quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Feliz Natal

Germinam os desejos da alma,
crescem os atos da vontade,

maturam os frutos da vida.

Eu sinto meu destino,
meu destino me encontra.
Eu sinto minha estrela, minha estrela me encontra.
Eu sinto meus objetivos,
meus objetivos me encontram.

Minha alma e o mundo são um só.


A vida, ela se torna mais clara ao redor de mim,
a vida, ela se torna mais árdua para mim,
a vida, ela se torna mais rica em mim.

Busque a paz,
viva em paz,
ame a paz.

(Dança da Paz, Rudolf Steiner)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Sábado à noite na terra da Florestania

Este ano completa 20 anos do assassinato de Chico Mendes. Para marcar a data, o Prêmio Chico Mendes de Florestania, concedido pelo governo do estado, saiu um pouco do seu formato tradicional e premiou 20 pessoas, entregando a cada uma delas um diploma e uma espécie de troféu onde, numa madeira, está fincada um ouriço de castanha em bronze. Bonita a homenagem.

Na hora em que me arrumava para ir a premiação, pensei: “mas isso está com cara de evento ´chapa-branca´ e lá vou eu...”. Mas não dava para não ir: amigos muito caros estavam sendo contemplados pelo Prêmio e queria estar com eles, particularmente com um, que não via a uns dois anos, o Ailton Krenak. Arrumei-me para a noite. O convite dizia “esporte fino”, me previniu a Débora. Pensei: “vamos ver qual a leitura acreana do esporte fino”. E lá fui eu, de esporte fino: um vestido branquinho de algodão da Cantão, que comprei para levar para Paris e não consegui usar lá devido ao frio, e que ainda estava virgenzinho no guarda-roupa. Sapatilha ou sandália de salto? “Salto”, decretou a Débora. Ok, mas vou levar a sapatilha just in case, pois depois tinha uma festa na Malu. Arrematei com uma bolsa de couro vegetal, um colarzinho, brincos combinando e um baton pra dar um toque. Ao chegar lá, constatei: "esporte fino" é uma questão muito pessoal, ou sujeito a leituras bem subjetivas, ou ainda, exagerando um pouco, "cada um vai como quer". Os que estavam de paletó e gravata, como ensina o manual de esporte fino, confessavam certo constrangimento.

Foi um evento muito bonito, devo dizer com satisfação. Sob medida. O cerimonial enxuto, com direito a Vitor Fasano, bonitão lá no palco. Os discursos, de quem discursou (Marina, Binho, Raimundão, Toinho Alves, Steve Schwartmann e Jorge Viana), inspirados e também de bom tamanho, bons de ouvir. Houve um fantástico anti-clímax com a fala do Toinho, que fez uma auto-crítica por todos, encarnando, como disse o Binho, o Chico Mendes naquela noite e lembrando a todos que, sim, trabalharam muito nesses 20 anos, mas estão todos muito longes de ter cumprido o dever de casa. Muito pelo contrário, perdeu-se o foco, o extrativismo está como que às moscas, sem uma política consistente e permanente, e as Reservas Extrativistas em crise. É, foi boa esta parte da noite. Precisava.

Entre as premiações, divididas em três blocos, música: primeiro a Carol Freitas, que abriu o evento cantando aquela música do Vital Farias sobre “a bonita floresta, mata verde, céu azul, a mais bonita floresta”. Depois teve o Sérgio Souto, a Keyla e a noite fechou com Los Porongas. Demais!

E aí saímos para o hall, tomamos suco, tietamos os Porongas e ainda jantamos com os premiados no Inácio. Novamente, mais do que a comida, bem em desacordo com as minhas pessoais preferências alimentares, bom mesmo foi estar com os amigos: Ailton, o Toinho filhos, o Taska e a Laura, o Terri e sua extensa família indígena, o seu Antonio de Paula, a Sheyla e outros ali presentes.

