terça-feira, 12 de abril de 2011

Manejo da pesca e a "psicultura"

O texto abaixo me chegou por email, vindo o Marcelo Apel, educador popular que conheci nos anos 80, quando ele morava no Paraná. Depois o Marcelo andou. Foi pro Maranhão e de lá começou sua peregrinação amazônica, passando pelo Pará, Amapá, e chegou ao Acre, sempre trabalhando com pescadores familiares em projetos de manejo comunitário, organização de associações e outras coisas mais. Ele ainda é pai da Enaiê, que é minha aluna na Ufac, uma querida, opinião compartilhada também pelo Wilian, que também é meu aluno e namorado dela. Pois bem, o Marcelo enviou um texto contando sobre o manejo comunitário de Pirarucu aqui no Acre, como a coisa andou e como está a andar. Tomei a liberdade de fazer uma pequena edição. Vale ler, é tão difícil chegar informação mais de dentro desses projetos e de quem conhece o babado e tem compromisso.

Sim? Não? Talvez? Por quê?

O Manejo da Pesca e do Pirarucu vai continuar...

e a pesca? e os pescadores? ah sim, e os peixes? pois sem peixe não tem pesca e sem pesca não tem pescador... e o peixe se está acabando...

“é mas o que Deus deu não se acaba... não se acaba, mas fica pouco, num é mermo? bem pouquinho, quase um nadinha”...

é assim que estava (e está) a pesca nas cabeceiras... e aí faz o que? discute com os pescadores e com os ribeirinhos, pesquisa, investiga, propõe, escreve um projeto...

a pesca só, não acaba com os peixes, a devastação florestal é muito mais prejudicial, assoreia rios, igarapés lagos, e diminui a alimentação dos peixes e locais de desova e refúgio, diminui a água... aí trabalha, trabalha, trabalha... e depois de algum tempo avalia, revê, repensa, reescreve, aprende... e trabalha de novo e a coisa começa aparecer... é possível fazer alguma coisa... os resultados mostram...

mais de 440 famílias de ribeirinhos e pescadores se envolveram e acreditaram que é possível...

e a coisa tem que ser de “acordo” senão, não vai... então, embora fazer um “Acordo de Pesca”...

e foram feitos 5 acordos em 13 lagos, com 32 comunidades e 3 Colônias de Pescadores... incluindo aí duas comunidades indígenas Huni Kuî... e isso é gente bastante, assim umas 2200 pessoas... uns 1500 eleitores...

nesse meio tempo... um peixe grande cruza o caminho... “é prá pirar”... é pirarucu...

e põe grande nisso, 2,70 metros e maior ainda 2,80 metros... e nem é mentira de pescador, não... em três anos dá um salto de produtividade... de 56 para 187, só no lago Santo Antonio...

gente, dá mais que criar boi... temos até 9 pirarucu por hectare de água... adulto chega a 5...

e, boi é quantos mermo? Maninho, nem chega a dois... ôôô desperdício de floresta...

começou num lago só... criança também começa pequena... é mais fácil de controlar e conforme vai crescendo a gente vai aprendendo... aí passou para dois lagos, três... e agora já são 10 em Manoel Urbano e Feijó... e dá para trabalhar também com este senhor em Tarauacá, Cruzeiro, Rodrigues Alves, Plácido, Santa Rosa... onde tiver lago...

mas esse bicho come muito, acaba com as piabas e os pescadores vão pescar o que?

diz os entendido (de nada) que um pirarucu come até 3000 branquinha/mocinha por ano, é muito peixe... mas um pirarucu desova por ano até 5000 filhos, é muito peixe... só chega a crescer e ficar adulto uns 40 a 50... e os outros? viraram comida de peixe e de outros bicho... a natureza é sábia e nós não “aprende” com ela... num lago tem que ter de tudo desde peixe que come lodo, que come fruta, que come capim até peixe que come outros peixes... ou alguma coisa está desequilibrada... até peixe que morre de velho, mas isso é história de pescador.

