pisa! Que fazer, que fazer? Por mim, ela ficaria hospedada aqui em casa mesmo, nas árvores que têm aqui, comendo folhas novas, como a vi fazendo alguns dias antes.

Mas não dava, ficando aqui era risco de vida na certa. Vamos ligar para os bombeiros. Eles já tinham estado aqui uns dias antes, quando um enxame de abelhas (daquelas com ferrão) ameaçou se instalar aqui em casa. É, tem as visitas não bem-vindas também. Vieram os bombeiros, pois, super-rápidos, corteses e eficientes. Diagnóstico: aguarde pra ver se elas vão mesmo ficar ou se estão só de passagem. Estavam de passagem. Mas agora tínhamos outra emergência: preguiça querendo casa versus cachorros donos da casa. Chama os bombeiros de novo. Enquanto eles não chegavam, curtimos e tiramos fotos da preguiça, e até um filminho foi feito, com o Thiago, todo feliz, fazendo carinho nela!

De novo, rápidos, gentis e eficientes vieram os homens de vermelho, naquele mega-batcarro vermelho, aquele de bombeiro mesmo. Deram um jeito de pegar a preguiça, sempre sob nossa vigilância: "cuidado, não vai machucar ela!", "o braço dela, cuidado, tá puxando muito!", "tadinha, leva com carinho" etc etc. Aproveitando a deixa, apresentei queixa contra umas cabas (aquelas vespas amarelinhas) que fizeram sua casa numa das portas da minha casa, e toda vez que eu a abria [a porta] elas vinham para fora da casinha delas e ficavam ostensivamente apontando seus ferrões contra mim... Um dos bombeiros foi lá e colocou todas, com casa e tudo, num saquinho, mas teve que ouvir minhas recomendações: "não vai matar elas, solta lá fora!". Acho que ele obedeceu, pois alguns dias depois elas voltaram para o mesmo lugar... A preguiça não sei muito bem seu destino: ou as matas do Parque Zoobotânico ou o Parque Chico Mendes, assim disseram os bombeiros.

Agora, fala sério, e esta visita que apareceu inesperadamente, mas logo desapareceu e não deu mais notícias:

A verdade é que gosto muito dos animais, de verdade. Tenho uma amiga, a dona Adelaide, que tem um cachorro (na verdade do filho dela) chamado Zulu. É um vira-latinha todo magrinho e atlético, desses que é artista de circo e dá pulos e mais pulos. Pois é, sempre que eu ia na casa de dona Adelaide, o Zulu vinha para o portão e ficava pulando e latindo, todo metido a valente. Aos poucos, com o tempo fui sacando o jeito dele, e passei a deixar minha mão na grade do portão, e toda vez que ele pulava, dava uma lambidinha. Entendi: ele estava "pedindo a benção". E assim é até hoje. Gente, tudo é uma questão de comunicação!

Outro cachorro que foi um ritual de aproximação foi o Jambo, que mora em Cruzeiro do Sul, com o meu amigo Jefferson. É um rottweiller, com aquela cara de mau, grandão, forte pra burro. Eu olhava assim pra ele e ficavam com aquele medo: "será que ele tá bravo ou é assim mesmo?". Descobri depois, quando por dois dias fiquei cuidando dele, que ele é um doce. Quando fui embora, até beijo de despedida ganhei!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

II Festival Cultural Corredor Pano

Nos dias 15 a 20 de julho próximos, na aldeia Kuntamanã, o povo Kuntanawa estará promovendo a segunda edição do Festival Cultural Corredor Pano. Ano passado pude participar do primeiro Festival realizado, e também relatar o que vi, ouvi e vivi lá. As fotos aqui desta postagem são daquele Festival. Ainda não sei se poderei estar lá na aldeia Kuntamanã este ano, mas farei o possível e convido os leitores a também fazerem este movimento.

A programação é intensa, como pode ser visto a seguir:

Dia 15

07:00 – 08:00 Café da manhã

08:00 – 12:00 Cerimônia de apresentação das delegações indígenas, com celebração e banhos de medicinas sagradas da floresta amazônica, para proteção e integração com a natureza;

12:00 – 14:00 Almoço

14:00 – 17:00 Passeio por trilhas na floresta para integração e conscientização da natureza

18:00 – 20:00 Jantar

20:00 Cerimônia de Integração dirigida pelos líderes espirituais dos povos Pano, com orientações sobre o uso correto das medicinas sagradas e seus conhecimentos ancestrais

Dia 16

07:00 – 08:00 Café da manhã

08:00 - Sessão de Pinturas corporais tradicionais – kene com jenipapo e urucum, ministrada pelos povos indígenas, com objetivo de mostrar a importância e significado das pinturas, promovendo assim a troca de experiências entre os povos

10:00 - 11:00 Abertura oficial do festival no terreiro com mariri e apresentação de cantos

12:00 - 14:00 – Almoço

14:00 – 16:00 Rodada de conversas dos Povos indígenas e delegações não-indígenas para afirmação de apoio pela proteção do meio ambiente e fortalecimento cultural, e pela integração efetiva entre os povos indígenas e não-indígenas

16:00-17:00 Debater a proposta Rio + 20 em 2012 no Rio de Janeiro para inclusão dos povos indígenas com seus conceitos de relações harmônicas com a natureza e a proteção da biodiversidade

18:00- 20:00 Jantar

21:00 - Exibição de filme e documentário que abordam a questão ambiental e cultural

Dia 17

07:00 – 08:00 café da manhã

8:00 – Manhã do meio ambiente com visita nas áreas de reflorestamento da comunidade com árvores frutíferas, nativas e exóticas e madeiras de lei

12:00 - 14:00 Almoço;