É, teve bom. Só não deu pra ir na Malu que no dia seguinte tinha hinário...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

No Campus Floresta

Esta semana que passou estive em Cruzeiro do Sul. Fui participar de concurso da UFAC para preenchimento de vagas para professor. Estive em duas bancas, ambas selecionaram professores que estarão atuando no curso de Licenciatura Indígena, ou seja, professores que estarão dando aulas para indígenas, muitos dos quais, acho que quase todos, já atuando como docentes em escolas nas aldeias. Não vou contar do concurso, mesmo porque não pode, é meio secreto o que ocorre nas salas de aula e depois nos bastidores da banca. Então, deixa isso pra lá e vamos ao que me traz aqui hoje.

Quero falar do Campus Floresta, que me espantou pela ausência justamente do que a UFAC escolheu para batizá-lo: a floresta. Ao chegar, um susto: o estacionamento, amplo, imenso, asfaltado e sem um pé de planta para dar sombra, hoje ou futuramente. Fiquei sinceramente chocada com este cartão de visitas. E sem entender.

Comentei isso com alguns colegas professores, que na hora concordaram comigo. Um deles não descartou a possibilidade de um dia vir com uma picareta, abrir um buraco e plantar uma árvore pioneira no estacionamento. Seria um bravo ato, sem dúvida. Como pioneira, ela (a árvore) certamente sofreria um pouco sem companhia e no meio daquele asfalto que esquenta pra valer - mas esta parece ser a sina dos pioneiros e pioneiras: enfrentar resistência e dificuldades dobradas. Sugiro que esta árvore seja uma bem resistente, daquelas que não tem medo de "tempo ruim".

Entrando no campus, mais especificamente passeando entre os prédios novos, de cor clara e dois andares, agradáveis portanto, de novo, no que seriam áreas verdes internas, ausência de árvores. Uma ou outra espaçadamente plantada. Pensei, e falei: "mas aqui deveria haver era pequenas amostras de sistemas agroflorestais!". Imagina: entrar numa instituição de conhecimento científico e topar com pequenos sistemas diversos, a riqueza da floresta e do conhecimento humano associado a ela (pensando aqui nas plantas cultivadas) representadas em miniatura, uma espécie de bonsai da floresta. Bom, talvez isso já esteja começando a acontecer, pois vi bananeiras plantadas (na foto, bem ao fundo). De toda forma, o entorno do campus é inspirador, pois há uma matinha muito atrativa. Vale lembrar que o Campus Floresta da UFAC é um dos filhos que vingou da proposta de uma Universidade da Floresta, cujo mote inicial foi o intercâmbio entre conhecimentos nativos e científicos. Na construção, pelo menos, esta troca (ainda) não está espelhada.

Quero deixar claro que gostei muito de ter estado no Campus Floresta, encontrado colegas valorosos e que apostam suas vidas profissionais na região. Gente que veio de longe e que está dando o melhor de si para que a região do Juruá possa contar com uma instituição de ensino e pesquisa de qualidade. Vi isso no concurso, nas bancas de que participei e nos contatos e conversas que tive com alguns professores, como a Heide (na foto à esquerda, comigo, Maria e Selmo, já no aeroporto, na hora de ir embora) e o Marcus Athaydes, entre outros que infelizmente não recordo os nomes. Esclareço ainda que estou louca pra ser convidada a dar aulas lá, e espero que esta postagem não seja mal interpretada por meus colegas de Cruzeiro.

Tem algo na cultura universitária (talvez não só da UFAC), e na burocracia, que amarra idéias, enquadra propostas inovadoras, e nesta rigidez perde frescor e inteligência. E o resultado é que habitamos ambientes áridos e calourentos, uma tendência, inclusive, que ameaça toda a Amazônia. Precisamos ir na contra-mão!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Semana de Ciências Sociais

Na semana passada, o Centro Acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFAC realizou a Semana de Ciências Sociais, que, em sua sexta edição, teve como tema “De Chico Mendes ao Estado da Florestania: os desafios da sustentabilidade”. De segunda a sexta-feira foram quatro mesas-redondas e uma palestra, as primeiras no auditório da Biblioteca da Floresta e a segunda no Teatrão, tendo como palestrante a senadora Marina Silva, uma esperada presença pelos alunos do curso.

