terça-feira, 31 de maio de 2011

Orgânicos no Arraiá do Alto Santo

No Arraiá do Alto Santo montamos uma barraca de produtos orgânicos. Foi uma novidade, e uma aventura encampar e produzir esta idéia. Deu trabalho, corremos bastante, dormimos pouco, improvisamos e exercitamos a coragem e ousadia. Apresentamos a nossa irmandade e demais visitantes produtos saudáveis, vivos, sem veneno e sem crueldade. Além de serem produzidos sem ofender a terra (sem queimá-la, por exemplo), não disponibilizamos qualquer produto industrializado ou aqueles de origem animal.

Na verdade, foram duas barracas irmãs: numa servimos iguarias diversas, como tapiocas com patê de tahine ou de beringuela, açaí com granola artesanal, sanduíches de pão integral caseiro, pipoca, amendoim, batata-doce assada na brasa, entre outras gostosuras. Não teve tudo todas as noites, a exceção das tapiocas - um sucesso incontestável. Houve momentos em que o movimento era tão intenso que o jeito era lembrar: "gente, calma e paciência, aqui é slow-food."

Ao lado, montamos uma feirinha de produtos orgânicos, resultado de uma parceria com vários dos produtores da região que realizam a Feira de Produtos Orgânicos (aos sábados, pela manhã, no calçadão atrás do Terminal Urbano). Lá, os que nos visitaram, puderam comprar e levar para casa frutas como o bacuri, tangerinas e mexiricas, laranja e lima, banana, cupuaçu, jaca e abacaxi, além de goma de tapioca, hastes de palmito de pupunha, gergelim, pimenta malagueta fresca, entre outros produtos. Vendemos ainda lindas camisetas de algodão com desenhos exclusivos e especialmente concebidos para a ocasião, bolsas floridas de xita para quem quer abandonar as sacolas de plástico, sabonetes de murumurú e a alquimia das garrafadas e medicinas da floresta. Um luxo! Contamos, na primeira e última noite, com a presença dos nossos parceiros produtores na festa.
Enfim, foi lançada a semente. Muita gente colaborou e participou da empreitada. Já falei dos produtores, sem eles nada teria acontecido. Acima estamos, da esquerda pra direita, a turma da produção executiva, digamos assim: Ana, eu, Angélica e Gregória, já no final da festa, fechando a barraca no domingo. Mas teve ainda a dona Adelaide, que figura na foto anterior a esta, o Caio, filho da Ana, que trabalhou animadamente servindo o açaí para o pessoal, e que ganhou um novo amigo no último dia, o David, que se especializou no setor da água de coco, que, esqueci de contar, também tinha. E teve ainda a Socorro, que fez aparições na barraca e deu uma força nos preparativos, e o Marcelo, que cuidou do fogo que assou palmitos e a batata-doce. E o Amilton, lá de Cruzeiro do Sul, que concebeu as belas blusas que vendemos, algumas das quais Ana e Gregória vestem acima. E a dona Arsênia, mãe da Angélica, que esteve junto de diversas formas. E uma turma muito dez da União do Vegetal, que esteve junto e se envolveu na lida da feira, atendendo e informando os visitantes e clientes. O Leandro, esposo da Gregória, colaborou com sua alquimia fina, e os filhos do casal Érica e Enrico também frequentaram os bastidores da barraca.

Valeu todo mundo - quem trabalhou, quem frequentou, quem se alimentou, se abasteceu ou quem só passou pra dar uma olhada. Foi uma experiência intensa e fina - um presente. Daqueles que só o Mestre e a nossa Madrinha sabem nos dar. Estou eterna agradecida.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre onças e pinguins

Duas matérias hoje nos jornais despertaram minha atenção, e deixaram-me, uma e/ou outra, chocada, passada, comovida, pensativa. A primeira é sobre a penalização de uma proprietária de fazenda no Pantanal Matogrossense que promovia safaris para turistas estrangeiros, tendo como alvo preferencial onças, pintadas e pardas. A dita senhora, que atende pelo irônico nome de Beatriz Rondon, parece que já chegou, em algum momento, a ser premiada como defensora das mesmas onças caçadas em sua fazenda. Vai entender. Coisas de Mato Grosso, acho. Foram três multas em um mês na fazendeira reincidente, totalizando ridículos R$ 230 mil para quem, segundo a matéria, cobrava US$ 30 mil dos turistas interessados em matar onças. Agora me diga: qual a graça disso? Matar onças... Só pode ser uma perversão do nosso melhor e mais valoroso bom senso.