é mas tem que se organizar, e tem que ter gente pra trabalhar, e tem que ter dinheiro, e tem que ter pesquisa...

aí a parceria é importante... e bota comunidades, e bota Colônias de Pescadores, e bota IBAMA, e SEMA, e IMAC, e UFAC, e MPA, e WWF, e MDA, e SEAP, e Aldeias, e Prefeituras, e PM, e Sindicatos de Trabalhadores Rurais, e Associação das Comunidades, e Igrejas, e ONG’s... e a SEAPROF puxando a coisa toda, aí a coisa cresceu, engrandeceu e andou, e não parou...

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e melhorou o que para os pescadores e comunitários?

com o pirarucu os pescadores passaram a ter mais uma fonte de renda... antes não existia pirarucu ou tinha bem pouquinho... são pelo menos R$ 800,00 - em mais ou menos um mês de trabalho por ano...

os lagos com acordos de pesca melhoraram?

nas pesquisas e monitoramentos realizados se pode ver que após os acordos os lagos produziram mais. Antes do acordo nos lagos um pescador que pescava em média até 168 kg passou a pescar até 227 kg, depois do acordo. Um aumento de 35 %... pouco, diriam alguns... com certeza é necessário monitorar de forma mais freqüente para ter mais segurança das informações... mas um grande avanço dentro de uma visão de que a quantidade de pescado estava diminuindo...

conseguir manter a quantidade de pescado igual já teria sido bom, ter aumentado “é muito mais bom”, ainda...

e tem um monte de gente que pesca só para comer e o que, que eles dizem:

“ficou melhor, aumentou o peixe; tem mais quantidade de peixe e a qualidade é melhor; ainda tem gente que não cumpre o acordo; diminuiu a pesca irregular”...

e olha que este povo de beira de rio e de lago come peixe... no Acre dependendo do lugar vai de 14, passando por 49 até 78 quilos de pescado por pessoa por ano... a média do Brasil é de 5,8 quilos de pescado por pessoa por ano... saúde e segurança alimentar com certeza... em média 125 gramas diários de pescado é preciso manter essa quantidade...

mas e agora??? desde janeiro acabou-se este trabalho?

só se houve falar de piscicultura... e grandes somas – Governo do Estado diz R$ 40 milhões, BASA fala em (mais?) R$ 60 milhões...

10% disso já seria um bom começo para manter o trabalho de manejo da pesca... assim uns R$ 4 milhões, mas se tiver a metade (não vou diminuir mais, não) nos próximos 4 anos dá para continuar e aumentar muito o trabalho... aprender mais, pois cada lago é cada lago e cada pescador e ribeirinho, e cada comunidade e Colônia de Pescadores é um mundo... e os resultados virão...

teremos mais luz e mais felicidade...

meio japiim

Aquiry, abril 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

BELO MONTE: O DIÁLOGO QUE NÃO HOUVE

CARTA ABERTA À OPINIÃO PÚBLICA NACIONAL E INTERNACIONAL

Venho mais uma vez manifestar-me publicamente em relação ao projeto do Governo Federal de construir a Usina Hidrelétrica Belo Monte cujas consequências irreversíveis atingirão especialmente os municípios paraenses de Altamira, Anapu, Brasil Novo, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu e os povos indígenas da região.

Como Bispo do Xingu e presidente do Cimi, solicitei uma audiência com a Presidente Dilma Rousseff para apresentar-lhe, à viva voz, nossas preocupações, questionamentos e todos os motivos que corroboram nossa posição contra Belo Monte. Lamento profundamente não ter sido recebido.

Diferentemente do que foi solicitado, o Governo me propôs um encontro com o Ministro de Estado da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. No entanto, o Senhor
Ministro declarou na última quarta-feira, 16 de março, em Brasília, diante de mais de uma centena de lideranças sociais e eclesiais, participantes de um Simpósio Sobre Mudanças Climáticas que “há no governo uma convicção firmada e fundada que tem que haver Belo Monte, que é possível, que é viável... Então, eu não vou dizer prá Dilma não fazer Belo Monte, porque eu acho que Belo Monte vai ter que ser construída”.

Esse posicionamento evidencia mais uma vez que ao Governo só interessa comunicar-nos as decisões tomadas, negando-nos qualquer diálogo aberto e substancial. Assim, uma reunião com o Ministro de Estado Gilberto Carvalho não faz nenhum sentido, razão pela qual resolvi declinar do convite.