Não pude participar ao longo da semana, por motivos pessoais achava-me fora de Rio Branco. Mas na sexta-feira apresentei-me aos organizadores da Semana para mediar a mesa de encerramento batizada de “Reservas Extrativistas (por onde anda a ‘reforma agrária do seringueiro’)”. Embora o folder não tenha registrado, tratava-se de uma pergunta: em que pé estão as propostas de regularização fundiária adaptadas ao modo de vida daqueles que vivem na floresta? São várias delas: além da mais conhecida – as Reservas Extrativistas, fonte de inspiração e mesmo mãe de todas as demais – há ainda os Projetos Agroextrativistas (PAEs) e os Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS), além das Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS), entre outros formatos que buscam conciliar conservação e a presença de populações florestais não-indígenas.

As Reservas Extrativistas foram propostas em 1985, por ocasião do I Encontro Nacional de Seringueiros, realizado em Brasília. Naquela época, era claro para os seringueiros reunidos em Brasília por meio de seus sindicatos, associações, cooperativas e comunidades eclesiais de base, que o formato tradicional da reforma agrária – lotes – era totalmente inadequado, e insustentável, para aqueles que vivem na floresta do agroextrativismo. Recortar áreas de floresta em lotes era uma lógica que só podia fazer sentido na cabeça e mapa dos técnicos e burocratas de escritório, que não sabiam (muitos seguem sem saber) que a caça, os peixes, os cursos e espelhos d’água, os piques de castanha e as estradas de seringa não obedecem a traços geométricos e não respeitam este tipo de fronteira. Uma reforma agrária que mantivesse o sistema de colocações e evitasse a fragmentação da unidade pela venda das posses ou propriedades individuais: estes critérios orientavam as propostas de então. Inspirados nas Terras Indígenas chegou-se ao formato das Reservas Extrativistas: propriedade da União com usos e frutos dos moradores.

Todo esse percurso histórico, e mais rico de detalhes, foi tratado por Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primeiro a falar na mesa-redonda. Do alto de sua rica e já longa experiência como sindicalista e liderança de primeira hora, junto com outros, dos empates de então, Raimundão rememorou com emoção e de forma didática aqueles anos de esperança, lutas e criatividade, quando podia-se contar com a liderança inestimável de Chico Mendes. Em seguida, dona Maria das Dores da Silva Lima fez uma breve fala sobre o PAE São Luis do Remanso, onde vive. Dona Maria, que tem larga experiência a frente da organização local, focou sua fala nas iniciativas de manejo florestal (madeireiro e não) em curso no PAE. Com uma sutileza invejável, ela trouxe questões delicadas para discussão, como as irregularidades fundiárias presentes, os objetivos não só financeiros daqueles que aderem ao manejo, as políticas públicas que colocam esta opção [a do manejo] para os agroextrativistas, e não outras. O terceiro e último palestrante foi Eduardo Borges, o Cazuza, do Pesacre, que compartilhou com os presentes sua vivência de mais de dez anos na criação e implantação do PDS São Salvador, em Mâncio Lima, o primeiro criado no Acre. A presença e fala de Cazuza trouxeram a importância das parcerias na viabilização dessas áreas de reforma agrária, em particular com ONGs.

O debate foi animado, com muitos inscritos. Cheguei a pensar em fazer alguma fala, mas calculei que iria tomar mais tempo, havia uma ânsia da platéia em se manifestar e a noite era dos palestrantes. Então, me controlando com alguma dificuldade, não me manifestei sobre uma série de questões que apareceram e sobre as quais teria coisas a dizer. O manejo, como seria de se esperar, foi um tema bastante debatido. Ficou-me mais uma vez a impressão, que acabei explicitando ao final da noite, de que o debate em torno do tema carece de mais substância, de mais pesquisa de campo que possa esclarecer sobre os processos localmente em curso: como as populações locais estão vivenciando as iniciativas de manejo? O que, do ponto de vista delas, é positivo e o que não? O que pensam e querem? Os argumentos econômicos e ecológicos produzidos por técnicos e cientistas são, claro, parte importante do debate, mas há uma carência das argumentações nativas, digamos assim.