Outra matéria é sobre os pinguins, esses nossos amigos de casaca que estão, como outros animais dos pólos, sofrendo com o aquecimento do planeta. Pois bem, os conhecidos como pinguins-adélia, que acho que são uns pequenininhos super-simpáticos, estão desaparecendo da Penísula Antártica porque as rochas onde punham seus ovos agora ficam cobertas pela neve que se precipita em maior quantidade. Então não tem mais como fazer os ninhos. E a outra péssima notícia é sobre os Imperadores, aqueles d'A Marcha dos Pinguins (que não viu este filme, ou não conhece a valentia desses seres, precisa se atualizar!), que desapareceram da região. Uma única colônia que tinha por ali, sumiu. Para onde foram eles? Refugiados ambientais, drama de muitas populações humanas.

Mas hoje quiz mesmo é falar dos animais, que estão vivendo suas vidas e sendo afetados dramaticamente pela nossa. Eles não nos acusam, não apontam seus dedos para nós, não nos xingam, nem ficam por aí se queixando, ressentidos. Não sei muito bem o que eles fazem, ou como designar o que fazem. A vida quer viver, eles vivem. E se não dá mais pra viver, não vivem mais. Talvez seja assim, meio natureza mesmo, simples, natural. Mas não dá pra não pensar no que nós estamos fazendo, com eles e com nós mesmos, privando-nos da sua companhia no planeta, da sua companhia nesta nossa viagem pelo espaço cósmico a bordo da nave Terra. Tornando a viagem mais árdua, e a nossa nave um ambiente difícil pra se viver. Sei lá, devemos estar precisando viver tudo isso. Será? Pra chegar a onde mesmo se tudo já está aqui...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Arraiá do Alto Santo


Então é isso, pessoal, na semana que vem (6a feira, sábado e domingo) tem arraial do bom lá na madrinha Peregrina!

Já fazem 40 anos que o nosso querido e saudoso Mestre Irineu realizou sua passagem. Foram também 40 anos sem arraial, festança que sempre acontecia nos bons "tempos do Mestre". Hoje, ali onde é o túmulo dele, contam os mais velhos que era justamente o lugar do arraial. Pois é, eis que este ano nossa igualmente querida madrinha resolveu nos presentear, a todos, com a reedição da festa.

Tá a maior correria. Só quem já organizou uma coisa assim pode imaginar, ainda mais porque somos meio novatos, calouros, não participamos dos arraiais antigos e ainda não havíamos organizado um juntos. Um bom trabalho coletivo, um esforço de união, cuidar do que é nosso - não poderia ter sido melhor e maior o presente que a nossa madrinha nos deu.

Os recursos financeiros arrecadados, assim como os do bazar que funcionou nos meses de março e abril, são para reformas necessárias na nossa sede. Pois é, teve uma obra há tão pouco tempo, mas pelo visto não foi tão bem feita como deveria. Coisas de licitação, onde você não escolhe quem você quer que faça a obra. Mas enfim, como tudo está como deve estar, tudo isso está sendo de muita serventia para a nossa convivência como irmandade, e também para receber os amigos e amigas que vierem prestigiar o Arraiá do Alto Santo.

Vai ter de tudo que um arraial tem direito, como quadrilha, bingo, jogos, música e comidas. Adianto que participo de uma equipe que está produzindo uma barraca por nome Orgânica, onde serão oferecidos alimentos e produtos orgânicos, indo do palmito assado, batata-doce assada, frutas diversas, tapioca com recheios diversos, sempre naturais, a sanduíches de pão integral caseiro, água de coco e açaí com granola artesanal. Nossa proposta é que haja também um setor de venda dos produtos, pra quem quiser, digamos assim, fazer a feira! Estamos em contato com diversos produtores orgânicos da cidade e arredores, que estarão colaborando conosco.