Nestes últimos anos não medimos esforços para estabelecer um canal de diálogo com o Governo brasileiro acerca deste projeto. Infelizmente, constatamos que esse almejado diálogo foi inviabilizado já desde o início. As duas audiências realizadas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, em 19 de março e 22 de julho de 2009, não passaram de formalidades. Na segunda audiência, o ex-presidente nos prometeu que os representantes do setor energético, com brevidade, apresentariam uma resposta aos bem fundamentados questionamentos técnicos feitos à obra pelo Dr. Célio Bermann, professor do curso de pós-graduação em energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Essa resposta nunca foi dada, como também nunca foram levados em conta os argumentos técnicos contidos na Nota Pública do Painel de Especialistas, composto por 40 cientistas, pesquisadores e professores universitários.

Observamos, pelo contrário, na sequência a essas audiências, que técnicos do Ibama reclamaram estar sob pressão política para concluir com maior rapidez os seus pareceres e emitir a Licença Prévia para a construção da usina. Tais pressões políticas são de conhecimento público e motivaram, inclusive, a demissão de diversos diretores e presidentes do órgão ambiental oficial. Em seguida, foi concedida uma "Licença Específica", não prevista na legislação ambiental brasileira, para a instalação do canteiro de obras.

No dia 8 de fevereiro de 2011, povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e representantes de diversas organizações da sociedade realizaram uma manifestação pública em
frente ao Palácio do Planalto. Na ocasião, foi entregue um abaixo-assinado contrário à obra bastante antecedência, não foram recebidos pela Presidente. Conseguiram apenas entregar ao ministro substituto da Secretaria Geral da Presidência, Rogério Sottili, uma carta em que apontaram uma série de argumentos para justificar o posicionamento contrário à obra. O ministro prometeu mais uma vez o diálogo e considerou a carta "um relato que prezo, talvez um dos mais importantes da minha relação política no Governo (...) vou levar este relato, esta carta, este manifesto de vocês, os reclamos de vocês...". Até o momento, nenhuma resposta!

As quatro audiências - realizadas em Altamira, Brasil Novo, Vitória do Xingu e Belém - não passaram de mero formalismo para chancelar decisões já tomadas pelo Governo e cumprir um
protocolo. A maioria da população ameaçada não conseguiu se fazer presente. Pessoas contrárias à obra que conseguiram chegar aos locais das audiências não tiveram oportunidade real de participação e manifestação, devido ao descabido aparato bélico montado pela Polícia.

Até o presente momento, os índios não foram ouvidos. As "oitivas" indígenas não aconteceram. Algumas reuniões foram realizadas com o objetivo de informar os índios sobre a Usina. Os indígenas que fizeram constar em ata sua posição contrária à UHE Belo Monte foram tranquilizados por funcionários da Funai que as "oitivas" seriam realizadas posteriormente. Para
surpresa de todos nós, as atas das reuniões informativas foram publicadas pelo Governo de
maneira fraudulenta em um documento intitulado "Oitivas Indígenas". Esse fato foi denunciado
pelos indígenas que participaram das reuniões. Com base nestas denúncias, peticionamos à
Procuradoria Geral da República investigação e tomada de providências cabíveis.

A tese defendida pelo Sr. Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), de que as aldeias indígenas não serão afetadas pela UHE Belo Monte, por não serem inundadas, é mera tentativa de confundir a opinião pública. Ocorrerá justamente o contrário: os habitantes, tanto nas aldeias como na margem do rio, ficarão praticamente sem água, em decorrência da redução do volume hídrico. Ora, esses povos vivem da pesca e da agricultura familiar e utilizam o rio para se locomover. Como chegarão a Altamira para fazer compras ou levar doentes, quando um paredão de 1.620 metros de comprimento e de 93 metros de altura for erguido diante deles?

Julgo fundamental esclarecer que não há nenhum estudo sobre o impacto que sofrerão os municípios à jusante - Senador José Porfírio e Porto de Moz - como também sobre a qualidade da
água do reservatório a ser formado. Qual será o futuro de Altamira, com uma população atual de
105 mil habitantes, ao ser transformada numa península margeada por um lago podre e morto?
Os atingidos pela barragem de Tucuruí tiveram que abandonar a região por causa de inúmeras
pragas de mosquitos e doenças endêmicas. Mas os tecnocratas e políticos que vivem na capital
federal simplesmente menosprezam a possibilidade de que o mesmo venha a acontecer em
Altamira.