Enfim, naquela noite, muito modestamente, estivemos todos ali – alunos, professores e outros – ouvindo e aprendendo com palestrantes envolvidos mais ou menos diretamente na consolidação dessas experiências de reforma agrária diferenciada. Juntos exploramos as condições necessárias para o seu sucesso. Não todas, mas algumas, como o papel do Estado, os constrangimentos da lei, a questão tecnológica e da cadeia produtiva dos produtos florestais, a insegurança fundiária, a fiscalização ambiental. Não chegamos a conclusões, mas pistas de investigação foram ali apontadas. É um tema envolvente, dramático e atual. Um campo de pesquisa fascinante, e de militância apaixonante. Traz alegrias e decepções (como tudo na vida). Pode dar vontade de correr, mas é um osso difícil de largar de roer!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Almoço de domingo

Domingo foi dia de almoço aqui em casa. Dia de visitas amigas. Pilotando a comilança e o apetite do pessoal, o chef Meirelles, aqui já famoso pelo “molho-trisca” e outras aventuras. Cedo ele e Terri me acordaram: já estavam indo para o mercado. Fui encontrá-los carregados de sacolas com peixes, verduras, limão, frutas. Já pra casa que o peixe não pode ficar tanto tempo fora da geladeira sem tempero, e o processo de feitura é demorado, vamos começar logo. Com sorte, as 13 horas estamos almoçando.

Sob o comando então do Meirelles, Terri, Liulda e eu trabalhamos e nos divertimos na cozinha. Dois pratos foram preparados: peixe assado “a pizzaiolo” e uma moqueca de tucunaré. Os peixes que foram para o forno (três matrinchãs) inicialmente ficaram imersos em água temperada com verdinhos diversos e sal. Depois de um tempo ali, antes de ir para o forno, receberam generosas injeções da água em que estiveram de molho. Injeção mesmo, com seringa e agulha gigantes! Então, nada de ficar passando sal no peixe antes de levá-lo ao forno, que faz a carne ficar ressecada e dura. Após isso, o toque “a pizzaiolo”: rodelas de cebola e tomate espetadas no couro do peixe. E lá se foram eles para o forno, onde ficaram por mais de hora, regularmente sendo banhados pelo molho inicial de água, sal (pouco) e verdinhos.

Mais havia outro prato pra preparar: a moqueca! Se o peixe é cozido, pode salgar, e com muito sal, para as postas ficarem meio durinhas mesmo. Enquanto isso, pegue as cabeças e cozinhe na água, sem qualquer tempero. Ferveu, começou a desmanchar, apague o fogo e separe todo os ossos, escamas e coisas não comestíveis. O que fica – a água com a cabeça dissolvida – é, olha o segredo da coisa, onde o peixe será cozido. Aí vc pode pegar o peixe salgadíssimo, lavar ele, e colocar na água da cabeça. Se quiser, adicione um pouco de leite de coco, vai do gosto do freguês. Pronta a moqueca, uma delícia!

Finalmente, chegou a hora de comer. A esta altura a fome era grande e o povo estava animado com a cachaça mineira que o Elson Martins trouxe e o cajú com sal. O Edgar e o Edu haviam chegado. As crianças presentes estavam alvoroçadas com as cachorrinhas, crias da Luna e Alecrim que estão agora com um mês de vida. Fizemos ainda uma saladona, arroz, pure de macaxeira e um pirão escaldado com parte do caldo da moqueca e farinha de Cruzeiro do Sul, e a talentosa mão da Elizete. A comilança teve fases e comensais, até o Macedo deu uma passadinha. O Joaquim e família Yawanawa deram a honra da presença, e ainda uma rodada de rapé de alto nível no fim do dia, na varanda, entre as árvores.