Estão, portanto, todos e todas convidados. Ah, sim, o horário, que acabou não saindo no cartaz: a partir das 18 horas. Espero vocês lá!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Manejo da pesca e a "psicultura"

O texto abaixo me chegou por email, vindo o Marcelo Apel, educador popular que conheci nos anos 80, quando ele morava no Paraná. Depois o Marcelo andou. Foi pro Maranhão e de lá começou sua peregrinação amazônica, passando pelo Pará, Amapá, e chegou ao Acre, sempre trabalhando com pescadores familiares em projetos de manejo comunitário, organização de associações e outras coisas mais. Ele ainda é pai da Enaiê, que é minha aluna na Ufac, uma querida, opinião compartilhada também pelo Wilian, que também é meu aluno e namorado dela. Pois bem, o Marcelo enviou um texto contando sobre o manejo comunitário de Pirarucu aqui no Acre, como a coisa andou e como está a andar. Tomei a liberdade de fazer uma pequena edição. Vale ler, é tão difícil chegar informação mais de dentro desses projetos e de quem conhece o babado e tem compromisso.

Sim? Não? Talvez? Por quê?

O Manejo da Pesca e do Pirarucu vai continuar...

e a pesca? e os pescadores? ah sim, e os peixes? pois sem peixe não tem pesca e sem pesca não tem pescador... e o peixe se está acabando...

“é mas o que Deus deu não se acaba... não se acaba, mas fica pouco, num é mermo? bem pouquinho, quase um nadinha”...

é assim que estava (e está) a pesca nas cabeceiras... e aí faz o que? discute com os pescadores e com os ribeirinhos, pesquisa, investiga, propõe, escreve um projeto...

a pesca só, não acaba com os peixes, a devastação florestal é muito mais prejudicial, assoreia rios, igarapés lagos, e diminui a alimentação dos peixes e locais de desova e refúgio, diminui a água... aí trabalha, trabalha, trabalha... e depois de algum tempo avalia, revê, repensa, reescreve, aprende... e trabalha de novo e a coisa começa aparecer... é possível fazer alguma coisa... os resultados mostram...

mais de 440 famílias de ribeirinhos e pescadores se envolveram e acreditaram que é possível...

e a coisa tem que ser de “acordo” senão, não vai... então, embora fazer um “Acordo de Pesca”...

e foram feitos 5 acordos em 13 lagos, com 32 comunidades e 3 Colônias de Pescadores... incluindo aí duas comunidades indígenas Huni Kuî... e isso é gente bastante, assim umas 2200 pessoas... uns 1500 eleitores...

nesse meio tempo... um peixe grande cruza o caminho... “é prá pirar”... é pirarucu...

e põe grande nisso, 2,70 metros e maior ainda 2,80 metros... e nem é mentira de pescador, não... em três anos dá um salto de produtividade... de 56 para 187, só no lago Santo Antonio...

gente, dá mais que criar boi... temos até 9 pirarucu por hectare de água... adulto chega a 5...

e, boi é quantos mermo? Maninho, nem chega a dois... ôôô desperdício de floresta...

começou num lago só... criança também começa pequena... é mais fácil de controlar e conforme vai crescendo a gente vai aprendendo... aí passou para dois lagos, três... e agora já são 10 em Manoel Urbano e Feijó... e dá para trabalhar também com este senhor em Tarauacá, Cruzeiro, Rodrigues Alves, Plácido, Santa Rosa... onde tiver lago...

mas esse bicho come muito, acaba com as piabas e os pescadores vão pescar o que?

diz os entendido (de nada) que um pirarucu come até 3000 branquinha/mocinha por ano, é muito peixe... mas um pirarucu desova por ano até 5000 filhos, é muito peixe... só chega a crescer e ficar adulto uns 40 a 50... e os outros? viraram comida de peixe e de outros bicho... a natureza é sábia e nós não “aprende” com ela... num lago tem que ter de tudo desde peixe que come lodo, que come fruta, que come capim até peixe que come outros peixes... ou alguma coisa está desequilibrada... até peixe que morre de velho, mas isso é história de pescador.

é mas tem que se organizar, e tem que ter gente pra trabalhar, e tem que ter dinheiro, e tem que ter pesquisa...

aí a parceria é importante... e bota comunidades, e bota Colônias de Pescadores, e bota IBAMA, e SEMA, e IMAC, e UFAC, e MPA, e WWF, e MDA, e SEAP, e Aldeias, e Prefeituras, e PM, e Sindicatos de Trabalhadores Rurais, e Associação das Comunidades, e Igrejas, e ONG’s... e a SEAPROF puxando a coisa toda, aí a coisa cresceu, engrandeceu e andou, e não parou...