Alertamos a sociedade nacional e internacional que Belo Monte está sendo alicerçada na ilegalidade e na negação de diálogo com as populações atingidas, correndo o risco de ser
construída sob o império da força armada, a exemplo do que vem ocorrendo com a Transposição
das águas do rio São Francisco no Nordeste do país.

O Governo Federal, no caso da construção da UHE Belo Monte, será diretamente responsável pela desgraça que desabará sobre a região do Xingu e sobre toda a Amazônia.

Por fim, declaramos que nenhuma “condicionante” será capaz de justificar a UHE Belo Monte. Jamais aceitaremos esse projeto de morte. Continuaremos a apoiar a luta dos povos do Xingu contra a construção desse “monumento à insanidade”.

Brasília, 25 de março de 2011

Dom Erwin Kräutler
Bispo do Xingu e Presidente do Cimi – Conselho Indigenista Missionário

domingo, 13 de março de 2011

Atenção antropólogos e afins!

Pois é, agora em agosto próximo, teremos este importante evento em Boa Vista, Roraima. Boa oportunidade para ir até o topo do Brasil e ficar sabendo um pouco mais sobre nós mesmos. Entrei no site hoje e vi: são 33 grupos de trabalho nos quais podemos inscrever nossas propostas de trabalho até o dia 09 de abril. Se você quiser saber quais são, clique aqui. Haverão palestras e mesa-redondas, mas estas, já definidas, ainda não estão no site do evento.

É isso, colegas e interessados, tá marcado nosso encontro!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Pirataria-net (da perna-de-pau)

Há dois dias, pesquisando na internet informações sobre os Kuntanawa, deparei-me com uma referência "Os Kuntanawa e a ayahuasca". Opa, vou lá ver, o tema me interessa, quem será que está escrevendo ou o que será que estão dizendo?

Clico então no link (clique vc também).

O que encontro?

Primeiro, uma foto do Osmildo de minha autoria, e logo mais abaixo outra de seu Milton também de minha autoria. Créditos? Claro que nenhum. As demais fotos não conheço. Já fiquei meio incomodada.

Vou ler o texto. Epa, tá meio familiar... Ora, o texto é meu, rapaz! Pois é, o texto é meu. Mas, da onde o cara pode ter tirado o texto, da onde? Hum, deixa eu ver... Ah, sim, do site do Instituto Socioambiental, do verbete "Kuntanawa" que eu mesma escrevi. As fotos também vieram de lá, onde estão devidamente identificadas e creditadas, assim como o texto.

Fiquei fula da vida. Tentei postar um comentário no site ladrão, mas não consegui saber como fazê-lo. Cadastrei-me, registrei senha etc etc, mas não consegui postar nenhum comentário - queria protestar! Aí descobri um outro endereço eletrônico do moderador do tema da "ayahuasca", que atende pelo nome "eusonho". Escrevi protestando.

Poucos dias depois, sem nenhum retorno dele, vim escrever esta postagem. Qual a minha surpresa quando vou novamente olhar meu texto no site e está lá, no final do texto, minha autoria! Quer dizer, está assim:

"Texto:
Mariana
Sexo: Feminino
Quem sou eu

Gosto de ser, entre outras coisas, antropóloga. Ando pelo Acre, este pequeno-grande estado amazônico, desde 1991. Na capital Rio Branco, estou desde 2002. Moro numa "colocaçãozinha" urbana (pergunte a um seringueiro o que é isso). Aqui, na floresta, faço todos os meus trabalhos: pessoais, intelectuais, sociais e espirituais. Idéias e sensações têm aflorado nos últimos tempos, e algumas delas pedem para sair e se expor. Daí vem este blog: um pouco de tudo, de tudo um pouco."

Ou seja, foi justamente retirado deste blog. Aí fiquei na maior dúvida: isso já estava aí ou foi colocado após os meus protestos? Fiquei alguns dias pensando nisso. Não tenho 100% de certeza, mas estou quase certo que o adendo é novo. Não lembro dele antes, e olha que ele está assim mesmo, em negrito e numa fonte maior. De todo jeito, isso lá é jeito de creditar um texto? Quem é "Mariana"? Não dá nem o endereço do blog!