É, teve bom, como se diz. Ei, Meirelles, vamos repetir o programa e conhecer outras receitas!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Uma assembléia no tempo IV

O dia seguinte foi aberto com a apresentação das chapas concorrentes e um discurso de cada um dos candidatos, que não assisti pois me atrasei na casa do meu afitrião na foz do Tejo. Quando cheguei ao local da assembléia, a votação fora iniciada. Na escola, de longe, via uma aglomeração absurda de gente, como se todos quisessem votar ao mesmo tempo. Um sol de chuva brilhava e queimava. Não estava muito fácil. O calor era grande. Soube que estava levando muito tempo para que os mesários da eleição encontrassem o nome do eleitor na lista assinada no dia anterior, já que esta não estava em ordem alfabética. O pessoal do BIS, que desde o dia anterior estava ali e ajudara na fila da alimentação, tentava apoiar a organização da muvuca da votação. Não me atrevi a chegar perto.

Logo soube que se decidira mudar o processo: ao invés de procurar o nome das pessoas na lista, os eleitores iriam ser chamados a votar, pelo microfone. E assim o processo reiniciou. Mas a multidão não arredava o pé e a concentração de gente na entrada da sala de votação permanceu. Uma lógica interessante: ao invés de procurar um lugar para se sentar e aguardar seu nome, a maior parte das pessoas queria era ficar ali mesmo, embora apertadas e sem lugar para sentar. O pessoal do BIS continuava no apoio, tentando organizar aquele povo que relutava em ser enfileirado. Bravos rapazes os do BIS, pelo menos vi o Exército servindo o povo naquela foz do Tejo!

Surgiu então um assunto que deu muito o que falar: havia uma solicitação de que a lista de assinaturas para eleitores fosse mais um vez reaberta para os retardatários que chegavam para votar. Isso foi motivo de opiniões contrárias entre os partidários de uma e outra chapa, mas os dois candidatos a presidente acabaram concordando em que a lista fosse reaberta até o meio-dia. Esta autorização foi motivo de crítica dos partidários de Zé Augusto até muito depois de terminada as eleições. Diziam: fora por meio daquele expediente que muitos moradores da vila Thaumaturgo conseguiram votar, mesmo sem residir na Reserva.

O fato é que no domingo a foz do Tejo bombou. Encheu mesmo, muita gente da vila, gente que veio para vender coisas (lanches, refrigerantes, churrasquinhos) e também para passear, e sem dúvida para tentar votar. Não saberia dizer quantos acabaram fazendo-o e nem como conseguiram, já que os mesários supostamente conheciam quem era ou não morador da Reserva. Conversei pelo menos com um atual morador da vila, ex-morador da Reserva mas que tem nesta toda a sua família (pai e irmãos) e que foi impedido de votar. Mas ouvi outros casos onde esta negativa não teria ocorrido. Tem uma ambiguidade aí, pois muitos desses “moradores da vila” (mas não todos) são ex-moradores da Reserva, alguns inclusive mantendo uma casa na vila e outra na Reserva, ou ao menos um roçado ou seu gado, por exemplo. Onde afinal mora esta pessoa? Os estatutos são omissos sobre casos assim, que por sua vez atingem mais aquelas pessoas que moravam perto da vila, e não as dos altos rios.

Por falar em estatutos, gostaria de assinalar que o vice-prefeito eleito, o sr. Maurício Praxedes, permaneceu o sábado e domingo na foz do Tejo, conversando com seu candidato (Domingos), partidários e os que o procuravam. Na foto acima ele conversava com a equipe do BIS. Enfim, esteve bastante ativo durante todo o tempo, mesmo porque, como ele mesmo disse na sua fala de abertura, era um eleitor. Como assim? Pois é, boa pergunta. O fato é que modificações nos estatutos foram realizadas durante os últimos anos, sob o comando de Orleir Fortunato, e nas quais Maurício Praxedes era uma pessoa-chave, controlando o funcionamento da cooperativa. Entre essas mudanças esteve a de permitir que pessoas que prestassem relevantes serviços a Reserva ou a Associação (não sei bem a redação pois este último estatutos, que mais deve parecer uma colcha remendada, nunca chegou as minhas mãos) pudessem votar. Quem será que defendeu uma coisa destas? Pessoas de fora, ou que não são seringueiros ou agricultores, votando numa associação de representação justamente dessas categorias? Acho sinceramente um absurdo este tipo de coisa, um abuso. E caberia ainda perguntar que relevantes serviços são estes já que a Associação encontrava-se sem nem um palito de fósforo próprio?! Quem está no meio de movimento de trabalhadores sem o ser, ou é para apoiar na coadjuvância, ou está querendo tomar a direção da coisa.