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e melhorou o que para os pescadores e comunitários?

com o pirarucu os pescadores passaram a ter mais uma fonte de renda... antes não existia pirarucu ou tinha bem pouquinho... são pelo menos R$ 800,00 - em mais ou menos um mês de trabalho por ano...

os lagos com acordos de pesca melhoraram?

nas pesquisas e monitoramentos realizados se pode ver que após os acordos os lagos produziram mais. Antes do acordo nos lagos um pescador que pescava em média até 168 kg passou a pescar até 227 kg, depois do acordo. Um aumento de 35 %... pouco, diriam alguns... com certeza é necessário monitorar de forma mais freqüente para ter mais segurança das informações... mas um grande avanço dentro de uma visão de que a quantidade de pescado estava diminuindo...

conseguir manter a quantidade de pescado igual já teria sido bom, ter aumentado “é muito mais bom”, ainda...

e tem um monte de gente que pesca só para comer e o que, que eles dizem:

“ficou melhor, aumentou o peixe; tem mais quantidade de peixe e a qualidade é melhor; ainda tem gente que não cumpre o acordo; diminuiu a pesca irregular”...

e olha que este povo de beira de rio e de lago come peixe... no Acre dependendo do lugar vai de 14, passando por 49 até 78 quilos de pescado por pessoa por ano... a média do Brasil é de 5,8 quilos de pescado por pessoa por ano... saúde e segurança alimentar com certeza... em média 125 gramas diários de pescado é preciso manter essa quantidade...

mas e agora??? desde janeiro acabou-se este trabalho?

só se houve falar de piscicultura... e grandes somas – Governo do Estado diz R$ 40 milhões, BASA fala em (mais?) R$ 60 milhões...

10% disso já seria um bom começo para manter o trabalho de manejo da pesca... assim uns R$ 4 milhões, mas se tiver a metade (não vou diminuir mais, não) nos próximos 4 anos dá para continuar e aumentar muito o trabalho... aprender mais, pois cada lago é cada lago e cada pescador e ribeirinho, e cada comunidade e Colônia de Pescadores é um mundo... e os resultados virão...

teremos mais luz e mais felicidade...

meio japiim

Aquiry, abril 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

BELO MONTE: O DIÁLOGO QUE NÃO HOUVE

CARTA ABERTA À OPINIÃO PÚBLICA NACIONAL E INTERNACIONAL

Venho mais uma vez manifestar-me publicamente em relação ao projeto do Governo Federal de construir a Usina Hidrelétrica Belo Monte cujas consequências irreversíveis atingirão especialmente os municípios paraenses de Altamira, Anapu, Brasil Novo, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu e os povos indígenas da região.

Como Bispo do Xingu e presidente do Cimi, solicitei uma audiência com a Presidente Dilma Rousseff para apresentar-lhe, à viva voz, nossas preocupações, questionamentos e todos os motivos que corroboram nossa posição contra Belo Monte. Lamento profundamente não ter sido recebido.

Diferentemente do que foi solicitado, o Governo me propôs um encontro com o Ministro de Estado da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. No entanto, o Senhor
Ministro declarou na última quarta-feira, 16 de março, em Brasília, diante de mais de uma centena de lideranças sociais e eclesiais, participantes de um Simpósio Sobre Mudanças Climáticas que “há no governo uma convicção firmada e fundada que tem que haver Belo Monte, que é possível, que é viável... Então, eu não vou dizer prá Dilma não fazer Belo Monte, porque eu acho que Belo Monte vai ter que ser construída”.

Esse posicionamento evidencia mais uma vez que ao Governo só interessa comunicar-nos as decisões tomadas, negando-nos qualquer diálogo aberto e substancial. Assim, uma reunião com o Ministro de Estado Gilberto Carvalho não faz nenhum sentido, razão pela qual resolvi declinar do convite.