Então, tá aqui, meu protesto registrado sobre a forma leviana como produções próprias podem ser tratadas. Não há nenhum problema em reproduzir os textos - estou mais para Creative Commons do que para Copyright - mas à César o que é de César. Ou eu estou sonhando ou o outro está viajando!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"A Terra é nosso parente"

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Talvez a mimosa pudica possa nos ajudar a entender a tragédia que se abateu nessa semana sobre a região serrana do Rio de Janeiro, causando mais de 600 mortes. A mimosa é uma plantinha sensitiva, conhecida popularmente como “dormideira”, “morre João’ ou “Maria-fecha a porta”, encontrada em locais úmidos da Mata Atlântica ou da Floresta Amazônica. Possui flores pequenas, cor de rosa, um caule com espinhos e folhas divididas em vários folíolos. O que ela tem a ver com as chuvas torrenciais que tantos estragos fizeram?

As imagens da TV mostraram um quadro desolador, com depoimentos dramáticos de sobreviventes. A correnteza, com forte estrondo, vem descendo do alto da serra. No caminho, arranca árvores, desenterra pedras, soterra casas e arrasta tudo o que encontra em sua frente: casas, carros, pontes, gente, bichos, corpos, barro, lama, entulho, lixo. Barreiras desabam nas áreas de encostas. Pequenos córregos e riachos se transformam em rios caudalosos que transbordam, irrompem velozmente pelas cidades e racham o asfalto, engolindo ruas, praças, bairros, semeando dor, sofrimento, morte. Um cenário de terra arrasada: escombros, devastação, destruição.

Ainda estamos contando, enterrando e chorando os mortos e os desabrigados em cinco cidades do Rio. A tragédia, em menores proporções, atingiu São Paulo, cuja capital ficou submersa, dando um nó no trânsito. A Folha publicou quarta-feira (12) foto impressionante: toneladas de garrafas plásticas cobrem o rio Pinheiro, que transbordou. Em Minas Gerais, 72 municípios estão debaixo d’água. A chuva castigou outros países - Austrália, Filipinas e Sri Lanka. Por que tanta raiva e tanta violência da natureza? Parece que o planeta está reagindo e é aqui que entra a Maria fecha a porta.

Teu pai morreu


A última vez que vi a Maria foi em setembro de 2007, em Soure, Ilha do Marajó, acompanhado de uma pajé cabocla, Zeneida Lima, e de um sábio guarani, então com 96 anos, o karai Tupá Werá, da Aldeia de M’Biguaçu (SC). Não resisti em reconstituir uma brincadeira de infância em Manaus, que consiste em passar a ponta do dedo no meio da sua folha, dizendo: “Maria, fecha a porta que teu pai morreu”. Ela fecha. Os folíolos obedecem sempre, se inclinam numa reverência e imediatamente murcham, para logo em seguida, com o pai ressuscitado, voltarem à posição normal.

Tem algo de mágico para uma criança falar com uma planta, trocar sensibilidade com ela, provocá-la e obter uma resposta imediata, o que não é nenhuma novidade para os índios para quem não é só a Maria que fecha sua porta, é possível falar com a Terra, as plantas, os bichos, os rios, os morros, as pedras. É outro sistema de pensamento. O guarani Marcos Moreira, meu aluno no curso de formação de professores, entrevistou para um trabalho de avaliação o velho karai Alexandre Acosta, da Aldeia de Jataity (RS) que declarou, entre outras coisas:

- Esta Terra que pisamos, é gente como nós, é nosso irmão. É por isso que o guarani respeita a Terra, que é também um guarani. O guarani não polui a água, pois é o sangue de um karai. Esta Terra tem vida, só que muita gente não sabe. É uma pessoa, tem alma. A mata, por exemplo, quando um guarani precisa cortar uma árvore pede licença, porque sabe que ela é uma pessoa. A Terra é nosso parente, mas está acima de nós. Por isso ensinamos as crianças a respeitarem a Terra, que até hoje se movimenta, só que não percebemos. Quando os parentes morrem, carne e corpo se misturam com a terra. Por isso, temos que respeitar esta terra e este mundo em que a gente vive.