E assim a coisa foi indo. Até que caiu a maior chuva, e a lama ficou boa mesmo – pra escorregar! Enquanto isso o almoço saiu, muito tumultuado, segundo relatos, e as eleições não pararam, chamando nome de eleitores a todo momento. Neste meio tempo, inventaram de despachar o combustível para os sócios, e aí a confusão ficou boa e uma fila só conseguiu ser minimamente organizada com a presença a autoridade da Polícia Federal. Muitos reclamavam que o despacho de combustível contemplara moradroes da vila, ou fora feito de forma inadequada, contemplando com muita gasolina quem mora perto e com pouca quem mora longe. Enfim, gasolina, diesel, esses assuntos, são danados pra dar confusão.

Ainda fiquei ali pela foz do Tejo até o final do dia, conversando com velhos amigos e amigas que a todo momento encontrava. Tanta gente boa! Encontrei, por exemplo, com o sr. Iraçu, o primeiro sócio da Associação, como ele mesmo lembrou, ainda nos tempos do Macedo e do Mauro Almeida, como ele também fez questão de assinalar. Emocionou-se dizendo do quão bons eram aqueles tempos, e mandou um abraço para os dois amigos dos quais não esquece.

E muitos representantes dos povos moradores das Terras Indígenas vizinhas a Reserva também se fizeram presentes - uma presença que foi tão marcante nos primeiros tempos da Reserva e que nos últimos dez anos tinha desaparecido. Pois nesta assembléia fizeram-se presentes, inclusive membros de uma aldeia Kaxinawá que está instalada dentro da Reserva, no rio Breu, sem que isso esteja significando qualquer tipo de conflito com os "brancos".

Mais tarde, já na casa do Nonatinho e da Maria, onde também estavam hospedadas outras pessoas, como a vibrante e conversadora-sem-papas-na-língua dona Zefa, irmã da dona Nazaré de quem já falei, e outras pessoas do Bagé, vimos nosso anfitrião, que justamente fazia aniversário naquele dia, entrar chorando em casa e se enfiar dentro do quarto. Logo ele saiu e anunciou que Zé Augusto perdera por 11 votos. Estava inconformado, repetia a todo momento que toda culpa fora da reabertura da lista de votantes naquele domingo. Logo outras pessoas chegaram, todas incorformadas e dizendo que no local da assembléia estava uma tristeza só por parte dos eleitores do Zé Augusto. Mas era aniversário do Nonatinho, e mais tarde não resistimos e cantamos – todos os hóspedes e família – um parabéns bem animado para o nosso anfitrião aniversariante.

Quanto ao Zé Augusto, este só fui ver no dia seguinte, ainda com a mesma roupa do dia anterior e preocupado com o combustível para os sócios voltarem para casa. Seu ânimo não estava comprometido. Disse: “é isso aí, vamos em frente”. É, ficar parado é que não dá. Mas o que será que aconteceu? Votos da vila explicam a derrota, que foi tão apertada? Domingos com 478 votos e Zé Augusto com 467 (mais 12 nulos, totalizando 957 votos). Fiquei pensando se não houvera uma transferência de votos das eleições municipais, ou seja, se muitos dos eleitores do PMDB não teriam transferido seus votos para Domingos nas eleições da Asareaj. Não sei. Será que o Zé Augusto ficou identificado com uma candidatura do PT? Não sei, talvez não, pois se este fosse o caso acho que a diferença teria sido maior entre ele e Domingos. Afinal, foram só 11 votos...

Pegamos – Terri, eu e Eliza, esta debutando na região – uma carona de canoa para voltar para vila e cruzamos com o batelão do fazendeiro Otávio, soltando rojão em comemoração pela vitória de Domingos, imaginamos. Ele, assim como outros, como o sr. Antonio Vieira, associaram-se e votaram nas eleições. Como isso foi possível? Quem os associou? Sua felicidade pela vitória de Domingos não deixava muitas dúvidas sobre isso.