Nestes últimos anos não medimos esforços para estabelecer um canal de diálogo com o Governo brasileiro acerca deste projeto. Infelizmente, constatamos que esse almejado diálogo foi inviabilizado já desde o início. As duas audiências realizadas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, em 19 de março e 22 de julho de 2009, não passaram de formalidades. Na segunda audiência, o ex-presidente nos prometeu que os representantes do setor energético, com brevidade, apresentariam uma resposta aos bem fundamentados questionamentos técnicos feitos à obra pelo Dr. Célio Bermann, professor do curso de pós-graduação em energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Essa resposta nunca foi dada, como também nunca foram levados em conta os argumentos técnicos contidos na Nota Pública do Painel de Especialistas, composto por 40 cientistas, pesquisadores e professores universitários.

Observamos, pelo contrário, na sequência a essas audiências, que técnicos do Ibama reclamaram estar sob pressão política para concluir com maior rapidez os seus pareceres e emitir a Licença Prévia para a construção da usina. Tais pressões políticas são de conhecimento público e motivaram, inclusive, a demissão de diversos diretores e presidentes do órgão ambiental oficial. Em seguida, foi concedida uma "Licença Específica", não prevista na legislação ambiental brasileira, para a instalação do canteiro de obras.

No dia 8 de fevereiro de 2011, povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e representantes de diversas organizações da sociedade realizaram uma manifestação pública em
frente ao Palácio do Planalto. Na ocasião, foi entregue um abaixo-assinado contrário à obra bastante antecedência, não foram recebidos pela Presidente. Conseguiram apenas entregar ao ministro substituto da Secretaria Geral da Presidência, Rogério Sottili, uma carta em que apontaram uma série de argumentos para justificar o posicionamento contrário à obra. O ministro prometeu mais uma vez o diálogo e considerou a carta "um relato que prezo, talvez um dos mais importantes da minha relação política no Governo (...) vou levar este relato, esta carta, este manifesto de vocês, os reclamos de vocês...". Até o momento, nenhuma resposta!

As quatro audiências - realizadas em Altamira, Brasil Novo, Vitória do Xingu e Belém - não passaram de mero formalismo para chancelar decisões já tomadas pelo Governo e cumprir um
protocolo. A maioria da população ameaçada não conseguiu se fazer presente. Pessoas contrárias à obra que conseguiram chegar aos locais das audiências não tiveram oportunidade real de participação e manifestação, devido ao descabido aparato bélico montado pela Polícia.

Até o presente momento, os índios não foram ouvidos. As "oitivas" indígenas não aconteceram. Algumas reuniões foram realizadas com o objetivo de informar os índios sobre a Usina. Os indígenas que fizeram constar em ata sua posição contrária à UHE Belo Monte foram tranquilizados por funcionários da Funai que as "oitivas" seriam realizadas posteriormente. Para
surpresa de todos nós, as atas das reuniões informativas foram publicadas pelo Governo de
maneira fraudulenta em um documento intitulado "Oitivas Indígenas". Esse fato foi denunciado
pelos indígenas que participaram das reuniões. Com base nestas denúncias, peticionamos à
Procuradoria Geral da República investigação e tomada de providências cabíveis.

A tese defendida pelo Sr. Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), de que as aldeias indígenas não serão afetadas pela UHE Belo Monte, por não serem inundadas, é mera tentativa de confundir a opinião pública. Ocorrerá justamente o contrário: os habitantes, tanto nas aldeias como na margem do rio, ficarão praticamente sem água, em decorrência da redução do volume hídrico. Ora, esses povos vivem da pesca e da agricultura familiar e utilizam o rio para se locomover. Como chegarão a Altamira para fazer compras ou levar doentes, quando um paredão de 1.620 metros de comprimento e de 93 metros de altura for erguido diante deles?

Julgo fundamental esclarecer que não há nenhum estudo sobre o impacto que sofrerão os municípios à jusante - Senador José Porfírio e Porto de Moz - como também sobre a qualidade da
água do reservatório a ser formado. Qual será o futuro de Altamira, com uma população atual de
105 mil habitantes, ao ser transformada numa península margeada por um lago podre e morto?
Os atingidos pela barragem de Tucuruí tiveram que abandonar a região por causa de inúmeras
pragas de mosquitos e doenças endêmicas. Mas os tecnocratas e políticos que vivem na capital
federal simplesmente menosprezam a possibilidade de que o mesmo venha a acontecer em
Altamira.

Alertamos a sociedade nacional e internacional que Belo Monte está sendo alicerçada na ilegalidade e na negação de diálogo com as populações atingidas, correndo o risco de ser
construída sob o império da força armada, a exemplo do que vem ocorrendo com a Transposição
das águas do rio São Francisco no Nordeste do país.