A tragédia vivida em diferentes partes do Planeta nessa última semana não é um acidente natural, mas produto de uma intervenção desastrada do homem, que esqueceu que a Terra é gente como nós. As chuvas, que aterrorizam e paralisam as cidades, não causam tais estragos numa aldeia indígena. É que as cidades cresceram sem respeito ao “nosso parente”, se expandiram sem “pedir licença”, isto é, desordenadamente, agressivamente, sem planejamento de impacto ambiental e adoção de medidas para proteção de encostas, reflorestamento, uso do solo e destino do lixo urbano.

Jogar no mato


Na busca do lucro rápido, a especulação imobiliária desmatou indiscriminadamente, construiu em encostas, alterou os caminhos naturais da drenagem da água, tornando instáveis os terrenos e ferindo de morte a terra. Expulsos das áreas mais nobres, os deserdados abriram ainda mais a ferida, construindo perigosamente nos morros. Hoje, as cidades não ensinam às crianças sequer a tratar o lixo.

Quando chove, minha rua alaga. Da janela do meu apartamento, contemplo a estupidez humana. Vejo boiando garrafas pet, sacos de plástico, embalagens de alumínio, latas de refrigerantes, que entopem as grelhas dos bueiros das galerias pluviais, prejudicando a vazão da água. Na minha infância, a vovó Filó recomendava dar um destino ao lixo: “joga no mato”. Mas o lixo atirado no quintal era sobra de alimentos, casca de banana e de outras frutas, bagaço de laranja, que adubavam a terra.

Hoje, o lixo é formado por resíduos sólidos, embalagens descartáveis de plástico, lata, vidro, alumínio, mas continua predominando a mentalidade de “jogar no mato”. A foto da Folha de São Paulo é uma prova gritante do fracasso da educação ambiental na escola e no ambiente familiar. Crianças e adultos atiram o lixo em espaços coletivos, com a mentalidade patriarcal de que o espaço público é terra de ninguém e de que existem garis para limpar nossa sujeira. Quem a terra fere, com a terra será ferido?

Na visita feita ao sítio da pajé Zeneida Lima, em Soure, ela entrou no mato com o guarani Tupã Werá, conhecido no mundo não indígena como Alcindo Moreira. Os dois trocaram informações. Ali, onde qualquer pessoa, mesmo o paraense comum, só via árvores genéricas, eles viam cada espécie em particular. Alcindo dava o nome em guarani, algumas vezes também em português, descrevendo as propriedades medicinais ou alimentícias de cada planta.

- As árvores falam. A gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem - disse.

Gabriel Garcia Márquez conta que em dezembro de 1981 recebeu telefonema de um amigo sério e inteligente, perguntando-lhe qual era o tema da crônica da semana, que seria publicada no dia seguinte no jornal El Espectador, de Bogotá. Ele respondeu que estava escrevendo sobre o sofrimento das plantas e das flores, sustentando que elas têm alma. Alarmado, o amigo exclamou:

- Ay, carajo! Te estás volviendo maricón?.

Meus amigos do Ceará me informam que o governador Cid Gomes - aquele que levou a sogra para Paris com dinheiro público - encaminhou à Assembléia Legislativa, em caráter de urgência, Projeto de Lei que dá poderes extraordinários ao governador para dispensar de licenciamento ambiental no Estado do Ceará uma série de atividades, dentre as quais o desmatamento, os aterros sanitários, habitação dita de interesse social, estradas de rodagem, projetos agropecuários e outras atividades e obras modificadoras do meio ambiente.

Enquanto o planeta for povoado por machos dessa estirpe, que formulam e implementam políticas públicas, não ouviremos a voz da terra e as tragédias se repetirão. Maria, fecha a porta que teu pai está morrendo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Santos Reis

"Os três Reis do Oriente, que visitaram Jesus..."

Viva os Santos Reis! Que eles possam nos presentear, nos levando a visitar o Jesus que habita em cada um de nós.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Saramago para o Novo Ano

A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.
*
Fugir da morte pode tornar-se uma forma de fugir da vida.
*
O homem é o único animal capaz de chorar. E de sorrir. É diante do mar que o riso e a lágrima assumem uma importância absoluta. Dir-se-á que mais profundamente a assumiriam diante do universo, mas este, digo eu, está demasiadamente longe, fora do alcance de uma compreensão comum. O mar é o universo dentro de nós.
*
Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.