Em Marechal Thaumaturgo, antes de voltar para casa, ainda presenciei uma movimentação ferrenha por parte dos moradores do Bagé, que desceram todos da foz do Tejo para a vila. Estavam inconformados com o resultado das eleições, e com a situação de desrespeito na Reserva. Pela diretoria eleita não nutriam qualquer esperança de mudança. Ainda no mesmo dia veio a notícia de que algumas irregularidades haviam sido identificadas nas eleições da Asareaj: o candidato eleito seria beneficiário do Projeto de Assentamento do Amônia, portanto um assentado; a presença de um número maior de votos do que de eleitores que assinaram a lista; o fato de fazendeiros terem votado. Começou a se formar um movimento daqueles que queriam a impugnação das eleições. Não sei bem como ficou, pois viajei sabendo que estava sendo organizado um abaixo-assinado. A semana passada, por telefone, soube que a ata da assembléia misteriosamente ainda não teria sido registrada. Mas que Domingos estaria em Cruzeiro do Sul, “apoiado por dois advogados” e disposto a brigar na Justiça por sua vitória.

Enfim, aí já estamos no campo da chamada rádio-cipó. Aguardemos os próximos capítulos desta trama, que parece que ainda vai longe...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Uma assembléia no tempo III

Marcada para os dias 25 e 26 de outubro, a assembléia só foi realmente aberta na parte da tarde do primeiro dia. Toda a manhã fora dedicada a cadastrar os sócios-eleitores que chegavam à foz do Tejo, local da assembléia. Esta foi a medida adotada para tentar evitar que não-sócios conseguissem votar nas eleições para presidente da Associação, como ocorreu, segundo relatos, nas últimas assembléias e teriam ajudado a garantir as sucessivas reeleições de Orleir Fortunato. Por “não-sócios” refiro-me aqui aos “moradores da vila”, como são conhecidos os habitantes da sede municipal, distante a menos de uma hora da foz do Tejo. Como se comprovou, a medida não foi de todo descabida, embora também não de todo eficaz.

Apesar do desaparecimento da sala de reuniões, hospedaria e refeitório da Associação – que um colaborador da diretoria que encerrava o mandato convenientemente atribuía ao fato do barranco estar “quebrando” e a roubos praticados por desconhecidos – ou seja, apesar da precariedade das instalações disponíveis, o grupo que, junto com Zé Augusto, organizara a assembléia, o tempo todo defendera que a assembléia devia ocorrer mesmo que “no tempo”, isto é, ao ar livre. A situação em que a Associação realizava sua assembléia espelhava nada mais, nada menos do que a situação real em que se encontrava.

A Prefeitura (do PT) concordara em mandar construir uma estrutura de casa coberta de lona plástica (esta paga com recursos da assembléia), como se vê na foto acima. O chão, contudo, não foi nivelado; era de capim, roçado contudo. A cozinha funcionou na antiga casa de um morador, já desabitada e convertida em sala de aula no período escolar. Na escola propriamente dita funcionou o local de votação. Assim, espaços públicos cobertos eram dois: o da casa de lona, onde ocorreram as atividades do primeiro dia, e a escola.

Para comer, era entrar na fila, pegar o prato e arrumar um canto para se sentar; bancos haviam uns poucos, mas algumas toras de madeira foram convertidas em assentos. Para dormir, a casa de lona foi usada, assim como de moradores da localidade e das proximidades (dentro do rio Tejo, por exemplo); um batelão da prefeitura também foi cedido para as pessoas passarem a rede, assim como o do sr. Otávio, um fazendeiro residente na foz do Caipora, dentro dos limites da Reserva. Assim, a maior parte do espaço ocupado pelos participantes era ao ar livre, sob sol e chuva – tal como profetizado, no tempo.