O Governo Federal, no caso da construção da UHE Belo Monte, será diretamente responsável pela desgraça que desabará sobre a região do Xingu e sobre toda a Amazônia.

Por fim, declaramos que nenhuma “condicionante” será capaz de justificar a UHE Belo Monte. Jamais aceitaremos esse projeto de morte. Continuaremos a apoiar a luta dos povos do Xingu contra a construção desse “monumento à insanidade”.

Brasília, 25 de março de 2011

Dom Erwin Kräutler
Bispo do Xingu e Presidente do Cimi – Conselho Indigenista Missionário

domingo, 13 de março de 2011

Atenção antropólogos e afins!

Pois é, agora em agosto próximo, teremos este importante evento em Boa Vista, Roraima. Boa oportunidade para ir até o topo do Brasil e ficar sabendo um pouco mais sobre nós mesmos. Entrei no site hoje e vi: são 33 grupos de trabalho nos quais podemos inscrever nossas propostas de trabalho até o dia 09 de abril. Se você quiser saber quais são, clique aqui. Haverão palestras e mesa-redondas, mas estas, já definidas, ainda não estão no site do evento.

É isso, colegas e interessados, tá marcado nosso encontro!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Pirataria-net (da perna-de-pau)

Há dois dias, pesquisando na internet informações sobre os Kuntanawa, deparei-me com uma referência "Os Kuntanawa e a ayahuasca". Opa, vou lá ver, o tema me interessa, quem será que está escrevendo ou o que será que estão dizendo?

Clico então no link (clique vc também).

O que encontro?

Primeiro, uma foto do Osmildo de minha autoria, e logo mais abaixo outra de seu Milton também de minha autoria. Créditos? Claro que nenhum. As demais fotos não conheço. Já fiquei meio incomodada.

Vou ler o texto. Epa, tá meio familiar... Ora, o texto é meu, rapaz! Pois é, o texto é meu. Mas, da onde o cara pode ter tirado o texto, da onde? Hum, deixa eu ver... Ah, sim, do site do Instituto Socioambiental, do verbete "Kuntanawa" que eu mesma escrevi. As fotos também vieram de lá, onde estão devidamente identificadas e creditadas, assim como o texto.

Fiquei fula da vida. Tentei postar um comentário no site ladrão, mas não consegui saber como fazê-lo. Cadastrei-me, registrei senha etc etc, mas não consegui postar nenhum comentário - queria protestar! Aí descobri um outro endereço eletrônico do moderador do tema da "ayahuasca", que atende pelo nome "eusonho". Escrevi protestando.

Poucos dias depois, sem nenhum retorno dele, vim escrever esta postagem. Qual a minha surpresa quando vou novamente olhar meu texto no site e está lá, no final do texto, minha autoria! Quer dizer, está assim:

"Texto:
Mariana
Sexo: Feminino
Quem sou eu

Gosto de ser, entre outras coisas, antropóloga. Ando pelo Acre, este pequeno-grande estado amazônico, desde 1991. Na capital Rio Branco, estou desde 2002. Moro numa "colocaçãozinha" urbana (pergunte a um seringueiro o que é isso). Aqui, na floresta, faço todos os meus trabalhos: pessoais, intelectuais, sociais e espirituais. Idéias e sensações têm aflorado nos últimos tempos, e algumas delas pedem para sair e se expor. Daí vem este blog: um pouco de tudo, de tudo um pouco."

Ou seja, foi justamente retirado deste blog. Aí fiquei na maior dúvida: isso já estava aí ou foi colocado após os meus protestos? Fiquei alguns dias pensando nisso. Não tenho 100% de certeza, mas estou quase certo que o adendo é novo. Não lembro dele antes, e olha que ele está assim mesmo, em negrito e numa fonte maior. De todo jeito, isso lá é jeito de creditar um texto? Quem é "Mariana"? Não dá nem o endereço do blog!

Então, tá aqui, meu protesto registrado sobre a forma leviana como produções próprias podem ser tratadas. Não há nenhum problema em reproduzir os textos - estou mais para Creative Commons do que para Copyright - mas à César o que é de César. Ou eu estou sonhando ou o outro está viajando!