14:00 - 16:00 Brincadeiras tradicionais no terreiro

16:00 - 18:00 Celebração espiritual e ensinamentos das anciãs da etnia Pano com representantes do Conselho das 13 Avós

18:00 - 20:00 Jantar

20:00 Apresentação dos artistas indígenas

Dia 18

07:00 - 08:00 Café da manhã

09:00 - 14:00 Pescaria tradicional dos povos indígenas e almoço na beira do lago

15:00 - 17:00 Ritual da Samahuma com os pajés

18:00 - 20:00 Jantar

20:30 - Ritual com Medicinas Sagradas

Dia 19

07:00- 08:00 Café da Manhã

08:00-10:00 Dança do Mariri e brincadeiras e jogos tradicionais

11:00 – Comidas tradicionais: Caiçuma (bebida feita com banana e/ou macaxeira fermentadas), peixe moqueado na palha da bananeira, assado na brasa e na caldeira com leite de coco da mata; beijus com coco, tapioca, banana assada e cozida; macaxeira assada e cozida no leite de coco da mata; frutas da região, palmito e outros

14:00 -16:00 Rodada de conversa dos Povos indígenas, não-indígenas e organizações governamentais e não governamentais:

Para afirmação de apoio pela proteção do meio ambiente, fortalecimento da cultura e afirmação da integração efetiva entre índios e não índios;

Avaliação das rodadas de conversa e do Festival;

• Leitura do Documento final que será enviado aos órgãos governamentais sobre o Festival Cultural Corredor Pano;

17:00 h Cerimônia de despedida

18:00 – 20:00 Jantar

20:00 Noite intercultural de despedida

Dia 20

07:00 - 12:00 Saída das delegações não indígenas

15:00 Avaliação pelas delegações indígenas e planejamento do projeto "Corredor Pano"

Contatos para maiores detalhes, custos e procedimentos para chegar ao local podem ser feitos pelos telefones (68)99968678 begin_of_the_skype_highlighting (68)99968678 e end_of_the_skype_highlighting(68)99554128 begin_of_the_skype_highlighting (68)99554128 end_of_the_skype_highlighting

Sintam-se, portanto, todos convidados!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Orgânicos no Arraiá do Alto Santo

No Arraiá do Alto Santo montamos uma barraca de produtos orgânicos. Foi uma novidade, e uma aventura encampar e produzir esta idéia. Deu trabalho, corremos bastante, dormimos pouco, improvisamos e exercitamos a coragem e ousadia. Apresentamos a nossa irmandade e demais visitantes produtos saudáveis, vivos, sem veneno e sem crueldade. Além de serem produzidos sem ofender a terra (sem queimá-la, por exemplo), não disponibilizamos qualquer produto industrializado ou aqueles de origem animal.

Na verdade, foram duas barracas irmãs: numa servimos iguarias diversas, como tapiocas com patê de tahine ou de beringuela, açaí com granola artesanal, sanduíches de pão integral caseiro, pipoca, amendoim, batata-doce assada na brasa, entre outras gostosuras. Não teve tudo todas as noites, a exceção das tapiocas - um sucesso incontestável. Houve momentos em que o movimento era tão intenso que o jeito era lembrar: "gente, calma e paciência, aqui é slow-food."

Ao lado, montamos uma feirinha de produtos orgânicos, resultado de uma parceria com vários dos produtores da região que realizam a Feira de Produtos Orgânicos (aos sábados, pela manhã, no calçadão atrás do Terminal Urbano). Lá, os que nos visitaram, puderam comprar e levar para casa frutas como o bacuri, tangerinas e mexiricas, laranja e lima, banana, cupuaçu, jaca e abacaxi, além de goma de tapioca, hastes de palmito de pupunha, gergelim, pimenta malagueta fresca, entre outros produtos. Vendemos ainda lindas camisetas de algodão com desenhos exclusivos e especialmente concebidos para a ocasião, bolsas floridas de xita para quem quer abandonar as sacolas de plástico, sabonetes de murumurú e a alquimia das garrafadas e medicinas da floresta. Um luxo! Contamos, na primeira e última noite, com a presença dos nossos parceiros produtores na festa.
Enfim, foi lançada a semente. Muita gente colaborou e participou da empreitada. Já falei dos produtores, sem eles nada teria acontecido. Acima estamos, da esquerda pra direita, a turma da produção executiva, digamos assim: Ana, eu, Angélica e Gregória, já no final da festa, fechando a barraca no domingo. Mas teve ainda a dona Adelaide, que figura na foto anterior a esta, o Caio, filho da Ana, que trabalhou animadamente servindo o açaí para o pessoal, e que ganhou um novo amigo no último dia, o David, que se especializou no setor da água de coco, que, esqueci de contar, também tinha. E teve ainda a Socorro, que fez aparições na barraca e deu uma força nos preparativos, e o Marcelo, que cuidou do fogo que assou palmitos e a batata-doce. E o Amilton, lá de Cruzeiro do Sul, que concebeu as belas blusas que vendemos, algumas das quais Ana e Gregória vestem acima. E a dona Arsênia, mãe da Angélica, que esteve junto de diversas formas. E uma turma muito dez da União do Vegetal, que esteve junto e se envolveu na lida da feira, atendendo e informando os visitantes e clientes. O Leandro, esposo da Gregória, colaborou com sua alquimia fina, e os filhos do casal Érica e Enrico também frequentaram os bastidores da barraca.

Valeu todo mundo - quem trabalhou, quem frequentou, quem se alimentou, se abasteceu ou quem só passou pra dar uma olhada. Foi uma experiência intensa e fina - um presente. Daqueles que só o Mestre e a nossa Madrinha sabem nos dar. Estou eterna agradecida.