Após o almoço, que mesmo com pratos insuficientes ocorreu com relativa tranquilidade, foi aberta a assembléia. Não sei dizer quantos participantes encontravam-se naquele momento na foz do Tejo, mas já passávamos dos 400, com certeza. O presidente em exercício, o sr. Evandro Lima Firmino, foi o primeiro a discursar, agradecendo a todos pela presença mas sem dar qualquer esclarecimento sobre a situação da Associação que estava entregando a diretoria a ser eleita. Em seguida, já sob o comando da Mesa Coordenadora dos trabalhos, presidida pelo STR, vários falaram: Benki Pianko(Apiwtxa/Yorenka Ãtame), eu mesma, Adalberto Iannuzzi (ICMBio/Ibama, de Rio Branco), Terri Aquino, Erisberto (vereador encerrando mandato pelo PT e candidato a vice na chapa de Zé Augusto), Maurício Praxedes (verador encerrando mandato pelo PMDB, vice-prefeito eleito pelo mesmo partido e assessor das últimas diretorias da Associação), João (presidente do STR), entre outros.

Já durante a primeira fala, de Benki, a chuva caiu, e forte. Foi interessante, porque criou uma situação de efetiva reunião de todos ali de baixo daquela casa de lona. Não dava para sair dali, e o jeito era ficar bem juntinho. O barulho da chuva na lona era forte, mas o microfone também falava alto, e ali ficamos todos até o final desta abertura mais formal. Ao final de algum tempo de chuva, muitos já estavam com os pés dentro d’água. Mas havia uma predisposição e boa vontade de quem estava ali, isto era visível. Com toda aquela precariedade material, as pessoas estavam interessadas no futuro da Reserva e de sua Associação. Foi mesmo comovente observar isso, mas, mais do que isto, foi gratificante: depois de tantos anos de Reserva, era possível perceber uma maturidade em muitas falas.

Da parte dos convidados, gostaria de registrar aqui a fala do representante estadual do ICMBio/Ibama, que assumiu publicamente a ausência da instituição da área, desculpou-se como pôde explicando a reestruturação pela qual passara o órgão, e, principalmente, comprometendo-se a novamente marcar presença na Reserva. Este ano, assegurou, já haverão algumas reuniões comunitárias visando marcar este tempo de retorno. Este foi um fato relevante, e que merece apoio e monitoramento.

Terminadas as falas dos convidados, o microfone foi aberto para quem desejasse se pronunciar. Várias foram as falas: de dona Nazaré, com seus 80 anos de vida no alto rio Bagé, uma veterana das assembléias da Associação, sempre na primeira fila, assistindo a tudo do primeiro ao último dia; o sr. Sebastião Estêvão, outro veterano dos tempos em que Macedo começou a andar na área; dona Maritô, valente moradora do rio Amônia, dedicada a buscar os direitos daqueles que se acham ameaçados pela criação de uma Terra Indígena naquele rio; Valmar Calixto, da família dos Cunha, compositor e cantor; Toinho Grajaú, do rio Bagé; um morador do rio Caipora, que valentemente denunciou a ação do fazendeiro das imediações amedrontando os moradores; João Gonzaga, seringueiro, poeta e artista, morador da colocação Solidão, no alto rio Bagé, entre outros. O renascer da Reserva era uma imagem constante nessas falas, algumas defendendo um ou outro candidato a presidente da Associação.

Assim encerrou-se o primeiro dia. Minha impressão era que tudo corria bem, e acho que não estava de todo errada. Claro que o pessoal da cozinha e de apoio trabalhava de forma redobrada para dar conta do volume de pessoas que só crescia. Previa-se uma insuficiência de combustível. A lista de cadastramento de sócios-votantes teve que funcionar até as 17 horas dada a chegada a todo instante de moradores da Reserva. A lama tornava o deslocamento dos participantes pelo local bastante desconfortável. Mas o clima era tranquilo, não havia animosidade no ar. Neste dia houve mesmo cantoria, e a dupla João Gonzaga e Joãozinho mais uma vez brindou a todos com suas canções e interpretações.

Para mim, a previsão de vitória nas eleições era imprevisível. Ouvi opiniões contraditórias todo o tempo: “Zé Augusto vai ganhar”, “Domingos vai ganhar”. A disputa era grande, estava claro.